Cultura

O Dodô Não Era Como Você Imagina

Bem-vindo ao deserto do real.

por Roisin Kiberd
19 Março 2015, 7:00pm

​Crédito: Via Tsuji/Flickr

Dentre todos os bichos mortos expostos no Museu de História Natural de Londres, o dodô no térreo é o mais interessante.

Para mim, pelo menos. Quando eu morava em Londres, costumava visitar o pássaro nas manhãs solitárias do final de semana, observando seu rosto triste e encouraçado em um silêncio meditativo. Ele parecia inspirar a peregrinação, de certa forma, servindo como um tótem simbólico dos erros humanos e da tragédia da extinção.

O espécime do museu parece ser uma relíquia biológica, capturado e empalhado antes da extinção de sua espécie, no início do século 18. Mas existe uma outra dimensão, muito mais estranha, relacionada ao pássaro do museu: ele não é um dodô. Ele é um quebra-cabeça, um Franken-dodô feito de partes de outros pássaros costuradas à imagem de algo nunca visto pelo seu criador.

O dodô do Museu de História Natural de Londres. Crédito: H M Cotterill/Flickr

Julian Pender Hume, especialista em dodôs do Museu Nacional, é também um paleontólogo, artista e autor de vários artigos científicos sobre pássaros extintos; além disso, ele é co-autor de um livro chamado Lost Land of the Dodo. Foi para ele que mandei um email perguntando as origens do falso dodô, e qual era o nível de precisão da figura. "Até onde eu sei, os dodôs empalhados — existem dois deles — foram feitos por Rowland Ward, um dos melhores taxidermistas vitorianos, e foram exibidos pela primeira vez no Museu de História Natural por volta de 1890", disse Pender. "Eles são feitos de gesso e penas de cisnes e gansos."

O resultado é literalmente um amontoado de influências, tanto visuais quanto literárias. O dodô existe entre o real e a ficção; metade ciência, metade produto de nossa imaginação.

Arte nascida de arte, essa imagem estilizada do dodô se espalhou feito uma grande fofoca cultural. "Os modelos eram baseados no dodô grande e gordo ilustrado por Roelant Savery, o mais prolífico dos artistas que retrataram os dodôs", disse Hume. "Um deles representa o dodô da Ilha Maurícios, e o outro o dodô branco da ilha vizinha, a ilha de Reunião. Ward errou nos dois. O dodô de Savery é visto atualmente como um exagero crasso da verdadeira aparência do dodô."

Um dodô, segundo Roelant Savery. Crédito: British Museum/Wikimedia

Em um vídeo filmado pelo Museu de História Natural, Hume reimaginou a figura do dodô em uma pintura com base científica, corrigindo o dodô que Savery pintou por volta de 1620. Ele explicou como as representações anteriores exageraram o dodô, criando a imagem que conhecemos hoje. "Ele certamente era um pássaro mais atlético; existe um relato que afirma que ele deixava os humanos para trás quando corria na selva virgem", afirma Hume. O modelo do dodô branco é o mais incorreto dos dois, já que ele nunca existiu: "Sua existência é completamente baseada em relatos escritos por marinheiros que na verdade se referiam a outro pássaro, o solitário-de-rodrigues."

"É como se o dodô tivesse morrido de novo."

O dodô foi extinto em tão pouco tempo que não pôde ser propriamente estudado e preservado. Natural das Ilhas Maurício, a espécie é mencionada em diários de bordo de comerciantes de especiarias e marinheiros. Ao longo dos anos, em resposta a um habitat sem predadores, o pássaro perdeu a capacidade de voar. Suas asas inúteis se encolheram e seu corpo inchou.

Quando os marinheiros trouxeram animais não-nativos para as Ilhas Maurício e devastaram sua mata, a população de dodôs encolheu. Além disso, quando a Companhia das Índias Orientais passou por maus bocados, seus marinheiros começaram a comer a carne do pássaro. A carne era dura e difícil de mastigar, mas não haviam muitas opções. O pássaro seria extinto na mesma época em que esses homens deixaram a ilha, em 1710.

A colonização tem o dom de rescrever a natureza, introduzindo novas narrativas que se tornam reais conforme a realidade desaparece. Um século e meio depois de sua extinção, naturalistas começaram a afirmar que o dodô nunca havia existido. O último espécime foi visto em 1688, e Cornelis Saftleven desenhou um espécime vivo em 1638.

A imagem do dodô sobreviveu aos anos, mas sem muita ligação com a realidade. O único esqueleto completo de dodô existente, encontrado por Etienne Thirioux entre 1899 e 1917, só foi estudado no ano passado, quando cientistas o escanearam para reconstruir a verdadeira aparência do animal.

Outros esqueletos de dodô exibidos em museus são apenas exemplares incompletos, feitos com ossos de vários pássaros (um desses exemplares está no Museu de História Natural de Harvard, o que levou um especialista a comentar, após descobrir a fraude numa visita, que "É como se o dodô tivesse morrido de novo).

Nós moldamos os ossos de outros pássaros e com eles ocupamos as lacunas no nosso conhecimento sobre o dodô. Sabemos muito pouco sobre como esse pássaro realmente era: como ele se movia, suas expressões faciais, até mesmo a cor de suas penas.

Mesmo depois de morto, o dodô continua a inspirar novas histórias. O Dodô de Oxford, composto apenas de uma cabeça e um pé, foi supostamente salvo de um incêndio por um cientista após o espécime ter sido considerado podre demais para ser guardado (uma história narrada nessa matéria do New Yorker). Esses mesmos pedaços de dodô inspiraram Lewis Carroll a inserir a criatura em Alice no País das Maravilhas, como um personagem que é considerado uma auto-paródia gaga.

A cabeça do Dodô de Oxford. Crédito: Ed Schipul/Wikimedia

O rinoceronte de Durer, uma xilogravura que representava o animal como uma fera encouraçada com chifres nas costas e pernas escamosas, foi criado sem que o artista jamais tivesse visto um rinoceronte real, com base em desenhos e descrições. A imagem se popularizou, atravessando a Europa e inspirando artistas a pintar suas próprias versões da criatura imaginada, até ela ser aceita como a representação definitiva da aparência de um rinoceronte.

Será que o mesmo ocorreu com o dodô? Os rinocerontes ainda existem, apesar do risco de extinção, e poucas crianças irão crescer sem nunca ver uma foto ou um vídeo de um. No entanto, não podemos dizer o mesmo do dodô.

Perguntei para Pender Hume se, no caso dos museus, um dodô de mentirinha é melhor do que dodô nenhum, e ele respondeu que "Apesar das novas descobertas sobre o dodô e sua aparência, eu acho que, por razões históricas, os dodôs deveriam ficar onde estão. Eles representam o que nós sabíamos e pensávamos sobre o pássaro na época. Além disso, e apesar de toda a propaganda contrária, as novas ideias sobre a aparência do dodô não são amplamente aceitas."

O que vemos quando olhamos o dodô inventado do museu? Ciência, arte, ou uma mistura dos dois?

Talvez o pássaro pertença mesmo à ficção. Podemos dizer que alguém está "morto como um dodô", mas a verdade é que ele vive no País das Maravilhas.

Tradução: Ananda Pieratti