​Crédito: Virginia Barratt

Uma História Oral Das Primeiras Ciberfeministas

VNS Matrix emergiu durante um verão australiano de 1991, em uma missão de sequestrar os brinquedos dos tecno cowboys e remapear a cibercultura com um viés feminista.

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12 Dezembro 2014, 8:40pm

​Crédito: Virginia Barratt

Nos primórdios anos da rede mundial de computadores, quatro mulheres australianas – Josephine Starrs, Julianne Pierce, Francesca da Rimini e Virginia Barratt – fizeram artes feministas engraçadas e cruéis sob o nome de VNS Matrix. Elas eram parte de um movimento cultural chamado CiberFeminismo, que surgiu no início dos anos 90 e se dissipou em algum momento entre o estouro da bolha do pontocom e o início dos anos 2000.

O VNS Matrix trabalhou em uma grande quantidade de mídia: jogos de computador, instalações de vídeo, eventos, textos e outdoors. No icônico " Manif​esto Ciberfeminista do Século XXI", elas se chamaram de "vírus da desordem do novo mundo", e "exterminadoras dos códigos morais". Com essa irreverente, mas sutil, linguagem, elas articularam uma estética feminista de nariz empinado pegajoso, feio e vigilante

Elas criavam códigos. Elas criavam websites. Elas estavam em salas de bate papo e comunidades de texto online, como LambdaMOO. Elas contavam histórias através de códigos interativos e experiências como o jogo All New Gen em CD-ROM, em que a protagonista feminina lutava para defender um meio de dados industriais militares chamados "Big Daddy Mainframe". Elas acreditavam que a web poderia ser um espaço de experimentação criativa fluida, um lugar para transformar e criar em colaboração com uma comunidade global de artistas com a mesma cabeça.

Mais de vinte anos depois, em muitas conversas feministas acontecendo online, grupos como VNS Matrix e seus compatriotas nas trincheiras ciberfeministas não são frequentemente citadas. Elas deveriam ser. O espírito de alegre subversão é mais relevante, mais astuto, oportuno, mais totalmente necessário hoje do que jamais foi.

Enquanto apurava minha matéria para o Motherboard s​obre CiberFeminismo, eu comecei a trocar emails com membros do VSN Matrix. Elas foram muito generosas, abrindo seus arquivos e dividindo histórias em primeira pessoa sobre suas experiências como mulheres artistas pioneiras nos primeiros dias da internet. Nós decidimos colocar todo esse material junto em uma história do VNS Matrix, contada em suas próprias palavras.

Juntas, nós dividimos essa história com o passado, presente e futuro ciberfeminista.

Poster do VNS Matrix, meio dos anos 90. Crédito: Josephine Starrs

Virginia Barratt: Há uma arca narrativa das gêneses de VNS Matrix que é algo assim: "a VNS Matrix surgiu do pântano cibernético durante um verão no sul da Austrália por 1991, em uma missão de assaltar os brinquedos de tecno cowboys e mapear a cibercultura com uma pegada feminista".

Francesca da Rimini: Nosso grupo formado há 20 anos atrás e realmente era outro mundo, outra vida.

Virginia Barratt: Vivíamos em Adelaide o tempo todo. Eu era diretora da Australian Network for Art and Tech​nology (Rede Australiana de Arte e Tecnologia, em português), um cargo que a Francesca havia acabado de deixar para trabalhar em outros projetos. Julianne e Josie estavam estudando e fazendo arte e performance. Estávamos todas envolvidas em uma bagunça de produção criativa.

Josephine Starrs: A Austrália era uma vanguarda em no cenário de nova mídia de arte, e australianos são geralmente fãs precoces de novas tecnologias, talvez devido à distância física. Artistas mulheres australianas também inovadoras e não têm medo de criticar o ambiente. Essa irreverência e humor poderia talvez ser influência da nossa cultura indígena, e cultura convicta irlandesa?

Virginia Barratt: Francesca se envolveu em um projeto da Australian Network for Art and Technology para fazer a ponte entre artistas e máquinas, facilitando o acesso dos artistas às instituições e seus recursos, especificamente computadores e softwares.

Esse tipo de acesso era sem precedentes, desde quando computadores não eram pessoais e certamente não onipresentes. Foi missão da ANAT criar conexões entre a arte e a ciência. Os resultados foram surpreendentes e não tão surpreendentes em termos de produção – artistas interviam em processos de produção tecnológica – e intervenções socioculturais enquanto as máquinas estavam em sua maior parte a serviço dos senhores do patriarcado nas instituições de comércio, ciência e educação. O acesso às mulheres era limitado e normalmente mediado por um "técnico" homem. A ideia de "brincar" e "produção criativa" ou simples "pesquisa" sem resultados que eram necessariamente úteis em termos do capitalismo eram uma maldição para as indústrias de tecnologia.

Josephine Starrs: O VNS Matrix pré data a tendência dos anos 2000 de arte de jogos no mundo artístico. Nós começamos a criar narrativas divertidas sobre nossas protagonistas femininas de All New Gen e suas vadias DNA. Isso foi em 1990, muito antes da Lara Croft, quando a ideia de uma heroína em um jogo de computador nunca tinha sido ouvida. Nós criamos instalações de arte que incluíam fotografias de jogos para caixas de luzes, sons narrativos e trabalhos de vídeo, e arte interativa.

Convite para a exposição All New Gen,1995. Crédito: Australian Centre for Contemporary Art

Virginia Barratt: A paisagem tecnológica era muito seca, cartesiana, respeitosa. Era acrítica e esmagadoramente dominada por homens. Era um espaço masculinista, nomeado assim, e os guardiões dos códigos (culturais e logos) mantinham controle da produção de tecnologia.

Francesca da Rimini: No início dos anos 90, o capitalismo informacional não tinha pego raiz. A internet era bem menos regulada, bem menos mercantilizada. Mais uma marreta e um bucho do que um centro. Parecia haver possibilidades infinitas, era um campo de imanência, de ser. E era lento, de baixa qualidade, falho. Antes de "falho" ser um movimento cultural. Mas é fácil ser nostálgico daquele tempo.

Virginia Barratt: Foi nesse ambiente que a VNS Matrix se espalhou. Nós entramos em um espaço cultural tortuoso, imaginando uma abordagem feminista para a produção de pornografia – esse foi nosso ponto de partida, e o jeito que nós geramos uma estética diferente, movendo-se rapidamente em uma máquina simbiótica, como a antítese do reinobege descarnado frágil covarde de produção tecnológica . Uma corrente de sessões de escrita consciente que era mais uma exsudação de logo vísceras se transformando através de textos pornográficos feministas e críticos que deram luz ao "Manifesto Ciberfeminista do Século XXI".

No final de 1991, o manifesto foi a peça central de uma grande imagem em outdoor do mesmo nome, emoldurado por ciberfeministas, em um campo de material genético de transformando em novas representações de mulheres, gênero e sexualidade no espaço tecnológico, ambos primordiais, antigos e futuristas, fantásticos e ativos, objetos não passivos. O texto de blasfêmia foi foda e complexo, quente, molhado e alucinante, a serviço de um feminismo que era múltiplo.

O Manifesto CiberFeminista para o Século XXI em exposição, 1995. Crédito: Virginia Barratt

Virginia Barratt: Ao mesmo que nós juntamos ciber e feminismo, Sadi​e P​lant estava trabalhando no desenvolvimento de um currículo em volta do mesmo nome em outra parte do mundo – simultaneamente enviando sinapses através da matriz de lodo. Uma de suas estudantes estava em um feriado na Austrália e aconteceu através de um outdoor, ao lado da Galeria Tin Sheds em Sidney, tirou uma foto, emoldurou-a e presenteou a Sadie. Uma conexão foi esquecida, reunida na carne. Esse é um entendimento de como o feminismo entrou no ciber e o mundo ficou em carne.

Francesca da Rimini: A comunidade ciberfeminista estava louca, selvagem, política, apaixonada. Profundamente divertida. Era política viva e gerando amizades permanentes e redes de apoio. Havia muito amor. Eu acho que era muito europeia, mas então havia algumas mulheres poderosas no Canadá e nos EUA. Como a artista digital jamaicana canadense Camille Turner. E Carmin Karasic, do Elec​tronic Disturbance Theatre.

EDT fez a primeira ação de ataque de negação de serviço – Flodnet – em 1998, muito antes do Anonymous, em solidariedade aos mexicanos zapatistas. Sua ação provocou os militares dos EUA a retaliar contra os ataques de negação de serviço na época. O envolvimento os militares só vieram à luz depois.

Virginia Barratt: Nós honramos a linhagem do ciberfeminismo – naturalmente Do​nna Haraway com sua dicotomia ciborgue/deusa foi uma das nossas heroínas. Outras que estavam trabalhando no campo na época foram pessoas como Brend​a L​aurel, She​rri Turkle, Allucquere R​oseanne Stone.

Irreverência, agência, poder, sexualidade, intensidade, guerrilha feminista, pornô, humor, música. Pós punk/ainda punk. O miserável e subversão do próprio corpo e limpo. Essas eram algumas das marcas da nossa abordagem produtiva, influências e métodos.

Cartão postal do VNS Matrix, descrevendo seu conceito de "G-Slime," 1994. Crédito: Virginia Barratt

Josephine Starrs: Parece que algumas mulheres estavam jogando jogos de computador no início dos anos 90. Uma razão para isso é que a indústria dos games ignoraram mulheres e meninas por mais de uma década, temendo que se as garotas fizessem parte da diversão, os garotos ficariam infelizes de perder sua zona exclusiva de garotos.

Então o VNS Matrix se divertiu fazendo suas próprias artes de games para exibição pública, hackeando motores de game, arrasando as narrativas dominantes de games e criticando o conteúdo da cultura de games com humor.

Das respostas enormemente positivas, recebemos de jovens mulheres artistas e gamers tanto da Austrália quanto internacionalmente, foi óbvio que muitas mulheres ficaram realmente irritadas sendo ativamente excluídas da cultura dos games, o que obviamente virou uma grande força cultural.

Também de All New Gen. Crédito:  Josephine Starrs.

Virginia Barratt: O que aconteceu com o ciberfeminismo? Por que o movimento morreu? O que aconteceu, claro, foi que as narrativas em torno da libertação do racismo, sexismo e assim por diante no admirável mundo virtual forram promessas vazias. Novas estratégias precisavam ser desenvolvidas para lutar desenfreadamente o bullying, fanatismo, discurso de ódio, assim por diante. Cibefeminismo se desdobrou variadamente e a ideia de *movimento* já não era mais relevante.

Francesca da Rimini: Eu acho que as ideias políticas e culturais que esse movimento inspirou continuaram a evoluir e tomar forma. Saca só a colabor​ação da Bloodbath com um time de roller derby, por exemplo. Isso poderia ser lido como uma intervenção ciberfeminista. Garotas, máquinas, esportes radicais. Ou o crescimento de clubes hackers femininos, workshops e eventos como G ha​ck e Gend​erchangers. No sul global há muitos projetos fomentando uma literatura tecnológica crítica e socialmente engajada, e mulheres estão dirigindo e participando muito disso. Alguns projetos não precisam ser rotulados "ciberfeministas", mas elas encarnaram alguns caráteres e atitudes do ciberfeminismo.

Virginia Barratt: Eu acho que VNS Matrix estava fazendo um trabalho. E em um espaço cultural que era muito masculinista, nosso trabalho enquanto pessoas identificadas como femininas e como feministas era derrubar os guardiões dos códigos para acessar uma nova tecnologia poderosa que tinha grandes implicações de dominação e controle do patriarcado e pelo sistema capitalista. Nós fizemos o que tínhamos que fazer na época. Então nosso trabalho estava feito. Deixe as definições para outras pessoas.

Mais tarde, o campo por si só ficou mais cheio e conseguiu endereçar o mergulho dos aspectos políticos das condições culturais do campo da informação tecnológica – mas naquele tempo nós precisávamos ser rápidas e ferozes e derrubar os guardiões dos códigos. Nós tínhamos que quebrar o cofre.

Francesca da Rimini: Ciberfeminismo é um dos muitos feminismos, e o feminismo nunca sumiu.

VNS Matrix, Anjo de Silicone. Crédito: Josephine Starrs