Uma Entrevista com Theresa Jessouroun, de “À Queima Roupa”

O filme conta a historia dos últimos 20 anos de chacinas praticadas por policiais no Rio de Janeiro.

|
nov 10 2014, 2:06pm

​Um policial militar entrou na casa de uma família evangélica em Vigário Geral por engano. Na saída, seu colega chamou sua atenção pelo fato de ele estar sem capuz. Depois de pedir desculpas, o PM colocou o capuz e, acompanhado de alguns colegas, voltou pra dentro da residência e matou todo mundo. Nessa cena do novo documentário À Queima Roupa, a câmera passeia lentamente, com uma música sombria no fundo, sobre as fotos originais, uma por uma: de cada mulher, homem e adolescente, ensanguentados, em suas posições de morte.

A cena acontece no Rio, mas poderia perfeitamente ser Belém, onde, na madrugada de 4 para 5 de novembro, mais de 20 pessoas foram mortas em seis diferentes bairros paraenses numa jornada de vingança e terror que varreu a periferia da capital. Jornais locais dizem que o número de mortos pode chegar a 35. A Secretaria Estadual de Segurança Pública investiga a hipótese de as chacinas terem sido uma vingança de policiais pela morte do cabo da PM Antônio Marcos da Silva Figueiredo, de 43 anos, morto na véspera. A "caça" aos assassinos do cabo Pet, como era conhecido pelos amigos, teria sido combinada e anunciada pelo Facebook e pelo Whatsapp.

À Queima Roupa foi recentemente premiado no Festival de Cinema do Rio. E poderia ter sido rodado na Belém de hoje ou na São Paulo dos anos 60. Filmes assim não poupam a audiência no detalhamento das matanças cometidas pelos policiais militares. Com o testemunho do ex-integrante dos Cavalos Corredores Ivan servindo como um fio condutor da narrativa, o filme conta a historia dos últimos 20 anos de chacinas no Rio de Janeiro. Neste filme cheio de óbitos, o estereótipo que os massacres periódicos no Rio de Janeiro não são representativos do trabalho da PM, pois são causados apenas por alguns "tiros ruins", também morre. De acordo com os dados levantados no filme, o problema é estrutural.

Numa tarde recente aqui, na Cidade Maravilhosa, conversei com a diretora Theresa Jessouroun sobre seu novo documentário, a opinião dela dos eventos constatados e o que ela acha que pode ser feito para se pôr fim a um clima de terror que persegue moradores e policiais que atuam nas periferias da cidade. A entrevista foi feita justamente quando o Fórum Brasileiro de Segurança Pública preparava a publicação de seu 8º anuário, mostrando que, em cinco anos, a polícia matou no Brasil uma média de seis pessoas por dia - número correspondente a todas as pessoas mortas por policiais nos EUA ao longo de 30 anos.

VICE: Seu filme é muito convincente em mostrar que execuções sumárias fazem parte da cultura da polícia militar do Rio de Janeiro por muitos anos, sem previsão de parar. Em sua opinião, o que mudou desde a época da chacina de Vigário Geral até as chacinas de hoje? Quais são as diferenças entre os antigos esquadrões de morte e as atuais milícias?
Theresa Jessouroun: Acho que a frequência com que essas chacinas do tamanho da de Vigário Geral e da Baixada aconteciam diminuiu um pouco, e também muitos corpos estão desaparecendo. E quando não tem corpo, não tem crime. Às vezes, não se sabe exatamente quantas pessoas ainda estão morrendo e essa estatística acaba baixando um pouco por causa desse desaparecimento de corpos. Nós temos uma tradição de violência contra as camadas mais pobres da população praticada ou pelos esquadrões de morte da época, depois pelos Cavalos Corredores, como esse de Vigário Geral. Hoje são as milícias que estão praticando e estabelecendo terror e domínio territorial nessas comunidades da periferia e favelas.

A atriz Rose Perez contou em sua autobiografia que, aos 30 anos, ela foi diagnosticada com o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) baseado nas violências que testemunhou na sua infância no gueto do Brooklyn. Ela especula que muitos comportamentos estereotipados das pessoas dos guetos são, de fato, sintomas de TEPT. Em suas conversas com as famílias das vitimas e com os policiais, você percebe que isso é um problema nas favelas e dentro do corpo da polícia do Rio?
Com certeza. Tenho acompanhado de perto o que acontece com essas famílias, e nós sabemos que tem esse nome, mas, na verdade, eles nem sabem que podem ter um diagnóstico de estresse pós-traumático. Porque o medo que existe nas pessoas, a desestrutura nessas famílias é um assunto muito grave. É o abandono com que as pessoas se encontram por parte do Estado - eles não sabem seus direitos, eles não sabem a quem recorrer, então eles ficam com medo de falar, medo até de denunciar que o próprio filho foi morto. Tem o caso da morte de Diego Belieni no filme, que acaba resultando na morte da juíza Patrícia Acioli. Aquele menino ficou horas em uma casa vazia perto da rua onde ele morava e uma vizinha viu tudo, estava em casa na hora. Ela falou com a polícia logo depois. A polícia foi lá para matar ela, não a encontrou e matou o seu filho. E, alguns meses depois, eles deram tiro no seu outro filho. Ele ficou paralítico. Essa moça está em uma situação que você poderia chamar de estresse pós-traumático, como muitos outros. Isso é uma coisa muito grave, acho porque a pessoa fica desestruturada psicológica e economicamente. Do lado dos policiais o fato é o estresse pós-traumático de um policial com essa ordem de entrar a favela atirando e recebendo bala dos traficantes. Essa violência armada que nós temos aqui provoca níveis absurdos de violência tanto do lado dos moradores inocentes, como dos supostos traficantes e também dos policiais. O policial deve ser preparado pra essa situação de estresse. Eu acho que não poderia acontecer, e essas incursões policiais, que entram matando e atirando do jeito que eles fazem, espalham o estresse por tudo quanto é lado.

Como foi seu relacionamento com Ivan, o X-9 que falou no final do filme que já matou 300 pessoas? Ele chegou às entrevistas cercado por segurança?Não, nunca. Ele está em liberdade condicional, ele tem trabalho. A minha relação com ele foi muito calma, e ele estabeleceu uma relação de confiança mútua. A primeira vez em que estive com ele,estava bem tensa. Eu não o conhecia, mas tinha lido todos os depoimentos que ele tinha dado no processo de Vigário Geral; eu sabia bem quem era ele, mas hoje ele é outra pessoa. Ele ficou 10 anos sob a proteção da polícia, morando em um sítio, e, quando o coronel que conseguiu isso pra ele foi afastado, no dia seguinte, ele foi preso. Então, ele ficou sete anos preso e hoje está cumprindo a liberdade condicional até o ano que vem. Foi um relacionamento totalmente profissional, do início ao fim. Ele sempre manteve a palavra de tudo que ele fez. Ele não anda com segurança. Ele é uma pessoa que anda normalmente, pega metrô, pega ônibus, tudo.

Still cena ficcional. Foto por Stephanie Saramago.

Você já recebeu algum tipo de ameaça durante a filmagem desse documentário?
Eu não recebi nenhuma ameaça dos policiais. Teve algumas coisas estranhas que aconteceram. Um carro parado aqui na porta da minha produtora, que a gente não sabia se era por esse motivo ou não. Teve alguns telefonemas estranhos também, dizendo: "Olha, aqui é o Ivan". Que Ivan? Tem algumas coisas assim que aconteceram, mas eu não fui ameaçada por parte de ninguém, também porque, quando eu fiz a produção, ninguém sabia, não fiz nenhuma divulgação.

Durante um trabalho na produção de uma reportagem para a VICE, o jornalista de guerra inglês Ben Anderson observou que, quando o BOPE entrou na Maré (depois que um de seus soldados foi assassinado) e matou nove pessoas, parece que eles estavam usando táticas comuns de contrainsurgência militar usadas em lugares como Afeganistão e Israel. Lá, o exército mata um número fixo de pessoas para cada um dos seus soldados assassinados – e não só matar soldados inimigos, mas pessoas comunscomo táticapsicológica de espalhar terror nos territórios ocupados. Baseado em sua análise dos últimos 20 anos de chacinas, você acha que a matança de pessoas inocentes era uma estratégia proposital, ou foram eventos isolados?
Com certeza, é uma tática para espalhar terror. Lembra no filme que tem uma menina que falou que eles entraram e mataram 13 adolescentes na frente das namoradas e, três meses depois,mataram mais 13? Eu não sei se eles aprenderam com norte-americanos ou israelenses da forma que você está falando, mas, de alguma forma, eles adotaram sim. As pessoas morrem de medo de falar. Tinha dias em que eu tinha três personagens confirmados e, no dia seguinte, os três desistiram de falar. Então, essa tática com certeza esta sendo adaptada aqui sim. E a milícia também faz isso. Eu queria ter tido um caso de milícia no filme, mas é impossível. Impossível eu falar de uma coisa de milícia, porque, aí sim, eu correria risco de vida. Se alguém reclamar de milícia para a polícia, vai morrer. 

Seu filme não ofereceu muito em termos de soluções, até por que isso não é sempre o papel de um documentário. O que você acha deve ser feito?
Acho que são três soluções. Primeiro, mudar essa polícia, fazer uma transformação. Prepará-los melhor para situações de conflitos e não treinar um policial para eliminar o inimigo, como é feito hoje em dia. Esses policiais deveriam estudar direitos humanos, eles deveriam aprender como atuar dentro das favelas, como lidar com conflitos, até para como viver esse estresse pós-traumático que você falou. Então, acho que eles têm de entender que, se eles matarem, serão culpados.

A segunda coisa é a desmilitarização da polícia, que é um processo muito complexo e muito lento. Existem quatro propostas de desmilitarização da polícia na Câmara e no Senado, no total, que irão tornar a polícia uma polícia única, e não duas que competem entre elas, como a civil e a militar.

A terceira solução seria a legalização de drogas. A guerra ao tráfico iria terminar e, consequentemente, a corrupção da polícia que recebe dinheiro do tráfico.

Mais VICE
Canais VICE