Doutor Rugby: médico e capitão da seleção masculina, Lucas Duque diz estar pronto para ser o azarão das Olimpíadas

"O rugby tem a cara do brasileiro: um povo de muita vontade que não desiste mesmo passando perrengue."

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jul 15 2016, 2:46pm

Conteúdo produzido para a campanha PRECISÃO NÃO VEM FÁCIL de Gillette

Acima, Lucas Duque, o Tanque, passa por cima de um cara deitado em um parque da capital paulista. Crédito: Daniel Ramalho/ Gazeta Press

As seleções masculinas e femininas de rugby estão prestes a serem apresentadas num predião espelhado da Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, em São Paulo, capital. Jornalistas se acotovelam em busca de imagens, fotos, entrevistas e do bolo de cenoura com cobertura de chocolate. A comissão técnica chama, um a um, os 24 jogadores — 12 homens e 12 mulheres — convocados. É o clássico clima de coletiva, aquele ambiente em que o microfone sempre dá uma falhada, a tensão se dissipa no ar e, no fim, dá tudo certo.

Quem entrega o novo uniforme às meninas é a capitã Paula Ishibashi. O time masculino é convocado a seguir. Depois de uma pane no microfone que causa quase dois minutos de um extreme noisey bem maneiro, chega ao centro das atenções Lucas Duque, o Tanque, o capitão e um dos veteranos do elenco. É ele quem chama Boy, Alemão, Rambo e todos os outros caras muito maiores do que ele – sua altura é de 1,70 metros – para seu redor.

Aos 32 anos, Tanque se prepara a primeira Olimpíada da seleção nacional de rugby. A modalidade, que de 1900 a 1924 era praticada com 15 atletas, agora está numa versão, digamos, mais compacta: o rugby de 7. "É uma modalidade mais rápida de organizar", explica Duque. "Em dois dias você faz um torneio com 20 equipes." Dentro de campo também há mudanças. "As jogadas são mais plásticas, há mais espaço no campo. É tipo jogar futebol de campo com equipe de society", define.

Tanque começou a jogar há mais de 15 anos. Foi levado pelo irmão mais velho num jogunho amistoso nos tempos em que a modalidade era quase uma gincana no Brasil. Parou ali no campo por acaso familiar. "Meu irmão mais velho tinha um amigo que jogava no colégio dele que o chamou. Depois disso ele ainda levou eu e meu outro irmão também", conta. E assim se formou o clã Duque. Os três irmãos atuam até hoje em times de rugby no país. O irmão mais novo, Moisés Duque, também foi convocado para as Olimpíadas.

"No começo não tínhamos perspectiva nenhuma, era só mais uma brincadeira em um esporte diferente com bola oval", diz Duque. "Quando a gente começou a jogar o rugby tava começando a se tornar conhecido no Brasil e na nossa cidade, São José dos Campos, o esporte é bem difundido. Desde o começo tivemos alguns apoios e, logo nos primeiros treinos, o técnico me convidou pra fazer parte de um grupo de alto rendimento. Aí eu comecei a me desenvolver, a entrar como titular."


"Se tem baixinho brigando com os grandões é porque alguma coisa ele tem de diferente." Crédito: Sérgio Barzaghi/ Gazeta Press


E o apelido? Por que Tanque? Ele comenta. "Quando comecei era bem mais gordinho e sempre corri muito. Ninguém me segurava. Aí o meu técnico falou: 'Parece um tanquinho de guerra', e ficou". Lucas ainda levanta uma lebre. "Se tem um baixinho brigando com os grandões é porque alguma coisa ele tem de diferente."

A trajetória de Lucas Duque não veio fácil. Tem, diz, muita entrega e muito esforço — a cicatriz ainda viva em seu braço direito é ótimo exemplo disso. Ao ser perguntado sobre a violência, ele é enfático. "O rugby não é violento, violência é outra coisa, mas ele é um esporte agressivo, tem bastante contato físico e machuca, sim. Não vou dizer que não machuca, eu recentemente quebrei o braço pela segunda vez", conta. "Mas até que sou sortudo. Só depois de velho eu fui quebrar esse braço aqui."

Atleta do São José, Duque começou a ser convocado para a seleção em 2005 e hoje é um dos mais experientes do elenco. Participar das Olimpíadas, diz, era algo que nem lhe passava pela cabeça há uma década. "Hoje estamos indo para uma Olimpíada que é uma coisa que, quando comecei, eu nem imaginava", diz. Ele sabe que o time brasileiro não brigará pelas melhores colocações. A intenção é não fazer feio e, se houver oportunidade, surpreender. "A gente joga contra os melhores do mundo e, claro, precisamos ficar mais ligados para não sermos só sacos de pancadas dos outros."

Para não tomar um sacode em campo, a equipe brasileira treina duro cinco dias da semana. De segunda, quarta e sexta o treino é das 8h30 da manhã ao meio-dia, de terça e quinta é um pouco mais puxado e vai até 17h. "O nosso desenvolvimento é entrar lá e jogar bem. Se a gente jogar bem e ver que nos entregamos, vamos sair felizes do campo", conta. "A perspectiva é tentar se classificar em segundo ou terceiro para chegar até as quartas-de-final e ver o que acontece."

Como todos do grupo, Lucas Duque leva o rugby como segundo trampo. Formado em medicina em 2015, ele é um futuro endocrinologista ou ortopedista – o que, convenhamos, lhe ajudaria a cuidar das consequências da carreira no campo. "Hoje em dia a medicina está esperando um pouco porque quero me especializar antes de começar a trabalhar. Estou num período de muitas coisas promissoras no rugby como jogar o Pan-Americano, ter a oportunidade de jogas as Olimpíadas, não dá pra fazer tudo." Ainda assim, conta, dá consultas informais nas concentrações. "Nas viagens, às vezes tem que fazer um trabalho de médico quando um companheiro passa mal. Aí dou uma dica de alguma coisa . Os básicos eu já ensinei e eles não perguntam mais", comenta, sorrindo.

Com olhar de médico, afiado, Duque crê que seu papel no rugby é de desbravador. Seu objetivo é fazer uma campanha animadora nas Olimpíadas para que incentive mais brasileiros a praticar a modalidade. "O rugby tem a cara do brasileiro. É um povo de muita vontade, que não desiste mesmo passando perrengue", diz. "Acho que daqui pouco tempo o rugby vai ser grande no país."

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