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Quem tem medo dos índios Ka’apor?

Sob constante ameaça de madeireiros, índios da Amazônia se reorganizam politicamente e criam sua própria milícia para combater invasores.

por Débora Lopes
13 Outubro 2015, 6:28pm

Indígena que não resiste à tentação de comer carne de uru, um pássaro que mais parece uma galinha, fica medroso. Péssima característica para um guerreiro da floresta. É o que dizem os índios Ka'apor, que, nos últimos anos, rejeitaram a Funai e começaram a se reorganizar política e belicamente para proteger suas terras invadidas por madeireiros e caçadores. Cansados do óbvio (e ululante) descaso do poder público no combate às invasões ilegais, os índios tomaram um passo à frente e criaram sua própria milícia.

Foto: Felipe Larozza/VICE

No final do ano passado, fotos dos Ka'apor despindo, amarrando e xispando madeireiros da região foram publicadas mundo afora. "Perdemos a madeira, destruíram a floresta. Então, eles têm de sentir assim como nós sentimos na pele", disse à VICE Miraté*, um dos representantes dos Ka'apor, quando nossa equipe esteve na Amazônia recentemente. Ele relata que os índios se cansaram de tentar dialogar com os invasores; por isso, a "guerra" foi instaurada. "Não dá pra gente só conversar mais. Nós não mexemos no quintal deles. Nunca fomos roubar galinha lá."

Foto: Felipe Larozza/VICE

Quando encontram caminhões estacionados pela floresta, os indígenas usam uma velha tática de guerrilha: fogo. O mesmo acontece quando pedaços de madeira desflorestada são cruelmente deixados pra trás.

Os conflitos já chegaram às últimas consequências: em abril deste ano, Eusébio, uma das lideranças, morreu ao ser baleado nas costas enquanto voltava de moto para a aldeia. Os índios culpam os madeireiros e dizem que as autoridades não investigaram o caso com precisão.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Hoje, os Ka'apor, que, há cerca de 300 anos, estão no Estado do Maranhão, podem ser considerados pacíficos em relação ao homem branco. No entanto, já foram umas das etnias mais hostis do Brasil. O antropólogo Darcy Ribeiro, que, por muito tempo, estudou e conviveu com eles, atrela a implacabilidade da tribo aos Tupinambás, povo indígena aguerrido que habitou o Brasil por volta do século 16. Em seu livro O Povo Brasileiro (1995), o indigenista escreve que "os Ka'apor são tupinambás tardios. Tupinambás de 500 anos depois, mudados radicalmente no tempo".

Foto: Felipe Larozza/VICE

A autoproteção dos índios não é somente bélica como também política. Uma das primeiras medidas tomadas por eles foi abolir o sistema de cacique, que dizem ter partido da Funai. Eles preferiram democratizar as relações políticas entre a tribo. Para isso, criaram conselhos próprios para cada uma das aldeias e também o conselho gestor, que seria uma espécie de Supremo Tribunal Federal. Ali, o martelo é batido. "Os conselhos, pra nós, são o nosso governo. São eles que definem. Assim como branco tem, nós também temos", afirma o índio Miraté.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Cada conselho de aldeia tem suas pastas, como saúde, educação e cultura. "O conselho de gestão foi criado há um ano e meio", detalha o indígena. "Antes, era cacique. Cacique quem criou não foi Ka'apor, foi a Funai, que trouxe essa ideia pra destruir a nossa organização. Então, a gente se organizou e discutiu. Decidimos que cacique, pra nós, não existe."

Foto: Felipe Larozza/VICE

Além das 10 aldeias existentes na reserva Alto Turiaçu, onde vive a etnia Ka'apor, oito áreas de proteção foram criadas. Elas servem como bases provisórias cujo intuito é intimidar a invasão de madeireiros e caçadores. Os conselhos ajudam a definir ações de segurança.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Entretanto, o ponto essencial na organização de guerrilha dos Ka'apor foi a criação dos guardas florestais, um time formado por 30 índios que diariamente se distribui entre os 535 mil hectares de Terra Indígena (T.I.) para vigiar possíveis invasões. Armados com flechas, facas e outros objetos cortantes, eles defendem o que lhes é de direito. Durante as missões, outros índios engrossam o coro e, esse contingente pode chegar a ter 60 homens.

Foto: Felipe Larozza/VICE

As crianças da tribo são alfabetizadas em português somente depois dos 9 ou 10 anos. Até essa idade, só falam a própria língua, também chamada Ka'apor. Isso reforça o poder da etnia que corre no sangue dos pequenos indígenas e faz com que compreendam, respeitem e robusteçam suas raízes – o que Darcy Rybeiro chamou de "identificação íntima" em um documentário. "Há quatro mil anos que os ciganos são ciganos e judeu é judeu. Por quê? Por uma identificação íntima. Secreta. Lá dentro, ele sente que é judeu. E essa convicção faz dele um judeu. E é a mesma convicção que faz dos índios, índios."

Foto: Felipe Larozza/VICE

Nem todos os Ka'apor falam português. Miraté e os demais líderes, sim. Com vigor, aliás. "Hoje, fazemos autogestão territorial, assim como na educação e na saúde. Por isso [é] que nossa luta está dando certo."

Foto: Felipe Larozza/VICE

Quando perguntado sobre o smartphone que carrega consigo, o indígena relata que "fica mais claro pra também divulgarmos para outros povos". A modernização da rotina indígena acontece também de outras maneiras, embora nem todas as aldeias possuam luz elétrica.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Televisões, roupas, motos e celulares são comuns entre alguns deles. Neste ano, acompanhamos uma ação criada entre os Ka'apor e o Greenpeace, em que câmeras de segurança foram instaladas em algumas estradas da reserva para identificar ações criminosas. Para eles, o uso da tecnologia pode ser um avanço no combate ao desmatamento.

Os Ka'apor temem a violência, mas se preparam para ela. Constantemente ameaçados, eles garantem que não irão abrir mão de suas terras. E, para isso, estão dispostos a tudo. "Eles vêm roubar. Então, eles merecem", finaliza Miraté.

* O nome do entrevistado foi trocado para preservar sua identidade.

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Veja mais fotos dos índios Ka'apor abaixo.

Foto: Felipe Larozza/VICE

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