Desastre em Mariana

Mariana: uma cidade turística sem turistas

O distrito de Bento Rodrigues foi destruído, mas a cidade de Mariana continua a mesma. Porém, vazia e sem turistas.

por Débora Lopes; fotos por Felipe Larozza
09 Dezembro 2015, 4:30pm

A Igreja São Francisco de Assis, no centro histórico de Mariana. Foto: Felipe Larozza/VICE

"Tragédia", "desastre", "caos" e "lama" são algumas das palavras que acompanharam o nome da cidade de Mariana, em Minas Gerais, depois que uma barragem de rejeitos se rompeu no distrito de Bento Rodrigues no início de novembro. Porém a realidade é outra: exceto pelo local destruído, a cidade está intacta. O núcleo histórico, composto pela airosa arquitetura lusitana, com casarões, igrejas, museus, ruas de pedras, sacadas com balcões de ferros trabalhados e janelas em arcos, continua o mesmo.

"As pessoas não vêm porque estão achando que Mariana está acabada. Não tem nada de barro, de lama. Foi distante daqui", desabafa a comerciante Girlei de Cássio

Afora o episódio em Bento Rodrigues, tudo está como sempre esteve. Em nenhum dia o município sofreu com a falta de água – caso de diversas cidades adjacentes, como Governador Valadares. Mariana não foi atingida por uma gotícula de lama sequer. E, agora, quem sofre com isso é a população que vive do turismo. Com medo, ninguém quer viajar para lá.

Girlei de Cássio, proprietária de uma loja de artesanatos. Foto: Felipe Larozza/VICE

O fato vem à tona quando a equipe da VICE para em frente a uma loja de artesanatos em pleno centro histórico. Pela janela, a proprietária Girlei de Cássio comenta com um amigo que a falta de turistas está afetando os negócios. "As pessoas não vêm porque estão achando que Mariana está acabada. E não é. Não é isso que está acontecendo", informa à VICE. "Não tem nada de barro, de lama. Foi distante daqui."

De fato, o distrito de Bento Rodrigues fica a 35 km do centro histórico do município.

O movimento fraco tem afetado a matemática na hora de pagar as contas. "É bem problemático", lamenta Girlei. "Se a gente não vende, complica as despesas que temos no final do mês." Ao se despedir da nossa equipe, a comerciante agradece os poucos objetos que compramos. Apesar de a noite estar caindo e as portas do estabelecimento prestes a serem abaixadas, Girlei suspira baixinho: "Foi minha primeira e única venda do dia".

A cidade de Mariana, em Minas Gerais. Foto: Felipe Larozza/VICE

Para Tane Chiriboga, presidente da Mariana Tur, associação formada por hoteleiros e proprietários de restaurantes, o foco da cidade sempre foram os "turistas de negócios". Ela explica: "Pessoas que prestam serviço pra Vale, pra Samarco, empreiteiras. Essas pessoas não estão vindo porque a Vale está parada e a Samarco está parada."

Ironicamente, a Samarco é a empresa responsável pelo rompimento da barragem. A Vale, por sua vez, é detentora de 50% da mineradora.

Tane relata que tem recebido e-mails de turistas perguntando se é necessário levar água para a estadia em Mariana. "Eles acham que a cidade está sem infraestrutura."

Sr. Zé Dutra, proprietário de uma loja de armarinhos, ferramentas e artesanato. Foto: Felipe Larozza/VICE

Atrás do balcão, o Sr. Zé Dutra aguarda seus clientes, que demoram a aparecer. Proprietário de uma loja de armarinhos, ferramentas e artesanato, ele conta que o negócio foi herdado de seu pai e funciona desde 1947. Para ele, Mariana continua a mesma. "Mas os turistas diminuíram. Isso afetou muito o movimento comercial das redondezas."

Procurada pela reportagem da VICE, a prefeitura de Mariana informa que está preparando um levantamento mais específico para detalhar de onde vêm as receitas do município. Por ora, ela adianta que 80% vêm da mineração. Os outros 20% se dividem entre o turismo e o comércio local.

"Essas informações distorcidas vêm rebentando com a economia local", destaca o guia turístico Geraldo Zuzu sobre as reportagens publicadas envolvendo a cidade de Mariana

O secretário de turismo do município, Vicente Freitas, não havia respondido ao pedido de entrevista da VICE até a publicação desta reportagem.

Geraldo Zuzu, que há 40 anos trabalha como guia turístico em Mariana. Foto: Felipe Larozza/VICE

Guia turístico há 40 anos na cidade, Geraldo Zuzu acredita que o grande problema foi nunca ter desenvolvido outras formas de gerar dinheiro. "O que estamos vendo é isso: uma certa mendicância", destaca. "A impressão que dá é que a cidade não tem uma outra fonte. E ela realmente não tem. Mas, por outro lado, temos de convir que nós pecamos em não desenvolver aqui uma política alternativa de emprego."

Para ele, a administração pública peca. "O que nossos governadores ainda não perceberam é que minério só dá uma safra. Assim como o ouro entrou em escassez, o minério também vai entrar." Geraldo se refere aos tempos áureos da exploração do ouro em Mariana, que se tornou a primeira capital do Estado depois da concorrência entre as vilas que arrecadassem a maior quantidade do cobiçado minério.

Apaixonado pelo município, o guia turístico, que começou guardando carros na rua durante a juventude, cita os pontos mais visitados da cidade, como a Catedral da Sé, o Museu de Arte Sacra e as igrejas São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo. Ele também relembra como o lugar foi construído. "Os portugueses fizeram Mariana nos moldes das cidades interioranas de Portugal pra evitar que sentissem saudade de seu país de origem", conta, inspirado.

A Praça Gomes Freire, no centro histórico de Mariana. Foto: Felipe Larozza/VICE

Geraldo acredita que a imprensa tem colaborado com a situação atual, em que lojas e ruas vazias fazem parte do cenário da cidade. "Essas informações distorcidas vêm rebentando com a economia local."

Para somar na situação calamitosa, a ausência da Samarco também afetará a região. "A cidade vai perder receita", afirma Geraldo. "Vai perder parte do royalty dela do minério. Então, isso vai trazer pra dentro de Mariana uma condição desesperadora", conclui.

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