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Bate ponta, bate cabelo: a curta e explosiva trajetória da drag queen Márcia Pantera no vôlei profissional

Peu Araújo

Peu Araújo

Carlos Márcio José da Silva matou sua carreira nas quadras para renascer como uma das drag queens mais importantes do Brasil.


Márcia preparada para o meet and greet. Foto: Guilherme Santana/VICE

Carlos Márcio desfila entre cabeleireiros em cima de uma bota azul de salto e cano alto. Veste calça jeans justa, boné cheio de brilhos e duas caveiras de diamantes nas orelhas que ornam com uma terceira, maior, presa ao cinto. "A minha função é cuidar dos clientes da hora que chega até a hora de ir embora", diz, numa rara pausa, sobre seu trabalho como hostess do Retrô Hair, na Rua Augusta, em São Paulo. Outra definição de seu serviçoé a que faz "babado e confusão", bordão que repete a todo instante. Sempre de bom humor, chama alguém, brinca, oferece água, café, mexe com outro e flana pelo lugar.

Ele anda com os dias muito corridos. Prova de figurino, ensaio e o roteiro do espetáculo se misturam à rotina de trabalho. O motivo: a comemoração de 28 anos de Márcia Pantera, uma das maiores estrelas da noite gay brasileira. Carlos Márcio José da Silva é a sustentação que dá corpo, alma e força para um dos shows de drag queens mais impressionantes de todo o rolê. No palco ele se transforma em Márcia, uma força inexplicável e magnética que, aos 46 anos,faz seu bate cabelo — movimento em que é a número 1 — dá mosh na plateia e escala as paredes da Blue Space, famosa casa da Barra Funda, lotada.

"Olhar a Márcia atuar é como você ver um furacão, é como você ver aquela força destruidora e renovadora da natureza que você não tem noção do impacto que ela causa", comenta Íkaro Kadosh, que faz performances andrógenas e é amigo da Márcia, e do Márcio, há mais de uma década. "Talvez nem a Márcia saiba do impacto que ela causa em cena, nem a energia que ela leva para as pessoas. Conviver com a Márcia é sempre aprender alguma coisa da essência da arte."


O Márcio aintes da Márcia. Foto: Guilherme Santana/VICE

Este furacão, porém, já causou impacto em outros lugares. Mais precisamente, nas quadras de voleibol. Márcio era um ponta babado e com uma pancada muito forte. "Na escola eu já gostava de jogar vôlei, não sei porque isso entrou na minha veia, no meu sangue", diz. "Com 12, 13 anos eu jogava futebol, mas não gostava porque achava que era muito empurrão, muita briga e eu via briga por nada. Aí fui pro basquete, mas também era muita empurração e não quis jogar aquilo. Aí fui pro vôlei e tinha a rede que impedia essa briga, mas tinha uma equipe, tinham pessoas que jogavam juntas e estavam juntas, sofriam juntas. É isso que eu vou fazer, quando me vi já tava jogando."

Nas quadras da Brasilândia e Freguesia do Ó, região onde cresceu, Márcio começou a se destacar. "Quase parei de estudar uma época porque amava voleibol e tudo era vôlei. Eu almoçava vôlei e jantava vôlei", conta. "A gente montou uma equipe gay, isso com 15 anos. Nosso time era infantil, mas jogava contra adulto."

Não foi bolinho montar um time assumidamente gay há mais de três décadas. Quando o Pinheirinho – ele não tem certeza do nome – ganhava e a meninada arrumava um fuá na comemoração, muitos adversários, machinhos-heteros-bobos, se enfureciam. "Já tivemos que sair correndo de ginásio porque a gente ganhou e ferveu mesmo. Aí queriam bater na gente, isso foi na Vila Mariana. A gente abaixou a cabeça e foi embora pra não apanhar."


A rainha do bate cabelo em ação. Foto: Guilherme Santana/VICE

Mesmo diante do preconceito, Márcio, talvez com a mesma energia violenta que a Pantera apresenta nos palcos, começou a chamar atenção de olheiros. "Eu me destaquei muito no meio disso e me chamaram pra jogar em Suzano, eu fui pra lá", diz. O ponta jogou na equipe por quatro anos, divididos entre a equipe juvenil e profissional. "Foi a melhor experiência da minha vida porque foi eu e a Lica. A Lica era uma outra bicha. Eu batia ponta e ela batia meio."

A Lica, ou Leandro, também treinava na equipe da Freguesia do Ó. "Quando a gente chegou, os meninos perceberam que a gente era diferente", conta Márcio. "No primeiro treino a gente jogou com um short largão, a gente adorava short bem curtinho, apertado e o técnico falou que infelizmente não dava pra usarmos isso, então usávamos por baixo do short largo."

Não foi fácil no começo, conta. "No segundo dia o técnico falou: 'Márcio, pode se apresentar'. Eu me apresentei, a Lica se apresentou e ele disse: 'vocês não têm mais nada pra falar?' E disse: 'Então, pessoal, os dois são gays'. A gente se encolheu na hora. Era o segundo tipo de treino, estávamos fazendo teste ainda. Foi algo que não senti preconceito, mas não entendi direito", recorda. "Eles montaram as equipes. Eu lembro de todos porque eram lindos. Lembro que no primeiro jogo a gente arrasou, meu. A equipe toda veio falar com a gente. Isso deixou a gente bem."

Depois disso os novos jogadores foram incorporados ao elenco. Mas, como é de se imaginar, ser assumidamente gay dentro das quadras não era tarefa simples. Márcio usava essa energia a seu favor. " A minha vontade de jogar, de mostrar o que eu sabia fazer era muito grande porque, quando me apontassem, eles iam ter que encolher o dedo", ele comenta. "Eu sofri preconceito na quadra. Eu adorava. Quando eu caí na real, que fui catando como era o fubá todo, isso me deixava muito maior, muito maior. Quando eu escutava: 'Aê negão viado'. Até o nosso técnico puxava a gente nisso. Aí era confusão, mexia no ego. Eu jogava o triplo do que eu jogava, sempre fui um cara muito forte."


Márcia & Kennedy. Amor de longos anos. Foto: Guilherme Santana/VICE

O vôlei proporcionou ainda espaço para paixões adolescentes. Márcio se apaixonou por um dos meninos. "Aí foi rolando, foi rolando, foi rolando, mas era escondido. Acabei saindo com ele, dormi na cama dele. Voltava pro meu quarto de madrugada ou ele vinha pro meu quarto na madrugada, me puxava assim. Aquelas coisas de adolescente. Eu tava apaixonado demais por ele, se eu visse alguém olhando pra ele, meu Deus. Era uma coisa."

Em meio as paixões, Márcio queria ir além. Fez testes em equipes maiores, passou, jogou. Feito mágica, a carruagem de repente virava abóbora."Fiz testes em clubes grandes, mas nesses clubes que sofri preconceito. Eu fiz teste no Paulistano, Santo André, Palmeiras e passei. Com o tempo fui me soltando e os caras falavam: 'Ó, não dá não'. Fiz teste em vários lugares, passei quase em todos, mas quando descobriam que eu era gay, acabavam me dispensando."

Além do preconceito, Márcio teve outro fator determinante para se aposentar das quadras ainda muito jovem: a noite. "Eu treinava e morava lá em Suzano, mas no final de semana eu vinha ferver aqui", conta. "Uma amiga me trazia pra boate, pra Nostromundo. Foi onde eu vi o meu primeiro show, onde eu conheci a noite. Eu tinha 17." Márcio faz questão de lembrar da performance de Marcinha do Corintho na tradicional boate das drags. "Quando eu a vi no palco falei: 'Nossa Senhora, eu quero fazer isso'."


Nos braços da Blue Space. Foto: Guilherme Santana/VICE

Assim como ocorreu no vôlei, Márcio foi sendo tragado pela noite. "Quando eu percebi já estava num concurso, acabei ganhando uns e já me chamaram pra fazer um sábado. E na minha cabeça sábado eram os dias 'daqueles shows'", enfatiza. "Na hora que eu entrei no camarim estavam todas lá, só as TOP que eu assistia os shows e eu estava ali me maquiando com elas". "Acabava o show, eu tirava a maquiagem, ia pra casa e no outro dia tinha treino, tinha escola. Eu voltava pra Suzano. Só que isso começou a ficar grande, a Márcia começou a aparecer mais, não era Pantera ainda. Um dia cheguei no clube e falei: 'Meninos, tô caindo fora'. O técnico também falou que eu não tava rendendo mais."

Ele se recorda da primeira montagem. "Foi um desastre, né. Eu não sabia fazer tudo, não sabia me maquiar direito", diz. "No meu primeiro show, que foi no concurso, eu tinha um patins com um saltinho atrás. Eu arranquei os patins, coloquei essa bota, arrumei um biquíni de Carnaval porque a única coisa que eu sabia fazer era sambar e falei vambora. Quem me maquiou foi a Chayenne Crec Crec, do Rio, que mora hoje na Alemanha. Quando ela terminou, falou: 'Viaaaado, você tá a cara da Whitney Houston'. Whitney Houston sambando, imagina."

E assim o Márcio do Suzano abriu espaço para a Márcia, ainda sem Pantera. O sobrenome artístico veio por causa do modelo Marcos Pantera, irmão da Monique Evans. "Eu em casa, de gayzinho, tinha um caderno com todas as fotos dele. Era um moreno que desfilava pro Armani e meu sonho desde pequeno era ser modelo". Um dia Márcia o encontrou pessoalmente num trabalho de passarela e se ofereceu para herdar o epíteto felino. "Quand vi ele fiquei doida. Aí falei pra ele: 'Ah, eu sou Márcia e tal. Amo seu sobrenome, Pantera, bem que o meu podia ser Márcia Pantera'. Ele falou para eu ficar à vontade e foi de uma simpatia gigante. O Márcia Pantera veio daí."


Close certo. Foto: Guilherme Santana/VICE.

A Pantera, aquela que escalava as paredes, batia o cabelo e deixava todo mundo em choque na plateia, começou a configurar entre as grandes artistas da noite. Foi a primeira musa do estilista Alexandre Herchcovitch. Ele fez mais de 300 modelos para Márcia – desses tantos, 250 macacões.

Na noite do dia 10 de junho, Márcio chegou acompanhado de seu marido, o Kennedy, por volta das 22h à boate Blue Space, onde haveria uma edição da festa Priscilla em sua homenagem. Junto de Márcio há 15 anos, o companheiro se desdobra em elogios. "Não tenho palavras pra falar dele. Ele é um cara exemplar, trabalhador. Ele me fez enxergar bastante coisa. Sem ele eu não sou nada", diz. E fala sobre o Márcio e a Márcia: "Fui conhecer a Márcia depois de dois anos de namoro. Na hora que vi entrei em choque. Falei: 'agora vou casar com a nega'. Ela me ensina ver ao redor. Amo muito a Márcia e também o Márcio."

Nitidamente ansioso, Márcio estava ali para celebrar os 28 anos de uma carreira que, apesar dos brilhos, paetês e babados, é feita com muito suor, sangue e amor. "É um show que estou preparando há dois anos, todo mês eu guardo um dinheirinho na caixinha da Márcia. Eu ia pra Nova York agora em julho ou setembro, mas não vou viajar para investir no show. Até agora já foi 10 mil reais."


Onde a mágica acontece. Foto: Guilherme Santana/VICE

Márcia Pantera vai se transformando diante dos nossos olhos. Só de cueca, ele começa a passar uma base, afinar os traços masculinos de seu rosto e dos seus gestos. Coloca uma meia-calça, um Pirelli (espécie de acolchoado para deixar as coxas mais tunadas), um sutiã e uma enorme peruca. Márcia está pronta para o meet and greet. Ela volta ao camarim, troca de roupa e despenca para o palco. É hora do show. É hora de Márcia soltar todas as suas feras no palco. Ela entra com"Ilê Pérola Negra", de Daniela Mercury, nos alto falantes. "Lá vem a negrada que faz o astral da avenida. Mas que coisa tão linda, quando ela passa me faz chorar". A Pantera samba como uma passista e, com um belo sorriso no rosto, se despe diante de uma Blue Space que delira.

Ela entra mais duas vezes, com dois figurinos distintos, e vestida de macacão se atira no público que a segura e a abraça. Ela corre até suas tias e primas que estão no camarote. Está eufórica. Descalça, escala o fundo da boate, aparece lá em cima divando e dançando. Corre, volta ao palco e mal contém o choro na hora de agradecer. Dá para sentir a mesma vibração e energia de Márcio, aquela fera do vôlei que se despediu de sua carreira há muitos anos e hoje desfila o salto 42 pra lá e pra cá entre as cadeiras do Retrô. Dá para ver, também, que a Pantera encontrou e ainda domina seu hábitat natural: o palco.


Márcia é babado e confusão. Foto: Guilherme Santana/VICE