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Edição "Sai da Frente que Estou Passando"

A Batalha Mortal pelos Metais Preciosos da Colômbia

As reservas de ouro da Colômbia eram um prêmio formidável para os colonizadores espanhóis, que importaram escravos africanos para trabalhar nos ricos veios da colônia.

por Nadja Drost
15 Janeiro 2015, 11:00am

Mineiros quebram pedras contendo minério de ouro na mina La Roca em Antioquia, Colômbia. Fotos por Stephen Ferry.

Quando as pessoas de Segovia, Colômbia, um poeirento centro minerador 200 km a nordeste de Medellín, falavam sobre o que aconteceu lá, elas diziam que a violência que explodiu na cidade começou com o massacre. Quatro membros e associados de uma família foram emboscados numa reunião para decidir o destino de uma mina local, La Roca. Por trás das mortes, segundo eles, estava uma importante figura local. Ninguém falava sobre ele a não ser em sussurros. Ele era conhecido apenas como Jairo Hugo.

Para entender Jairo Hugo Escobar Cataño – seu nome completo raramente usado – é preciso entender o ouro. As reservas de ouro da Colômbia eram um prêmio formidável para os colonizadores espanhóis, que importaram escravos africanos para trabalhar nos ricos veios da colônia. Essa sempre foi uma indústria lucrativa, mas nunca tanto como quando os preços do minério dispararam na última década. Entre 2000 e 2007, o preço médio do ouro mais que dobrou, de US$ 279 para $695 a onça (28 gramas). Em 2011, isso já tinha mais que dobrado de novo, para US$ 1.572 a onça. Uma corrida do ouro varreu partes da Colômbia, e o narcotráfico – tanto organizações de guerrilha como paramilitares – se voltou para o metal para compensar os lucros perdidos no comércio de drogas. Em muitas partes do país, o ouro se tornou a nova cocaína.

Em poucas partes do país isso fica tão óbvio quanto na região onde Hugo ascendeu ao poder. Hugo trabalhou por um tempo como mineiro, depois serviu cinco anos como policial auxiliar num assentamento próximo a Segovia. Nos anos 90, ele fez sua primeira incursão no negócio do ouro – comprando diretamente das minas, refinando e derretendo o metal em barras para vender a grandes exportadores em Medellín.Muito da produção do país continua vindo do trabalho de mineiros tradicionais – muitas vezes atuando sem permissão oficial, às margens das reivindicações legais de grandes empresas. O resto vem principalmente de grupos clandestinos que apareceram por todo o país enquanto o mercado crescia, dinamitando morros, dragando leitos de rios e rasgando a paisagem natural com retroescavadeiras, deixando cenas quase lunares pelo caminho. Essas operações geralmente estão interligadas – voluntariamente ou não – com o submundo do crime da Colômbia. Muitas minas pagam taxas de extorsão para qualquer que seja o grupo armado no comando da região. Às vezes os bandidos agem como acionistas de uma mina. O resultado: uma porção da venda do ouro vai diretamente para os cofres das milícias.

Hugo era um empresário inteligente e logo ramificou por conta própria, começando duas lojas de compra de ouro. Aí, em 2008, ele convenceu uma grande empresa mineradora a alugar uma de suas propriedades abandonadas. Sua mina, La Empalizada, rapidamente se tornou uma das mais rentáveis da história de Segovia. Nessa época ele também desenvolveu ligações com os poderosos Rastrojos, uma organização paramilitar de tráfico saída de um dos cartéis mais poderosos do país.

Me disseram que em sua cidade natal, Remedios, a cerca de 30 minutos de Segovia, "ele é visto como um rei, um deus".

Os donos de La Roca, a mina que desencadeou o massacre, eram de uma família chamada Serafines, famosa na classe mineradora independente de pequenas propriedades, que vem escavando o interior da Colômbia há gerações. Por 18 meses os Serafines cavaram, explodiram e arrastaram rochas ilegalmente até que, na primavera de 2011, toparam com um veio incrivelmente rico. Quando visitei o local, La Roca estava produzindo cerca de US$ 700 mil em ouro por mês, a tornando uma das minas independentes mais ricas de Segovia. Os Serafines foram de ratos de igreja a deuses da noite para o dia.

Logo depois que os Serafines acharam o ouro, dois homens armados apareceram na casa de um membro da família. Os homens, como a família depois contou, eram membros do Rastrojos. Eles não só exigiam uma taxa de extorsão – eles disseram que Hugo queria a mina. Mais tarde, numa reunião perto de um rio, os Rastrojos disseram que Hugo estava oferecendo ao grupo $60 mil para tomar a mina deles. "Ninguém sai até resolvermos isso", disse o comandante dos Rastrojos.

Mas os Serafines não cederam, e em dezembro daquele ano, dois membros da família e três associados foram levados para uma reunião nos arredores de Segovia, num lugar chamado Altos de Muertos. Quatro deles foram mortos quase que imediatamente. O investigador da polícia na cena descreveu os corpos para um colega como re-muertos, ou seja, bem, bem mortos. Cerca de um mês antes, os comandantes nacionais dos Rastrojos tinham feito um acordo com um grupo chamado Urabeños – a única outra organização criminosa de alcance nacional. Esse era um grupo de ex-paramilitares que expandiu para além de sua base, entrando assim em conflito com os Rastrojos por rotas de tráfico de drogas e território. Cansados de ver sangue, os dois grupos decidiram negociar uma trégua. O acordo entregava aos Urabeños o controle do nordeste da região mineradora por 6 bilhões de pesos, ou US$ 3,3 milhões.

Depois do massacre, dissidentes locais dos Rastrojos, suspeitando do acordo e desconfiados das intenções dos Urabeños, resolveram formar uma nova milícia. Esses dissidentes cobraram uma nova taxa dos habitantes e das minas da região, usando os lucros para comprar metralhadoras, morteiros e lançadores de granadas através de seus contatos com o exército colombiano. Logo suas fileiras cresceram para quase 200 combatentes. Uma guerra estourou entre os Urabeños e os dissidentes do Rastrojos.

E os civis acabaram no meio do fogo cruzado dos grupos, que exigiam lealdade absoluta, e ajuda, de quem vivia em seus territórios. Qualquer um que fosse acusado de ser informante – um comerciante, um dono de lotérica, um taxista, um mineiro – qualquer um podia ser uma vítima.


A polícia patrulhando as ruas de Segovia.

Mas os Serafines sobreviventes continuaram a ser os principais alvos dos dissidentes, que a família acusava de servir aos interesses escusos de Hugo. Depois da morte dos membros da família, os Serafines perceberam que tinham duas opções. Eles podiam perder muito sangue e dinheiro entrando diretamente no conflito. Ou podiam empregar uma estratégia de guerra fria – enfraquecendo seus inimigos não com balas, mas com trocas estratégicas de inteligência, deixando a polícia e os grupos militares lutarem a guerra por eles. Os Serafines escolheram a última opção, mas também contrataram um exército de proteção composto por mais de 30 homens armados.

No escritório da promotoria geral em Medellín, a tarefa de desmantelar o monstro mutante da dissidência dos Rastrojos no nordeste tinha caído no colo de um promotor estadual. Entre as muitas investigações que chegaram a sua mesa estava o caso que os investigadores da polícia tinham montado contra Hugo. Finalmente, em 11 de novembro de 2012, um mandado de prisão contra Hugo foi discretamente concedido entre outros para 17 dissidentes dos Rastrojos. A polícia regional o prendeu um pouco depois.

Quando voltei a Segovia menos de três meses depois, em fevereiro de 2013, encontrei a cidade num estado de emergência não oficial. A guerra tinha continuado sem Hugo. No final de 2012, a produção de ouro na cidade tinha quase dobrado, e o número de assassinatos quadruplicou. Remedios e Segovia agora tinham a maior e a segunda maior taxa de homicídios do país respectivamente.

Parecia que a luta nunca ia terminar – então, um dia, ela terminou. No começo de maio de 2013, cópias de um comunicado apareceram pelas ruas de Segovia, anunciando "o fim da guerra" no nordeste. "Nos sentamos à mesa com o único objetivo de parar a barbaridade", dizia o aviso. "Hoje, graças a DEUS, estamos respirando Paz." Os Urabeños e os dissidentes dos Rastrojos, explicava o panfleto, tinham decidido juntar forças. O novo grupo recém-unificado convidava "todos que partiram a voltar".

Vários dissidentes dos Rastrojos disseram que Hugo estava convencido de que os Serafines estavam por trás de um atentado anterior à vida dele, e que esse era o motivo para ter ordenado as mortes. Alguns apontaram seu desejo por La Roca. Outros dissidentes disseram aos promotores que logo depois de se recuperar da tentativa de assassinato, Hugo teria se encontrado com comandantes de vários grupos e negociado um preço de $400 mil para matar os Serafines.

Enquanto isso, os Serafines tinham seus próprios segredos. Meses depois que os Urabeños tomaram o controle da região e das minas de ouro, três dissidentes presos dos Rastrojos me disseram que os Serafines vinham financiando seus inimigos, os Urabeños, durante a maior parte da guerra. Uma alegação que o chefe da segurança dos Serafines eventualmente me confirmou, acrescentando que ele e os colegas também tinham fornecido informação aos Urabeños – fotos, nomes e outras formas de inteligência – para ajudar a derrubar o rival. "Eu coloquei a informação sobre os bandidos num prato, e eles se mataram entre si", me explicou o chefe da segurança durante minha visita à mina, num dia calmo de verão.

Lembrei da conversa que eu tinha tido com o promotor estadual em junho de 2012, quando seu escritório estava no meio de uma campanha para prender os dissidentes dos Rastrojos. "Eles dizem às vezes que somos idiotas úteis", ele contou, com uma nota de tristeza na voz. Ele sabia tão bem quanto qualquer um que o crime na Colômbia abomina o vácuo. "De certa maneira, você pode até dizer que estamos dando o território aos Urabeños", ele disse.

Talvez os Serafines não fossem melhores que Hugo, apoiando uma milícia sanguinária para servir seus propósitos. Ou talvez eu fosse ingênua em pensar que alguém em Segovia tinha o luxo de não escolher lados. Tentar ficar acima de um conflito onde o poder muda de lado tão caprichosa e violentamente quanto em Segovia era impossível. Como um comandante dos Rastrojos me disse, só uma lei que se mantém na cidade – "o peixe grande come o peixe pequeno".

Para conhecer a história completa por trás da guerra pelo ouro em Segovia, leia o texto The Devil Undergound no Atavist.com, feito em parceria com o Investigative Fund do Nation Institute.

Tradução: Marina Schnoor