A Fórmula do Rolezinho

Entrevistamos o Jefferson Luis, um cara de 20 anos que divide seu tempo trabalhando como ajudante geral em uma empresa, escrevendo músicas para seu projeto como MC e bombando rolezinhos no shopping.

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17 janeiro 2014, 7:50pm

Como você já deve (estar cansado de) saber, um evento marcado no Facebook juntou uma puta galera — em números absolutos isso significa“mais de seis mil pessoas” — no Shopping Metrô Itaquera, dia 8 de dezembro do ano recém-finalizado. No sábado seguinte, outro evento convocado pela rede social invadiu os corredores de outro templo sagrado do consumo, dessa vez em Guarulhos. Dois mil adolescentes, na faixa dos 14 e 18 anos, reuniram-se no Shopping Internacional. Era a segunda edição midiaticamente visível do que alguns bradavam ser uma manifestação contra a marginalização da periferia nos espaços público-privados e, outros, acusavam de baderna inconsequente de um monte de desocupados zueiros. Já o nome que a molecada escolheu é Rolezinho.

Antes de cagarmos mais uma regra sobre o que é ou deixa de ser esse Rolezinho, gostaria de deixar claro alguns dados circunstanciais. Se você tem menos de 30 anos — e acho que estou chutando por baixo aqui — sabe bem que encontros de jovens em shoppings são algo bastante comum. Aliás, tem 98% de chance de você mesmo já ter reunido uns amigos só para tomar uma casquinha de sorvete insossa e perambular pelos corredores em bandos. Namorar, conversar, comer aquela larica e, eventualmente, dar uma zoada. Ah, lembra dos Orkontros também? Agora é tudo ainda mais fácil: você cria o role no Facebook, torna público e autoriza seus amigos a convidarem outros amigos. Pronto, seu evento tem tudo para se tornar um Rolezinho bombando, lotadão e cheio de azaração no maior astral. Quantos amigos você tem no Facebook? Uns 300? Uns 500, por aí. E seguidores no Facebook? Então, o lance é que os caras que estão puxando esses encontros agora tem tipo uns 2.500 seguidores, uma molecada que não só é amiga, mas tem algum tipo de idolatria por essas figuras. E quanto mais seguidores eles têm, mais justificada fica essa idolatria. Um chama duas mil pessoas, outro chama outras duas mil (quatro mil), essas quatro mil chamam sei lá quantas e quando você vê a Polícia Militar mobilizou a Tropa de Choque no local do encontro.

Foi isso que aconteceu no começo de 2012 quando fãs do MC Gui se reuniram no Shopping Metrô Tatuapé. E isso não acontece só em São Paulo, não são só periféricos, não são só funkeiros.  Até nos EUA um grupo de 400 jovens causou ao marcar encontro no Kings Plaza Shopping Center, em Nova York, ano passado. O shopping é o ponto de encontro da imensa maioria dos jovens urbanos. Seja elite ou pobre, todo mundo vaipara lá e, principalmente os menores de idade, veem a coisa toda como lazer e não um lugar que induz você a consumir ou algo assim. E onde eles e os amigos querem ir, é lá onde vai estar todo mundo.

Encontrei o nome de um dos organizadores do segundo Rolezinho em uma matéria sobre o assunto e o procurei no Facebook, para conversar sobre a criação do evento. Mandei uma mensagem me apresentando e comunicando minha intenção em entrevistá-lo. A resposta foi um educado ‘não, obrigado!’. Tive que insistir um pouco, mas ele aceitou conversar comigo. Jefferson Luis é um cara de 20 anos que divide seu tempo trabalhando como ajudante geral em uma empresa (ele não quis me dizer qual) de Guarulhos e escrevendo músicas para seu projeto como MC, que existe há seis anos. Ele é seguido por 2.533 pessoas no Facebook e conhecido como MC Jota L. É “casado” com outro perfil seu na rede, um com menos seguidores e que, imagino, deve ser sua conta pessoal. Diferente do estereótipo de funkeiro ostentação definido como característico dos participantes do Rolezinho, Jefferson pouco se importa com marcas. Compra para se sentir bem e estar na fita para as gatas. E admite a espontaneidade do movimento que, sem intenções, ajudou a criar. Eis um pouco do que conversamos, via Facebook e Skype.

VICE: Você deu entrevista para o Estadão e para o jornal O Globo, não deu? Não seria legal dar entrevista para uma revista como a VICE e dar outro tipo de visibilidade ao que você tem a dizer?
Jefferson Luis: Pelo simples fato de eu ter dado entrevista pra Record, dois minutos falando, e eles terem colocado 10 segundos. Pelo mesmo motivo de eu ter dado entrevista para o jornal agora e eles terem distorcido tudo o que eu falei. Os únicos jornais que passaram exatamente o que eu falei foram o G1 e o Estadão, então eu não tenho garantia alguma que você vai publicar exatamente o que eu falei, meu nome está em jogo minha imagem como MC está em jogo e vocês podem publicar o que quiserem que não vão se prejudicar, mas eu sim.

Como assim você é MC? Tem alguma música pra me mostrar aí?
http://www.youtube.com/user/JeffersonLuiisz

Você classifica seu funk como ostentação?
Também, mas eu foco mais no funk consciente. Eu tento passar uma mensagem né, porque a gente como MC tem o poder de fazer os outros escutar. Se a gente passar uma mensagem ruim, vai tá contribuindo com o ruim. Tem sempre que passar uma mensagem boa.

O que é uma mensagem ruim?
Ah, apologia né? Desvalorizar as mulheres, apologia ao crime. Acho que são mensagens ruins.

Onde você costumava encontrar seus amigos entre os 14 e 18 anos?
Ah, eu empinava pipa e jogava bola. A gente colava no shopping, mas sempre tinha discriminação. Como a gente não tinha muito dinheiro, a gente se sentia “Ah, vou no shopping sem dinheiro fazer o quê? Não tenho como comprar nada”. A gente ia mais para passear mesmo. A discriminação era por parte da segurança e dos lojistas. O segurança via a gente entrando desarrumando, pobre, já passava no rádio um aviso pros outros seguranças ficar de olho, entendeu? A gente ia no Shopping Internacional de Guarulhos mesmo, o mais perto.

Você costuma comprar muitos artigos de marca? Quais são suas marcas preferidas?
Eu não ligo muito pra marca não, quando tenho condição eu compro. Eu vou mais pelo meu gosto. Pode ser de marca, pode ser Paraguai. Se eu gostar eu compro, não ligo muito pra isso não.

Por que você decidiu criar o evento Rolezinho do Shopping Internacional de Guarulhos?
A gente não tem muito espaço de lazer. O meio que a gente encontrou foi esse e o shopping é um lugar legal. Antigamente, eu não tinha tanta condição, mas hoje eu tenho dinheiro pra comprar um sorvete, um lanche. É um lugar legal e tem segurança, entendeu? Dá vontade de frequentar. Então, como a gente não tem algo legal, um espaço legal para jovens, a gente decidiu montar um role lá.

Você marcou o role antes ou depois do que aconteceu no Shopping Metro Itaquera?
Então, foi na mesma época. Eu não sabia direito o que tinha acontecido lá, então, tipo, os eventos não têm muita relação. A gente chamou os amigos para curtir e se conhecer. O que aconteceu foi que cada amigo foi chamando uma galera e quando a gente foi ver tinha uma galera confirmada.

Por que você acha que o Rolezinho atrai tantos jovens num mesmo lugar?
Como não tem outro lugar, outro tipo de role, foi uma oportunidade de a galera se conhecer, de fazer uma coisa diferente. Então todo mundo topou e apareceu.

Como você se sentiu diante da reação dos clientes e lojistas do shopping naquele dia?
Acho que as pessoas tão com essa opinião de baderna porque tem gente que se aproveita da situação, mas isso aí é trabalho da policia. Pegar essas pessoas e fazer alguma coisa, não pegar todo mundo. Tão generalizando demais, não tão sabendo separar.

Algum amigo ou conhecido seu foi detido pela polícia?
Teve gente que eu conhecia e como tá nos jornais, não teve roubo ou nada de crime exatamente. Eles pegaram uma galera meio aleatória. Viram uns caras correndo com cara de bandido e pronto, pegaram. Foi coisa da policia.

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