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O novo 'Ghost in the Shell' é bom?

O remake norte-americano do anime cult japonês foi atormentado por controvérsia desde de seu anúncio — e, sinceramente, é um filme bem insípido.

por Hannah Ewens
31 Março 2017, 11:00am

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK.

Parece que Hollywood finalmente percebeu que você só pode lançar um certo número de filmes de super-heróis no espaço de uma década. Por isso, agora o foco é nos animes. Ainda estão tentando forçar uma versão em live-action do clássico cult Akira, e o Netflix está fazendo uma série do mangá e anime Death Note – o trailer não ficou bom, hein, e, claro, a história se passa nos EUA em vez de no Japão – e A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell [é, o nome ficou assim em pt-br], baseado em outro anime clássico, estreou nesta sexta (31).

E essa tendência não veio sem polêmica. Por um lado, eles arrogantemente se recusaram a escalar atores japoneses, por outro, tinha a inevitabilidade da breguice de Hollywood estampando histórias e temas que são distintamente japoneses. Uma coisa é fazer um live-action tosco de A Bela e a Fera, outra é investir em versões capengas de histórias enraizadas em outra cultura. Basicamente, o cinema norte-americano não tem o coração para as sutilezas específicas e a profundidade de sentimento que os fãs de filmes japoneses apreciam.

Ghost in the Shell não é diferente. A conversa sobre o whitewashing começou quando Scarlett Johansson foi escalada para o papel principal, Major, uma ciborgue com alma e mente de humana.

Mas a questão aqui é: o novo Ghost in the Shell é bom? O original de 1995, dirigido por Mamoru Oshii – acompanhava uma organização contraterrorista, a Seção 9, e Major entendendo quem ela é – perguntando o que nos torna humanos num mundo cada vez mais tecnológico. O anime foi uma inspiração direta para Matrix ("Queremos fazer isso de verdade", disseram as Wachowskis) e é religiosamente colocado na mesma categoria de Blade Runner. Então o novo filme tinha que fazer jus a isso tudo.

Claro, ele não chegou nem perto.

Logo de cara você sente o golpe do valor de produção, que é incrível mesmo e torna o filme esteticamente deslumbrante. A megacidade asiática futurista imaginada no anime dos anos 90 agora parece presente, o distrito eletrônico de Akihabara monstruosamente brilhando em néon e outdoors de holograma. Major balança pela cidade, num momento Homem-Aranha, pronta para lutar contra hackers e terroristas onde quer que ele estejam. Infelizmente, a trilha sonora ousada que ajudou o original a ser um sucesso foi substituída pelos mesmos sintetizadores sombrios que levantaram outros projetos (os filmes de Nicolas Winding Refn, Stranger Things) – mas tocada no fundo, ela passa completamente despercebida.

Os produtores do filme parecem ter tentado justificar uma atriz branca interpretando Major transformando essa cidade asiática – que parece Tóquio – de monocultural para uma visão multirracial futurista. Enquanto Major atravessa uma grande janela de vidro para destruir uma sala cheia de empresários ricos, uma cena de abertura realmente impressionante, você fica imaginando por que parece que não tem nenhum japonês ali. Isso é respondido desesperadamente rápido, quando somos apresentado à equipe trabalhando com Major: um afro-americano, uma inglesa, a estrela francesa Juliette Binoche e outros. Algumas críticas anteriores tinham elogiado o apelo global disso, mas para mim pareceu forçado – um dispositivo usado pelos produtores numa tentativa de abafar reclamações sobre representatividade.

Fica claro por que Scarlett Johansson foi escolhida para o papel: ela engaja a memória do público. Ela já foi uma outsider triste no Japão em Encontros e Desencontros; uma super-heroína perigosa em Vingadores; uma alienígena em Sob a Pele; e a voz sexy de um sistema operacional em Ela. Quando a vemos como um robô com alma, fazemos essas ligações subconscientemente e nos sentimos protegidos de sua realidade estranha. Ela não vê problema com seu papel como Major, que existe desde seu "nascimento", com o conhecimento de que seu cérebro foi retirado de uma imigrante que morreu afogada depois de um ataque terroristas.

Mas ela não é tão interessante quanto Major deveria ser. E isso não é só culpa dela – os temas sutis presentes no anime original são aplainados ou exagerados no filme, o que só prejudica o resultado geral. Na versão original há muitas nuances nos sentimentos de Major enquanto ela examina o que é estar viva. Aqui, o mantra que ela deve seguir é repetido tantas vezes que parece que você levou uma porretada na cabeça com ele: "Nos apegamos a memórias, como se elas nos definissem, mas não definem. O que fazemos é o que nos define". O passado não significa nada; é como vivemos que importa – profundo. Essa hollywoodisação era esperada, e se emoções precisam ser sacrificadas pela ação espetacular, então é quase melhor aceitar isso é tentar curtir o filme pelo que ele é.

O remake confia pesadamente em recriar os momentos icônicos do original, em sequências HD. Tem a parte da luta entre Major e o motorista fugitivo na água, o digitador de muitos dedos na van, a cena longa dos caminhões desviando pelas ruelas. Se o diretor Rupert Sanders não tivesse incluindo essas cenas, eles teriam que pensar em algo melhor. Se incluísse, havia o perigo de que os espectadores vissem o remake apenas como copiando o original. Mas essa foi uma decisão boa de Sanders: foi uma boa incluir esses momentos; numa tela IMAX eles são cheios de textura e realmente bonitos.

Esse Ghost in the Shell te deixa com sentimentos confusos. O filme é altamente ambicioso e teve sucesso em algumas áreas, mas deixa a desejar e é descaradamente insípido em outras. No geral, a maioria pode concordar que é uma ficção científica decente e um modelo para fazer filmes chatos de super-herói melhor. Não é péssimo, mas dificilmente vai – como o Telegraph disse – "provar que os puristas estão errados". De qualquer maneira, você provavelmente deveria assistir, porque imagino que alguém já está rascunhando uma franquia de três filmes com a Scarlett Johansson enquanto falamos.

@hannahrosewens

Tradução: Marina Schnoor

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