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Noisey

Fui na festa dos atletas britânicos em um palacete no Rio de Janeiro

Ao som do Chase & Status, os atletas britânicos gastaram as reservas extra de estamina (e não há nenhuma vergonha nisso).

por Victor Gorgulho
19 Agosto 2016, 6:30pm

O castelo no Parque Lage/Foto do autor

A realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro foi, para muitos moradores da cidade, uma ordem de despejo. Não cabe em duas mãos o número de escolas, centros culturais e até edifícios tombados que pararam completamente suas atividades para ceder seus espaços aos países estrangeiros, que se fixam nos locais montando uma espécie de embaixada na cidade durante as competições esportivas. Dentro das "residências oficiais" o maior foco está — ao menos no discurso oficial das nações — na difusão da cultura local do país para o resto do mundo. Por atividades culturais entendem-se desde degustações de cervejas cabulosas na Casa da Áustria até um concurso de sereias (?) e drag queens promovido pela Casa da Dinamarca.

A Inglaterra, afeita aos seus castelos reais, fez questão de achar o mais próximo possível disto em uma cidade como o Rio de Janeiro. O Parque Lage, levemente distante do agito das praias e milhas afastado do Parque Olímpico, foi o ponto escolhido pelos britânicos. O local é basicamente composto por um castelo cercado por uma mata fechada de 520 mil metros quadrados. O militar português Rodrigo de Freitas Mello construiu a icônica casa em 1811, e em 1920 ele foi vendido pelos donos da época para o magnata industrial Henrique Lage, que remodelou o lugar como um presente para sua esposa. Desde 1975, o palacete é ocupado pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Seu estilo eclético e sóbrio — que mistura colunas romanas com onipresentes detalhes em mármore escuro — é como uma materialização do imaginário internacional do Rio paraíso tropical, mas com um toque inglês, incluindo um jardim projetado por um paisagista britânico.

No último domingo (14) a British House, como a casa foi batizada pelos gringos, abriu suas portas para o publico pela primeira vez durante as Olímpiadas. Bem, disser que eles "abriram as portas" na real é um baita dum exagero. Para o ocasião, uma festa capitaneada por metade do duo de quase drum & bass Chase & Status, a organização convidou um seleto de grupo de chegados para curtir uma zuera com a delegação britânica, atual segunda colocada no ranking de medalhas olímpicas. Do que eu pude perceber, a lista era composta basicamente por gente com contatos dentro da casa ou no governo, ou que fosse agraciado por um status de "pessoa importante", sabe se lá por qual motivo. Apesar de eu não me encaixar de verdade em nenhuma dessas categorias, consegui um convite com um amigo e fui.

Cheguei ao local por volta das 20h, quando uma fila longa e lenta impedia a entrada livre. Em uma capital como o Rio, onde usualmente um sorriso largo ou um aperto de mão efusivo bastam para adentrar uma festinha, os ingleses fizeram questão de pedir RG e fotografar cada um dos convidados. Jeito inglês de fazer festa carioca. Já dentro do castelo, nenhum sinal da escola de arte que ocupa o local — aliás, a instituição precisou remanejar seus domínios para outros cantos da urbe durante os Jogos e, em período de crise, vai se beneficiar com alguns milhões de reais que o governo inglês está lhe pagando pelo aluguel do espaço.

Uma sala de aula que se tornou lugar pra assistir partidas de tênis/Foto do autor

Aluguel pago, paisagem modificada. A piscina do casarão, que é um cartão postal famoso da cidade, estava coberta de vidro e iluminada por leds. As salas de aula transfiguradas em salas de TV preenchidas por telões e monitores exibindo as competições olímpicas em tempo real. Bares, com basicamente todo tipo de álcool, montados em todas as esquinas do prédio. Na porta, mulheres inglesas prevenindo os exagerados: "Don't forget to drink water, otherwise you can get really dizzy because of the heat" ("Não se esqueça de tomar água, do contrário você pode ficar bem zonzo por causa do calor"). No salão, 90% dos presentes se perguntavam, cochichando, por onde andava o temido UK Team, aguardado feito estrela hollywoodiana em premiére de filme. "Eles estão presos no trânsito", me diz um dos membros da organização. Nenhuma surpresa para um carioca como eu: o trânsito da cidade tem atingido um de seus piores momentos da história com as modificações loucas impelidas pelos Jogos e executadas pelo amplamente reprovado prefeito Eduardo Paes.

Das caixas de som, saía um set aleatório de house e pop funcionando como música ambiente para a turma presente começar a entrar no clima. Quando rolou um suspiro geral, não havia dúvida de que eram os atletas entrando no castelo. Em bando, os esportistas desceram dos ônibus que os trouxeram do outro extremo da cidade com aquela expressão de "é aqui que é a festa?" estampada em seus rostos. Aliás, uma discussão que estas Olimpíadas têm colocado em boca coletiva é aquela sobre os hábitos de festa dos atletas, que repousam como um mito na curiosidade do público em geral. Afinal, há algum problema no fato deles encherem a cara e dançaram até de manhã durante uma competição como essas?

Photo de Nina Pennick

"Esquece essa ideia", me disse Louis Smith, medalha de prata na modalidade cavalo com argola. "A minha parte já acabou, por exemplo. Então eu posso curtir. Eu tento me preparar por 4-6 semanas antes da competição, mas, assim que ela acaba, eu posso fazer o que eu quiser". O discurso do ginasta parecia encontrar apoio entre seus companheiros de delegação. Ninguém estava exatamente envergonhado com os olhares curiosos que rodeavam o castelo. O corredor sete vezes campeão olímpico Bradley Wiggins, de óculos metalizado, não dava a menor bola para quem chegava perto dele e curtia a noite como se não houvesse amanhã, entre dancinhas e selfies.

Lá pelas 23h, o Will Kennard do Chase & Status deixou a sala que os ingleses chamam de V-VIP (sim, Very-Very-Important) pra se misturar com os atletas ingleses ao lado do bar que eles elegeram como seu ponto de contro, num dos cantos mais escondidos do palacete. A Sophie Hall, mulher do Will e manager da MTA Records, me fala que o Saul Milton (o Chase da dupla) está em algum canto da Europa fazendo uma outra apresentação. O Will, no entanto, não deixa de ser soterrado por pedidos de selfies, vindos tanto dos atletas quanto dos cariocas. Foi só o produtor subir ao palco armado no fim da piscina para um clima real de loucura se instalar no local. Os atletas, que até então seguravam copos comportados, começam a virar shots de vodka e cachaça distribuídos pelos barmans. Nesse momento, não restava no ar nenhuma dúvida de que um festão estava armado. Inglesa demais para empolgar os cariocas, mas uma festa animada o suficiente para os atletas esquecerem por um tempinho da tensão dos treino e competições

Will Kennard/Foto de Nina Pennick

Assim que o produtor alemão MC Rage passou a acompanhar o set do Status, uma proliferação de atletas tomou a pista sobre a piscina, dançando até o chão, na melhor amostra de um passinho brazilian-style. Os caras do time de rugby da Inglaterra eram, de longe, uma das rodinhas mais alvoroçadas da pista. Na medida em que os níveis alcóolicos subiam entre os atletas, seus crachás discretamente desapareciam, já que a cor verde de seus cordões de credenciamento os diferenciavam do resto da multidão. E a vontade de permanecer anônimo também. "Eu não quero ser exposto", diz de forma até cara-de-pau um atleta. "Eu já estou exposto", ele complementa, me soltando uma risada fraternal, retornando ao seu grupinho. O Olly Robinson, do mesmo time, me mandou uma expressão de desamparo presenciando a evasão da maior parte dos atletas com a minha aproximação vagarosa e introdução como repórter à trabalho.

Foto de Nina Pennick

Assim que percebo meu novo status de persona non grata na pista, escapo pro bar e esbarro com uma das ciclistas inglesas, que prefere não ser nomeada. Trocamos uma ideia sobre a obsessão da imprensa em procurar esse tipo de furo jornalístico, seja arquitetando um escândalo sexual ou uma bebedeira épica de algum atleta olímpico. Ela menciona o recente episódio trágico do repórter do The Daily Beast que arruinou com a vida de meia-dúzia de atletas gays por conta de sua fatídica pauta sobre o uso do Grindr na Vila Olímpica.

Mas, sem discurso hipócrita, atletas curtindo uma festa são exatamente iguais a... uma pessoa normal curtindo uma festa. Sim, não há forma de negar o fato de que a performance do duo inglês estava praticamente colocando a casa abaixo, fazendo os atletas pirarem. Na pista, vejo porres homéricos, flertes se concretizando e se transformando em pegações reais e uma atmosfera eletrizada por adrenalina canalizada em dança. Como em qualquer festa que engrena e pega fogo.

Lá pelas 2 da madrugada, os organizadores do comitê inglês vão dando sinais de que a noite precisa acabar, por conta do horário de funcionamento do espaço. Mas talvez o pico de energia de alguns ali não os deixe retornar prontamente aos aposentos Olímpicos. "Manja de alguma festa rolando por aqui perto?", sou perguntado por uma das atletas mais jovens da delegação. Conforme eu dou dicas a ela de uma ou duas opções de fervos que ainda estão acontecendo pelo balneário, ela tenta chamar um Uber e seguir em frente, bancando a medalhista-de-ouro da night.

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