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Marcus Leatherdale compartilha retratos inéditos que fez do Robert Mapplethorpe

Leatherdale falou sobre suas memórias de Mapplethorpe, do centro de Nova York e das fotos que fez durante uma madrugada em 1979.

por Emily Manning
30 Março 2017, 11:00am

Marcus e Robert no Studio 54 em 1979. Foto por Anton Parish.

Esta matéria foi originalmente publicada na i-D .

No final dos anos 70 e começo dos 80, muitos consideravam Nova York uma cidade em declínio (o Conselho de Segurança Pública até produziu um panfleto polêmico visando manter os turistas longe da cidade). Ainda assim, a era produziu uma geração de artistas nova-iorquinos renegados. Enquanto o hip hop emergia no Bronx, o florescente movimento punk polinizava a cena vanguardista da vida noturna no centro. Num período entre Stonewall e a epidemia de AIDS, membros da comunidade queer de NYC estavam abrindo caminho não só na arte que faziam, mas na vida que levavam. Os trabalhos e ideias produzidos nessa era ainda moldam profundamente a Nova York de hoje.

O fotógrafo canadense Marcus Leatherdale capturou muito dessa energia experimental — fazendo suas primeiras exposições no Club 57 e na Danceteria, e mais tarde fotografou Keith Haring e Leigh Bowery para sua série Hidden Identities. Publicadas originalmente em Details, as hipnóticas fotos em preto e branco de Leatherdale mostram os temas com os rostos obscurecidos, mas deixando transparecer suas identidades icônicas através de seu estilo e postura. Mas antes desses trabalhos, vieram os retratos inéditos que Leatherdale está expondo na Roman Zangief Photos em Nova York — fotos coloridas de Robert Mapplethorpe feitas em 1979.

Voltando ao estúdio de Mapplethorpe numa madrugada, Leatherdale começou a fotografar seu então namorado. Mapplethorpe aparece da maneira que a maioria das pessoas o conhece: confiante e numa calça perfeitamente justa de couro. Mas Leatherdale também traz uma energia descontraída e natural que nem sempre aparece nos autorretratos clássicos de Mapplethorpe. A intimidade e confiança da dupla fazem as fotos parecerem novas. Ano passado, o biografo de Leatherdale, Martin Belk, descobriu as imagens enquanto conduzia uma pesquisa nos arquivos do fotógrafo. Nos encontramos com Leatherdale para saber mais sobre esses retratos esquecidos.

VICE: Fale sobre como você conheceu o Robert. Quais foram suas primeiras impressões?
Leatherdale: Conheci Robert quando estudava fotografia no Instituto de Arte de São Francisco. Ele estava fazendo duas exposições: uma com seus retratos e outra com suas fotos de sexo. Várias pessoas, incluindo professores, sugeriram que eu fosse ver as fotos dele, porque achavam que nossos trabalhos eram similares. Eu não sabia quem ele era, mas era um grande fã da Patti Smith na época. Quando me disseram que ele tinha feito a foto de capa do disco Horses, fiquei intrigado. Fui até a galeria para ver sua exposição de retratos, e na verdade não entendi o trabalho dele de cara. Um amigo em comum de São Francisco, Peter Berlin, me convidou para ir à abertura da exposição de fotos de sexo dele. Foi lá que Peter me apresentou a ele. Claro, Robert estava bem ocupado falando com todos os seus admiradores, mas quando eu estava indo embora, ele me parou e me convidou para jantar com ele na noite seguinte.

Naquela noite fui buscá-lo no meu MGA Roadster. Ele estava quieto e reservado, e falamos principalmente sobre fotografia. Peter apareceu depois do jantar. Eles iam para um bar, mas eu recusei o convite porque ia viajar para o Arizona no dia seguinte com minha amiga Gail. Ela tinha um Cutlass Supreme azul-bebê e queríamos testar nossas novas Polaroides SX70 fotografando todos os campos de golfe em miniatura do deserto. Robert ficou meio chateado porque eu tinha outros planos. Mas então eu disse que pretendia me mudar para Nova York naquele verão, depois da formatura, e ele graciosamente me convidou para ficar na casa dele.

Não levei o convite muito a série porque tínhamos acabado de nos conhecer. Mas quando voltei da viagem, tinha um cartão-postal do Robert com seu telefone e endereço em NYC, me convidando para ficar no loft dele. Quando cheguei lá um mês depois, liguei para o Robert e disse que ficaria com ele até achar meu próprio apartamento. Ele confiou em mim. Ele foi para Amsterdã por um mês e simplesmente me deu as chaves do apartamento.

Você gerenciou o estúdio de Robert por alguns meses também. Como foi essa experiência?
Eu tentava manter tudo organizado, separava suas impressões para exposições, depois geralmente nos encontrávamos com Sam Wagstaff para almoçar e depois terminávamos tudo no estúdio. Não era uma coisa tão agitada na época. Ele também tinha um assistente de câmara escura.

Robert estava determinado a ser um astro, a qualquer custo. Então, quando comecei a me tornar conhecido pelas minhas fotos, a tensão cresceu. Estávamos fotografando Nova York ao mesmo tempo, e muitas vezes as mesmas pessoas, então havia comparações e ele não conseguiu lidar com isso. Claro, Robert foi o artista mais reconhecido, mas trabalhamos em níveis paralelos que muitos não percebem. Nós fotografamos [a fisiculturista] Lisa Lyon, que na verdade eu apresentei a Robert por intermédio de uma amiga em comum, Marcia Resnick. Robert não usava luz estroboscópica até nos conhecermos, só tungstênio e luz natural. Ele tinha um equipamento incrível que Sam comprou para ele, mas tinha medo de levar um choque. Então o ensinei a usar luz estroboscópica, o que aprendi na SVA. Éramos camaradas artísticos, no começo, até eu conseguir reconhecimento. Mas para ser justo, Nova York é um lugar onde todo mundo se orienta pela carreira. Eu também era ambicioso, mas não tão competitivo.

Além de Robert, você capturou muitas pessoas importantes da vida noturna e das cenas criativas da cidade nos anos 80.
Fotografei a multidão da cena do centro. Sem perceber na época, arquivei uma era que seria extinta em 20 anos. Pensávamos que teríamos 20 e poucos anos para sempre. Passei para uma nova vida tribal — na Índia — que também está evaporando. Só que dessa vez, eu tinha consciência disso.

Ultimamente há um interesse renovado na vida e no trabalho de Robert: o documentário da HBO , a coleção de Raf Simons , e Só Garotos está sendo transformado numa série de TV . Por que você acha que isso está acontecendo agora?
Há um interesse renovado pela vida e trabalho do Robert, e fico muito feliz com isso. Mas não gostei nem um pouco do documentário; é uma interpretação grosseira da vida de Robert. Mas, claro, a história está sempre sendo reescrita por gente que não estava lá, e que não sabe a dinâmica real dos desejos e ambições de Robert. Sim, Robert queria ser famoso e sim, ele era perfeccionista em tudo que fazia. Ele era muito intenso e focado, mas não o tubarão que fica implícito no filme. Robert era centrado em si mesmo e ambicioso, mas também era um cara gentil e generoso que adorava contar piadas e fofocar. Às vezes ele era quase infantil em seus prazeres. Uma vez viajamos para o Canadá para visitar meus pais na casa no lago da família, e ele ficou lá pescando no deque o dia inteiro, como se fosse um menino.

Olhando essas imagens, o que você vê que as outras pessoas podem não ver?
Esses retratos de Robert são especiais e únicos porque são as únicas imagens coloridas que já fiz; sempre trabalhei com preto e branco. Espero sinceramente que isso mostre um pouco do meu melhor amigo, "Cara de Osso" — aquele garoto que ficava contente em pescar do deque.

Never Before Seen Portraits of Robert Mapplethorpe fica em exposição na Roman Zangief Photos até 7 de abril. Mais informações aqui .

Tradução: Marina Schnoor

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