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A Frente Nacionalista pode ser a nova face do neofascismo brasileiro

A organização de extrema-direita, declaradamente inspirada em Mussolini e no integralismo, está em busca de um espaço consolidado dentro do campo político brasileiro.

Foto via.

Na semana passada, publicamos um artigo zoando o encontro da Frente Nacionalista, uma organização fascista inspirada no movimento integralista de 1930, e provavelmente conseguimos atingir um pico de reclamações e ameaças por constatarmos que muitos casos esquisitos que bebem na fonte nazista e/ou fascista ocorreram no sul do país.

Ao contrário dos nossos queridos comentaristas, nós estávamos bem longe de dizer que só existem fascistas em Curitiba ou no restante do sul do país. Entretanto, considerando alguns acontecimentos na região, é imperativo lembrar que há uma certa sensação de impunidade em quem expressa sentimentos amorosos por regimes totalitários em público.

O historiador e autor do livro Sob o Signo do Sigma: Integralismo, Neointegralismo e o Antissemitismo, Odilon Caldeira Neto, que há anos estuda a direita radical do Brasil, dá a letra. "Não sei se é certo dizer que há uma concentração de fascistas em Curitiba, mas, sim, nos estados do sul e sudeste do Brasil. Talvez auxilie por serem áreas que têm uma percepção de mais desenvolvidos e também [porque] sua constituição seja mais elitista."

Segundo Odilon, a visão de "pureza" centralizada nos estados sulistas do país advém de uma percepção dos grupos de extrema-direita de que a região é um dos poucos redutos onde há a valorização da cultura europeia. "Quando falo isso, não me centralizo apenas na Frente Nacionalista mas também nos grupos WP, skinheads neonazistas. Eles têm essa percepção [de] que os estados do sul são criados por uma série de pessoas vindas da Itália e Alemanha."

Os primeiros núcleos nazistas começaram a surgir no Brasil em meados de 1928 com o aporte de alguns imigrantes recém-chegados da Alemanha queeram simpatizantes dos ideais nazistas antes da ascensão de Adolf Hitler em 1933. Estima-se que filiais do Partido Nazista foram abertas em mais 14 estados brasileiros, sendo São Paulo o local com maior adesão (vejam vocês) e Curitiba, o quinto maior.

"O professor Rafael Athaides (UFMS) elaborou trabalhos muito interessantes, e um deles foi sobre a criação do Partido Nazista no Estado do Paraná. Uma das ideias desenvolvidas por ele é que a importância do movimento integralista, a cultura política e as tradições históricas e políticas na cidade de Curitiba e de todo o Paraná são importantes para entender uma posição hierárquica e exclusivista de sociedade. Nesse sentido, é possível entender esses fenômenos mais recentes como uma decorrência disso", explica Odilon.

"Claro que não quer dizer que tudo isso seja o único e exclusivo fator que garantiu a existência de um partido nazista e um partido integralista. Por outro lado, a adesão muito forte nesses dois partidos e outras formas também de nacionalismo autoritário de Estado explicam o caráter da própria sociedade."

Atualmente, o país é marcado por uma situação econômica e politicamemente instável; portanto, nota-se que a criação da Frente Nacionalista e sua tentativa de agrupamento com partidos legítimos demonstram que a organização merece ser olhada de perto. Assim como qualquer grupo que pregue (seja mascaradamente ou não) o ódio.

Em primeiro lugar, há uma preocupação muito grande da FN – desde sua origem, aliás –de se atrelar a partidos políticos de direita para garantir algum tipo de validade e não ficar na marginalidade. A primeira evidência disso, lógico, é o logotipo do PRTB inserido no folheto de divulgação como um dos realizadores do evento que deveria ter acontecido no sábado passado (12).

O PRTB, como mencionamos anteriormente, é presidido por Levy Fidelix, conhecido pelo Aerotrem e também pelos comentários homofóbicos feitos sem parcimônia durante um dos debates presidenciais de 2014. Com a retomada da direita nas ruas graças à apropriação das Jornadas de Junho de 2013, Levy capitaliza o conservadorismo dos brasileiros, defendendo plataformas conservadoras e "anticomunistas" no Partido Renovador.

O encontro da Frente Nacionalista em Curitiba acabou fazendo barulho na imprensa e em diversos órgãos públicos, e entidades e grupos antifascistas começaram a se movimentar para impedir o evento. Muitos relatos nas redes sociais também passavam uma mensagem de pânico por conta dos estranhos acontecimentos na véspera da Dezembrada, nome do festival escolhido em alusão aos eventos dos Carecas do ABC. Embora as autoridades não confirmem o envolvimento de fascistas, a galera da internet apontou aautoriadeles no espancamento dum morador de rua, por exemplo.

Assim, o primeiro reflexo foi procurar o PRTB para esclarecimentos. O presidente do diretório do Paraná, Geonísio Marinho, declarou ao Jornal de Londrina que a Frente Nacionalista não conta com o apoio formal do partido, apesar de que, "assim como eles, defendemos a família e uma frente nacional". Entretanto, não houve nenhuma movimentação nas redes sociais do PRTB para desmentir o suposto apoio do partido às atividades da FN. A VICE entrou em contato com Marinho, porém não obteve resposta.

O presidente da Frente, Cristiano Machado, gerencia também a Rádio Combate, dedicada a tocar uma seleção de bandas Oi e hatecore do Brasil e de outros países. Antes, vale mencionar, a Rádio Combate era conhecida como Rádio Careca. A especulação que fica é que, com a criação da FN, o nome da rádio foi modificado para atingir mais simpatizantes.

Edu Silvestre de Albuquerque. Foto retirada do seu perfil pessoal.

Ainda assim, apontar Cristiano Machado como uma liderança única da FN é ainda uma informação duvidosa. Numa rápida olhada no grupo de discussão, vê-se que a pessoa que mais comenta e compartilha informações sobre a organização é um professor universitário de Geografia da Universidade do Rio Grande do Norte chamado Edu Silvestre de Albuquerque. O domínio da FN, inclusive, está registrado no nome do professor. Entramos em contato com a UFRN para tentar conversar com o professor, mas ele está de férias. O celular que aparece no registro do domínio do frentenacional.com está desligado.

Dados retirados daqui.

O Partido Militar Brasileiro (PMB) é outra agremiação política mencionada pela Frente Nacionalista. Julgando pela própria descrição da Frente e os comentários dos afiliados e simpatizantes, parece que o grupo saiu de um racha criando dentro do próprio PMB. Inclusive, em uma das fotos do líder Cristiano Machado, há a presença do presidente do diretório paranaense do partido, Ciro Novais Fernandes. Nas fotos disponibilizadas no site oficial da FN, há também imagens de alguns membros do PMB reunidos.

Pelo telefone, Ciro esclareceu que o PMB não apoia a Frente por conta de "uma aparente demonstração de nazismo" entre os adeptos e também porque o PMB não é um partido de extrema-direita. Além disso, ele confirma a relação que o Cristiano teve com o partido, atuando no PMB como vice-presidente do diretório do Paraná e tendo se desligado dele no começo do ano para se dedicar à FN.

"Ele já estava com a Frente Nacionalista montada quando o conheci (...) trabalhamos juntos alguns meses, e senti muito quando ele saiu por causa dessa parte extremista de direita que ele tem. De resto, posso dizer que ele é uma pessoa trabalhadora, esforçada. Uma pessoa boa."

De pé, Cristiano Machado e à direita o presidente do PMB do diretório do Paraná, Ciro Novais Fernandes. Foto via.

Novais frisa que os membros do PMB que simpatizavam com os ideais da FN também não estão mais na ativa no partido. "Alguns dos elementos que estavam junto com o Cristiano e que faziam parte do PMB tinham uma fotografia fazendo a saudação nazista e com a suástica. Isso foi uma coisa que fez a gente convidar todo mundo, com muito respeito, para sair. Porque cada um tem a liberdade de fazer o que ele quer. E, se aqui é permitido o comunismo, que matou muito mais gente que o nazismo, então eles também têm o direito de ser assim."

Ainda segundo o presidente do diretório do Paraná, o partido não defende golpe militar, e sim retirar "a quadrilha do governo federal" de maneira constitucional. Ponto que, ao serem verificadas algumas propostas da FN, causou uma cisão ideológica com o PMB.

Em relação às imagens divulgadas de Novaes no site da FN e apontadas como reuniões oficiais do grupo, o mesmo diz que foram usadas fotos da época em que Cristiano ainda estava no PMB. "Nem sabia que tava numa foto com eles. Vou até dar uma verificada nisso."

É evidente que, quando um partido legítimo – e que supostamente aceita as regras do jogo democrático – dá indícios de apoiar grupos que abertamente acreditam em regimes totalitários e é confrontado, a primeira reação é negar envolvimento ou rechaçar qualquer xaveco com os mesmos. Exemplos que podemos observar com os casos do PRTB e do PMB.

Para Odilon, ao se analisar esses grupos de extrema-direita com relação muito forte com o fascismo (e que, por isso mesmo, podem ser chamados de neofascistas), observa-se que eles mesmos se colocam na marginalidade. "Não que eles queiram assumir esse ostracismo político, mas sim porque, na condição da democracia liberal, das instituições políticas no Brasil e no mundo ocidental, essas perspectivas conservadoras, por razões muito óbvias, são postas de lado."

Junto com a tentativa de se relacionar com agremiações políticas, há também uma renovação no discurso estampado nos planos de governo e no estatuto da Frente (escrito em Comic Sans), com conceitos que não são necessariamente retirados do fascismo, como o marxismo cultural (um conceito levantado por Olavo de Carvalho e pelo próprio PRTB) e a ideologia de gênero, outro conceito recente levantado pelas alas direitistas do país.

Claro que não dá para se enganar com a aparente "atualização" de propostas da organização. O ódio à comunidade LGBTT, a rejeição a qualquer coisa que se encaixe no conceito deles de "comunismo", a apropriação de elementos da igreja católica, o antissemitismo velado com ares conspiracionistas (que os judeus dominam a economia mundial, por exemplo) e a xenofobia pesada ainda estão presentes – e pouco esforço é feito por parte dos integrantes da FN para mascarar essa visão.

Nesse sentido, Odilon relembra que o integralismo contou com incontestáveis lideranças além de Plínio Salgado. São exemplos o jurista Miguel Reale, que trazia a ideia do corporativismo, e, especialmente, o advogado e escritor Gustavo Barroso, trazendo fortemente ao movimento integralista da década de 30 a ideia do antissemitismo e dos inimigos que deveriam ser fortemente combatidos pelo movimento. "Ele não foi só o maior antissemita integralistacomo também é considerado um dos maiores antissemitas do Brasil", conta.

Após a Segunda Guerra Mundial, o integralismo realmente teve de manejar a questão do antissemitismo por razões óbvias. Ainda hoje, se pautar por razões antissemitas não é somente ilegal como também uma razão para um fracasso político. Uma das peças do quebra-cabeça, continua Odilon, são os desenhos publicados nas páginas de apoio da FN, como um dragão de várias cabeças com a barriga estampada com a bandeira de Israel e também a inegável homenagem a Gustavo Barroso na página do grupo do Estado do Ceará. "Não é por menos: o Barroso era cearense, embora tenha exercido grande parte das suas funções no RJ."

Foto de capa da página da FN do Ceará.

Além disso, apesar de o grupo veementemente negar sua relação com o nazismo, há comentários mencionando a SS e símbolos reconhecidamente nazistas que ilustram algumas imagens. Uma prática comum da FN é relacionar o comunismo ao nazismo para se liberar das acusações de simpatizantes.

"Quando você vê algumas organizações mais próximas do neonazismo com esse tipo de discurso, é uma tentativa de reabilitação do nazismo, mas tenho a impressão que, no caso da FN, não seja necessariamente uma tentativa de reabilitação, tanto é que eles tentam se afastar por conta da possibilidade de sanções legais. Eles tentam dimensionar e potencializar essa dimensão anticomunista que eles têm", especula o historiador.

No site oficial, há também logotipos de organizações de outros países apoiadas pela FN: a italiana Casa Pound, o grupo Acción Legionária, do Peru, e a National Front britânica. No Brasil, a aliança mais certeira foi com o gigante Carecas do ABC.

"Isso não quer dizer que todos os Carecas [do ABC] são neofascistas ou integralistas", destaca Odilon. "Desde mais ou menos o fim da década de 80 e começo da década de 90, alguns movimentos integralistas tentaram cooptar alguns grupos como o Carecas do ABC, Carecas do Subúrbio, Carecas do Brasil e afins, mas eles não conseguiram. Não sei se foi um problema geracional, uma falta de politização e de ativismo político, ou também se é uma questão do resquício da fase punk que antecede os carecas. Talvez sejam os três elementos, mas, de qualquer maneira, eles nunca foram efetivamente politizados."

A aproximação de tradições juvenis e urbanas que flertam com o nacionalismo autoritário brasileiro e dos skinheads de extrema-direita talvez tenha sido a melhor forma de atualizar o ainda engessado discurso conservador que traz a Frente Nacionalista. O Carecas do ABC pareceu um aliado conveniente para engordar o número de adeptos da FN.

De qualquer forma, pela atuação do grupo de se politizar e buscar sua legitimidade política no campo democrático do Brasil, essa talvez seja uma das primeiras tentativas recentes de representação de uma ala extremamente reacionária. Por isso, a Frente Nacionalista se destaca das várias micro-organizações fascistas que existem provavelmente apenas no campo virtual.

"É uma vaga aberta, não somente aberta como uma vaga crescente na direita como um todo, e isso também deve ser visto como uma questão a esse apelo mais conservador que está acontecendo na sociedade brasileira", finaliza Odilon.

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