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Costeletas nos subúrbios: as gangues rockabilly dos anos 80 em Paris

O Gilles Elie Cohen fotografou as pessoas mais fodas que já viveram nesse mundão.

por Gilles Elie Cohen e Filo Loco
19 Março 2015, 10:30am

Vikings & Panthers é uma coleção de fotos de Gilles Elie Cohen tiradas nos anos 80 das gangues rockabilly dos subúrbios de Paris. O livro foi publicado no começo de 2015 pela Serious Publishing. A VICE França pediu a Filo Loco, chefe de publicação da Serious, para compartilhar suas memórias das pessoas mais loucas que já viveram.

Descobri o trabalho de Gilles Elie Cohen em 2002 através de seu documentário Rock Contre La Montre. Suas fotos suntuosas em preto e branco imediatamente me lembraram de Brooklyn Gang, de Bruce Davidson, que acompanhou em 1959 uma gangue de rockers de Nova York chamada Jockers. Eu não era editor na época, mas soube naquele momento que um dia publicaria as fotos de Cohen.

Foi só 14 anos mais tarde, no verão de 2014, que realmente o procurei em sua casa, em Amsterdã. Ofereci a ele um acordo de publicação e fechamos negócio na hora.

Em 1982, Gilles Elie conheceu por acaso uma banda chamada Del Vikings num terreno baldio no 19º arrondissement de Paris. Acho que ele nem era um fotógrafo profissional na época. Ele começou a andar com a gangue dia e noite, os acompanhando em festivais e shows. Foi no mesmo período em que ele conheceu os Black Panthers (não aqueles Panteras Negras), outra banda envolvida na mesma cena na época.

As duas bandas eram influenciadas pelo rock 'n' roll dos anos 50. Gente como Elvis, claro, mas também Gene Vincent, Eddie Cochran, Chuck Berry e Bo Diddley. Em 1982, o revival dos anos 50 estava no ápice não só na França mas nos EUA também, onde a onda era alimentada por bandas como Stray Cats, que prestava homenagem ao rockabilly old school.

Quando Gilles conheceu esse pessoal, os Del Vikings e os Black Panthers ainda eram amigos. Isso mudou com o tempo. Os Del Vikings eram "cats", uma subcultura do rockabilly caracterizada por festas, danças, roupas bregas e paixão por carros vintage. Seu estilo e a música que eles ouviam não agradavam outros membros da cena, como os Teddy Boys e os Rockabilly Rebels, que tendiam a ser mais de direita.

Os Teds eram grandes em Paris e nos subúrbios. Eles tiravam influência tanto da Inglaterra (o movimento Teddy Boy nasceu lá no começo dos anos 50) como dos EUA (com seu estilo de vestir inspirado nos filmes de Velho Oeste). Eles eram mais próximos dos Rebels, com quem compartilhavam os penteados extravagantes – topetes desafiando a lei da gravidade e costeletas gigantes – e uma paixão pelo rockabilly "sulista".

Os Del Vikings e os Panthers acabaram brigando com os Teds e os Rebels. Ambas as bandas organizaram ataques a shows e ao mercado de pulgas Clignancourt, onde eles costumavam ficar. Os Rebels usaram a bandeira confederada, o que os Panthers perceberam como um sinal de escravidão.

Os Panthers, cujo nome era uma referência ao grupo ativista negro, podem ser considerados os ancestrais dos antifas e de outros grupos que caçam skinheads. A prática de artes marciais pelos membros e seu estilo – eles adoravam particularmente jaquetas da Força Aérea americana – também foram assimilados por outras gangues, como os Ducky Boys, Red Warriors e Black Dragons.

Esses grupos viveram durante um período incrivelmente intenso na França, cheio de emoção e festas paroxísticas. Eles refletiam o clímax de uma juventude que estava queimando a vela pelos dois lados.

Petit Jean, o garoto que aparece na capa de Vikings & Panthers, reflete muito bem esse tempo de frenesi. Depois de fazer parte dos Del Vikings, ele se juntou aos punks, que costumavam ficar na Fontaine des Innocents, na Châtelet, em 1983; depois, começou a seguir a banda de rock francesa La Souris Déglinguée. Mais tarde, ele viajou à Inglaterra, onde ficou em várias ocupações e seguiu os Meteors. Ele voltou a Paris no final dos anos 80, e a lenda diz que ele foi assassinado durante uma discussão na Estação de Metrô Stalingrad. La Souris Déglinguée dedicou uma música a ele chamada "Little John", que está no último disco da banda: Les Toits du Palace.

À sua maneira, esses jovens estavam defendendo uma paixão genuína pela vida. Eles representavam uma cultura exigente, com códigos específicos e sua própria música. Hoje, tenho certeza de que eles usariam roupas esportivas e ouviriam rappers como Booba e Rohff. Vikings & Panthers é uma reflexão universal sobre o passado e os sonhos cruéis da juventude, em que inocência e sinceridade se misturam com pura violência.

Tradução: Marina Schnoor