Neto comenta como foi dar vida ao novo disco do Síntese

Um papo com o rapper de São José dos Campos sobre o processo material e espiritual de produção do aguardadíssimo ‘Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: Amem’, lançado nesta sexta (25).

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25 Novembro 2016, 5:02pm

Depois de quatro anos de espera, nesta sexta (25), o mundo vê São José dos Campos parir mais uma obra musical que carrega uma verdade muito grande em si: Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: Amem. É o segundo álbum do Síntese, com 12 faixas, produção da Família Matrero, gravação e direção técnica do Daniel Ganjaman e o primeiro trabalho feito individualmente pelo Neto depois que ele assumiu a missão de levar em frente sozinho o que ele e o Leonardo Irian começaram lá em 2012, com o lançamento do álbum Sem Cortesia.

Nesse meio tempo, os dois chegaram a dar um tempo no rap — não souberam lidar com algumas coisas aos 18 anos. Quando o Neto voltou com o Síntese, ele sabia que as várias participações em trabalhos de outros rappers e o EP Buracos ao Chão (2013) gravado com o Inglês, também MC joseense, não seriam suficientes pra amplitude que o Síntese tomou e pra mensagem que tinha que ser passada.

Pedi pro Neto me explicar um pouco sobre essa dimensão. "O Síntese é uma missão, uma cruz, e uma cruz pela qual o mundo para, porque diz respeito a todos. É alguém ousando se sentir parte, ser parte, representar todos os corações que sentem, representar essa consciência espiritual, zelar pelos sentimentos, ser sincero, expor as coisas, tratar das emoções, tratar dos sentimentos, enxergar o peso que tem as coisas. Acredito que é levar a sério. Você pensa: 'Pô, o que eu considero pra existir? O que é a vida?' Não ousando explicar, mas talvez achar as perguntas certas. O Síntese é essa responsabilidade, e sempre foi assim entre mim e o Leo  — um testando o outro, no limite de raciocínio."

Essa ousadia vem fazendo as pessoas também se sentirem parte do Síntese. Neto acha muito louco lidar com as manifestações de gratidão e de amor que rolam. "Isso é foda, mas é uma responsabilidade que me chama todo dia. Quando eu vejo as pessoas chorando, cantando de cor, tatuando as frases, eu sinto uma gratidão muito grande pela missão, de poder passar só a ser o que eu sou e isso despertar tanto sentimento bom, tanto raciocínio bom, tanta coisa boa na vida das pessoas. O nosso som sempre foi isso: cura interna."

E é essa cura interna que inicia o segundo álbum do Síntese:

Então eis os da voz rouca

Alma sã pras mente louca

é nós, aham, Síntese

Evite, mas me escute

Se escute

Causa pura

Tô dando a letra

Planeta, então

Som da cura

Depois desses quatro anos de amadurecimento e introspecção durante as viagens que o Neto fez sozinho, a ansiedade pra lançar o Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: Amem era grande: "Toda hora eu achava que o disco tava pronto, mas daí eu mudava um bagulho, ou fazia uma música nova que achava que tinha que entrar... fui construindo aos poucos, tem verso pronto desde 2008. Eu penso nas músicas como um projeto: a temática, a atmosfera, a base… então acho que [a produção] levou o tempo que precisava. No final de 2015, entrei no estúdio e refiz tudo com o Ganja — remixamos tudo, chamamos gente pra tocar instrumentos, e o disco caminhou pra fita certa. Os músicos, a mão do Ganja ali, a presença, o olhar, a energia dele, ele como observador e tradutor de tudo aquilo que a gente tava trabalhando ali. Eu acho que eu amadureci muito musicalmente, na minha parte como produtor."

Esse amadurecimento musical é visível. Além das rimas, o rapper também é responsável pela maioria das produções do disco — das 12 faixas, oito foi ele quem produziu. Das outras quatro, uma é  assinada em parceria com o próprio Ganja,  uma é produção do seu irmão Davi Chaves, a outra do DJ Willião e por fim uma do Slim Rimografia — essa, inclusive, foi a última a entrar no álbum e também a única gravada em outro estúdio, no Mocado Records. "Pensei em fazer músicas pra representar todos os sentimentos, tipo um ser, um ente vivendo cada momento, cada sentimento, cada desencanto e cada suspiro de paz também, cada conforto que a verdade traz, o caminho do destro é o escuro que soma as claras visões além dos sentidos, a vida sentada na sombra da árvore", explica poeticamente Neto.

Duas das faixas do disco já tinham pintado na internet e o Neto explica que a escolha dessas faixas foi até meio por acaso. "'Desconstrução' é um som de 2012 que eu e o Leo escrevemos na época do Sem Cortesia e eu senti que ela tinha que ir pro disco, aí a base do meu irmão encaixou depois de uns anos. Daí o Kent, produtor do clipe, me chamou um dia na casa dele pra gente fazer uma reunião, e o vídeo saiu já na hora. E 'Novo Dia' foi porque eu precisava registrar a profundidade que foi o processo criativo com o Ganja, as semanas que a gente passou junto, aprendendo, almoçando, fumando."

Todo esse processo criativo também faz parte da travessia do ente vivendo em cada música e da referência do nome do disco. Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: Amem é sobre a libertação de tudo aquilo que é falso e que nos prende, e a única conclusão possível é o amor. Pro Neto, esse álbum é a nova fase. "É colocar o Vale do Paraíba no mapa, como lugar que faz o hip hop do jeito que ele deve ser, mudando a vida das pessoas", explica. "Quero fazer vinil, CD, clipe, muito show de lançamento, levar meus amigos junto comigo, aqueles que construíram comigo, que cantam, tocam, conversam, vivem, sorriem e choram sem fugir, sem medo das interações. Eu quero que o disco me aproxime de muitos semelhantes, de muita gente que eu to precisando trombar pra aprender muita coisa e vice e versa. Eu quero crescer com esse disco, como pessoa, como ser, como projeto, como firma, como família. Eu coloquei a minha vida inteira nisso. Eu tentei explicá-la através do rap e isso é muito grande. Verso verdade e vida de São José pra reacender sua fé!"

Ouça o Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: Amem no player lá no começo da matéria ou onde você quiser.