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Entrevista

A Perita que Faz Arte com Peças de Viatura para Refletir Sobre Poder, Corrupção e Violência

Berna Reale trata de caminhos e consequências da disparidade social em exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo

por Letícia Naísa
06 Outubro 2015, 3:47pm

Imagem da obra "Habitus". Crédito: Diego Feitosa

Da coluna 'Reduzindo Desigualdades'

Recentemente, a ONU anunciou 17 metas globais para os próximos 15 anos. A meta pro Brasil é Redução das Desigualdades. Inspirados por isso, pensamos numa série de matérias pra VICE, Noisey, Thump e Motherboard. Clique no link acima pra sacar todas.

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Visceral é a palavra que melhor define o trabalho de Berna Reale. A artista paraense também atua, desde 2009, como perita criminal. Sua rotina é lidar com imagens fortes – cadáveres, chacinas, homícidios, cenas de crimes – e, como não podia deixar de ser, suas obras também carregam vários desses elementos chocantes e mórbidos.

A trajetória de Berna talvez seja um caso único no mundo artístico; ao contrário do que muitos imaginam, não foi a perícia que a levou para arte. Foi o fazer artístico que a levou para o campo da análise de crimes. Depois de fotografar cadáveres para uma instalação em um mercado de carnes em Belém, no Pará, a artista percebeu que sua sensibilidade ajudaria no exame de casos policiais. 

Desde sempre interessada pela temática da desigualdade social e da violência, Berna gosta de fazer o público refletir sobre tais temas por meio do choque visual. Durante uma de suas performances no porto de Belém, ela se colocou deitada em uma maca com vísceras de animais para mostrar como a gente está à mercê da brutalidade. “Você sai de casa, você não sabe se você volta. A violência está tão grande que você é servido em uma ceia aos abutres”, explicou a artista ao Creators Project.

Hoje com 49 anos, Berna acredita que é a desigualdade que fomenta a violência. Ela não se mostra muito otimista frente à realidade em que o país se encontra. “A gente é muito conformado com as coisas. Acho que o brasileiro deveria ser mais inconformado e deveria ser muito mais informado. As pessoas informadas conseguem perceber a cena, como ela se distribui, como essas relações alimentam uma à outra, como o poder alimenta a violência”, diz.

Duas de suas obras mais recentes sobre a mesma temática estão expostas no 34º Panorama da Arte Brasileira - da pedra da terra daqui, no Museu de Arte Moderna de São Paulo e são uma espécie de despertador para a realidade violenta e gritante presente no Brasil. O primeiro espaço, batizado de O Tema da Festa, é forrado com papelões perfurados e ambientado com uma música de balada, sons de sirenes e da rádio policial. No meio da sala, as pessoas podem se servir de suspiros. A segunda obra é um vídeo intitulado Habitus em que Berna encapa ternos em uma fábrica com o mesmo plástico que cobre cadáveres.

Na entrevista abaixo, a artista explica um pouco mais sobre as duas obras e fala sobre seus trabalhos como perita criminal e como artista.

"O Tema da Festa". Crédito: Rafael Roncato

The Creators Project: Sobre o que é esse trabalho com as sirenes?

Berna Reale: É uma instalação com um giroflex dos carros da polícia, com papelões perfurados com cartuchos 9mm, balas .40 e .38, que são, na realidade, usados nas cenas de crime, nos conflitos sociais. Quando você vê um crime, as pessoas cobrem logo a vítima. O papelão é usado tanto pra mendigo dormir quanto pra cobrir cadáver na rua. É uma coisa muito urbana. Aí resolvi cobrir as paredes de papelão. A gente criou uma balada, um ritmo pra que as pessoas sentissem vontade de dançar, como uma ironia de que a violência, de alguma maneira, desperta prazer. Os meios de comunicação divulgam tanto e as pessoas querem saber cada vez mais detalhes. Acaba que todo mundo vive nesse ritmo. E o suspiro [ela coloca a sobremesa na instalação] é uma forma de você criar uma ironia com isso. É como se você tivesse alimentando e saboreando isso de alguma forma.

É o sabor da violência?

É. Os áudios são todos reais, não foram gravados de internet nem de nada, são áudios todos da polícia e a música foi composta em cima disso também. É toda original.

Frame de "Habitus".

Sobre o que é o Habitus?

Fala da relação de poder que existe com a violência porque estou numa fábrica costurando capas de paletós. Eu entro e saio dessa fábrica e entro com as capas que cobrem os cadáveres. O mesmo plástico que cobre os ternos, que protegem os políticos, você encapa uma pessoa morta.

Como você acha que a política está relacionada com a violência?

O poder alimenta a violência por causa da corrupção, do tráfico. É difícil acabar com a violência na América Latina, principalmente no Brasil, na Venezuela, porque ao contrário da Europa, onde o governo tenta coibir, na América Latina, o poder se alimenta da violência. A corrupção alimenta a violência, é por isso que a gente não vê muita saída, esse trabalho fala disso.

Como foi a reação das pessoas durante a performance de 2011 em que você foi carregada nua pelas ruas de Belém? [A artista testou os limites do seu corpo pendurada em uma vara e fez um treinamento com o corpo de bombeiros para não desmaiar durante a performance.]

Na hora, a gente não sabe mas, depois de ver o vídeo, a gente vê pessoas que gritam, falam ‘nossa, mataram, como que foi, cobre ela’. Existe uma sensação de pena das pessoas. O que gostei foi que em nenhum momento houve nada em relação à questão sexual. Foi mais sobre a questão de tortura, que era o que eu queria passar mesmo, um corpo que está submetido à violência diária.

Outra performance sua que eu vi foi a dos urubus. O que você quis passar com essa?

A mesma coisa. Na realidade a gente está servido ali. Você sai de casa, você não sabe se volta. A violência está tão grande que você é servido em uma ceia aos abutres.

Você acredita que a desigualdade fomenta a violência?

Completamente. Em qualquer lugar ia desigualdade fomenta violência e não vejo muita solução em um país em que o governo alimenta isso. Não vejo muita esperança sobre isso.

Acho que seria necessária uma reforma de mentalidade. A gente é muito conformado com as coisas. Acho que o brasileiro deveria ser mais inconformado e deveria ser muito mais informado. As pessoas informadas conseguem perceber a cena, como ela se distribui, como essas relações alimentam uma à outra, como o poder alimenta a violência. Se você não tem informação, se você tem um povo que é desinformado, você não consegue atingir isso. Não adianta mudar os políticos, se você não muda a cultura, a educação de um povo. E, no Brasil, mudar a política é trocar seis por meia dúzia.

Como a arte pode influenciar para que as desigualdades diminuam?

A arte faz com que as pessoas reflitam, causa um ruído, um questionamento. Ela não resolve muita coisa, mas ela pode instigar um pensamento sobre; talvez possa causar uma possibilidade de reflexão sobre aquilo. Um trabalho de arte pode fazer você refletir sobre aquilo por pelo menos um segundo.

É isso que você pretende com a sua arte, fazer com que as pessoas reflitam?

Tenho essa intenção, mas é uma intenção que a gente não sabe realmente, porque ela tem um alcance mínimo. Quem vai a museu? Quem frequenta exposições? É uma mínima parcela da sociedade. Então, é muita pretensão achar que você vai mudar, mas você pode só fazer a sua parte pra tentar mudar.

Como seu trabalho como artista influencia seu trabalho como perita?

É mais o contrário. Acho que pelo fato de eu ser artista, quando entro em uma cena de crime, tenho muito mais sensibilidade de lidar com as pessoas que ainda estão lá, com as sobreviventes. Tenho uma sensibilidade de cuidado com o outro, com a questão social. Acho que o artista tem essa sensibilidade, coisa que muitas vezes falta na polícia.

Frame de "Habitus".

Como as pessoas costumam reagir ao seu trabalho como artista?

Costumam se identificar muito, porque, na realidade, você também vive isso. Todo mundo vive. Talvez nunca tenha entrado numa cena de crime, nunca tenha feito um laudo criminal, mas já viu, já ouviu, já viu na televisão. São símbolos do cotidiano.

O que te inspira?

Não existe isso de inspiração, existe você trabalhar e pesquisar coisas do cotidiano. Gosto de trabalhar em cima de problemas do presente, da contemporaneidade, do que está acontecendo agora. Não sou uma artista de trabalhar com memória e nem com o passado; gosto de trabalhar com o presente, com a época em que vivo.

Retrato da artista. Crédito: Rafael Roncato.

A exposição 34º Panorama da Arte Brasileira - da pedra da terra daqui  fica no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, até dia 18 de dezembro. Clique aqui para saber mais.