​Como produzir uma vacina contra zika vírus em meio a uma epidemia

Conversamos com um pesquisador americano para saber quais as perspectivas de preparar um medicamento às vésperas do verão brasileiro.

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28 Outubro 2016, 2:06pm

Crédito: U.S. Army Corps of Engineer/Flickr.

Em breve o verão chega ao Brasil e, com o calor e a chuva, a população de aedes aegypti tende a crescer. É por isso que, nos últimos meses, pesquisadores correm contra o tempo para desenvolver uma vacina contra o mosquito transmissor de dengue, chicungunha e zika a fim de evitar uma catástrofe.

O médico e pesquisador Cel. Nelson Michael faz parte de uma equipe de cientistas que desenvolve uma vacina contra o Zika no Instituto de Pesquisas do Exército Walter Reed, em Maryland, nos Estados Unidos. Ele me contou que o medicamento será testado em humanos no fim do mês – outra candidata a vacina, desenvolvida pelos Institutos Nacionais de Saúde, começou a fazer o mesmo em agosto.

Conversei com ele por telefone para descobrir como, exatamente, se começa a produzir uma vacina em meio a uma epidemia, e se há melhores formas de se preparar para se prevenir de novos surtos no futuro.

MOTHERBOARD: Para começar, você poderia me explicar, em linguagem bem simples, como você cria uma vacina? Digo, como você explicaria isso a uma criança?

Cel. Nelson Michael: A primeira coisa que precisamos saber é como as pessoas se infectam com o patógeno – por meio de bactérias, fungos ou de um bichinho. Como o sistema imunológico costuma combatê-lo? E se você souber como isso funciona, então o caminho a seguir é: de todas as formas conhecidas de produzir uma vacinas – e há diversas formas diferentes de fazer isso – como podemos imitar o que o corpo humano faz para lutar contra essa doença?

Cel. Michael conversa com dignitários estrangeiros durante uma visita recente ao Instituto Walter Reed. Crédito: Instituto Walter Reed.

E qual receita vocês utilizaram para a vacina do Zika?

Pegamos um vírus, criamos em laboratório e em seguida o matamos com formaldeído – da mesma forma como Jonas Salk fez com o vírus da pólio em 1952. Ele protegeu camundongos, macacos e, perto do fim do mês, começaremos as primeiras injeções em humanos.

Cel. Michael conversa com dignitários estrangeiros durante uma visita recente ao Instituto Walter Reed. Crédito: Instituto Walter Reed.

Quando saberemos se é seguro e eficaz para os humanos?

Trabalhando o mais rápido possível, teremos a primeira ideia de se a vacina funcionará ou não na metade do ano que vem. O que, diga-se de passagem, é incrivelmente rápido. Em geral, partindo do conceito até a vacina pronta para a distribuição pela saúde pública, leva-se cerca de dez anos e um bilhão de dólares.

Por que ela foi tão rápida?

Não é a primeira vez quando se trata desse tipo de vírus, chamados de flavivírus [o qual inclui o Zika]. A dengue é um grande exemplo. Recentemente, a Sanofi Pasteur licenciou a vacina contra a dengue. Há uma vacina licenciada para a febre amarela. Temos um registro muito forte para as vacinas desse tipo.

Sabemos que a maioria das vacinas não é 100% eficaz. Para algo como o zika, o quão eficaz ela precisa ser para continuar seu desenvolvimento?

Depende de para quem você pergunta, mas a porcentagem atual de eficácia é negociada com as autoridades regulatórias nacionais – nos Estados Unidos é a FDA – e o produtor. Os números utilizados para essa doença em particular estão na faixa dos 70%s.

Você poderia compará-la com a eficácia de outras vacinas?

A taxa de comparação típica não está muito abaixo de 70%, mas para uma doença como o HIV, mesmo se for 50%, as pessoas já iriam recebê-la de forma bem entusiasmada. Por isso que não temos uma resposta fácil. Já vacina do HPV é 100%, mas isso é bastante incomum.

Esse processo de correr para criar uma vacina logo após o surgimento da epidemia é o melhor? Não há outras opções?

O que estamos fazendo agora é reforçar o fato de que precisamos de locais de monitoramento das doenças infecciosas que sejam muito mais ativos. Isso significa mais ou menos um aviso de emergência, parecido com o aviso de um tornado se aproximando duas horas antes de atingir uma cidade. Isso salva muitas vidas.

O governo dos Estados Unidos está aumentando seus investimentos em redes de monitoramento em regiões do mundo nas quais as doenças continuam aparecendo. E há técnicas moleculares que nos permitem identificar patógenos nunca vistos antes. Assim, tanto a tecnologia quando a rede de monitoramento são as coisas que fazemos agora.

Esta entrevista foi editada para fins de tamanho e clareza.

Tradução: Amanda Guizzo Zampieri