Entrevista

Ex-neonazistas explicam o que impulsiona a alt-right

“A direita alternativa não existe. São só supremacistas brancos que reembalaram o ódio e o serviram de modo mais palatável para o consumo humano.”

por Annie Armstrong
20 Fevereiro 2017, 4:43pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Poucas coisas foram tão satisfatórias quanto assistir o famoso supremacista branco/fundador da "direita alternativa", Richard Spencer, levar um soco na cara durante uma entrevista mês passado. A filmagem gerou uma discussão acalorada nas redes sobre se é certo ou não socar neonazistas — mas não é nem preciso dizer que por mais catártico que seja bater em supremacistas, isso não nos deixa mais perto de descobrir como lidar com eles.

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Mas falar com ex-neonazis pode ajudar, então pedimos a Angela King, Tony McAleer e Frank Meeink para explicar o que está impulsionando a ascensão desses grupos de ódio, o que os inspirou a deixar os deles, e as ameaças que eles veem ser perpetradas pela política atual. Os três são ex-neonazistas que agora dirigem o Life After Hate, uma organização que trabalha para reabilitar ex-membros de grupos de ódio. Apesar das experiências de cada um variarem em tempo e local — McAleer era um recrutador skinhead canadense, King uma supremacista branca no Sul da Flórida e Meeink um jovem líder skinhead em Ilinóis — eles têm uma coisa em comum: um conhecimento íntimo das condições na vida de alguém que podem fazer a pessoa se voltar para um sistema de crenças baseado no ódio.

As entrevistas foram editadas para maior clareza.

VICE: Qual é o apelo de se juntar ao movimento neonazista?
Frank Meeink: Pertencer a alguma coisa. Sentir que eu era parte de algo.

Tony McAleer: Isso te fornece poder, notoriedade, aceitação e aprovação. Sabe quando você vai ao supermercado com fome, e acaba comprando um monte de porcarias para comer? Essa era a ideologia. Eu fui para o mundo com fome emocional.

Quando vocês pararam de se identificar com o movimento, e o que levou a isso?
Frank Meeink: Em 1993, eu tinha 19 anos, e a vida não era o que eu esperava. [Depois de quatro anos no movimento], não esperava estar entrando e saindo da cadeia. E pessoas começaram a me mostrar que não importa sua cor, elas passavam pelas mesmas coisas que eu. Eu costumava conversar com um colega detento negro sobre nossas namoradas, e tínhamos os mesmos sentimentos e emoções, estávamos preocupados se elas estavam nos traindo e coisas assim. Mas foi um processo lento.

Angela King: Fui presa por um crime de ódio que recebeu muita publicidade. Esperava apanhar o tempo todo na cadeia por ser quem eu era. Havia mulheres lá com quem eu teria sido muito escrota, possivelmente violenta, se tivéssemos nos encontrado em circunstâncias diferentes. Mas mesmo sabendo quem eu era, elas me trataram com gentileza e compaixão. Eu honestamente não sabia o que fazer com aquilo. Minha escolha na vida tinha sido raiva, ódio, agressão e violência.

Mas elas não pegaram leve comigo. Elas faziam as perguntas que eu não queria responder por mim mesma, porque isso significaria admitir que eu era uma pessoa escrota. Grande parte do grupo com quem me envolvi era de mulheres jamaicanas. Uma delas me perguntou se eu a chamaria pela palavra com N. Ela disse: "Você tentaria me machucar? Se eu estivesse com a minha filha lá fora, você tentaria nos matar?" E a cadeia não é um lugar de onde você pode simplesmente sair quando se sente desconfortável.

Vocês sentem que se isso não tivesse acontecido, seu antigo eu se identificaria com a direita alternativa?
Franl Meeink: Com certeza. É o mesmo movimento. Ele só foi limpo e sabe se expressar melhor. Eles pregam exatamente a mesma coisa que eu pregava. Exatamente a mesma coisa.

Angela King: A direita alternativa não existe. São só supremacistas brancos que reembalaram o ódio e o serviram de modo mais palatável para o consumo humano. Quando eu tinha 23 anos, entrando para o movimento neonazista, na época eles estavam pressionando para sermos menos descarados. Começamos a ouvir "parem de raspar a cabeça, parem de se tatuar, parem de ser tão facilmente indentificáveis, parem de cometer crimes que vão trazer atenção negativa para nós". Era isso que eles nos diziam para fazer. Se disfarçar. Para nos tornarmos policiais, advogados, médicos. Se infiltrar em diferentes aspectos da sociedade, e quando fosse hora, havia só um objetivo: guerra de raças.

Não quero parecer alarmista, mas vendo o que está acontecendo hoje com as pessoas que se chamam de "direita alternativa", vendo a alegria genuína que vem de uma extrema-direita violenta, isso é mais assustador para mim que neonazistas, porque eu sei o que isso significa.

Tony McAleer: Quando era parte do movimento, eu era conhecido por fazer o irracional soar razoável. Então você podia pegar a ideologia nazista e usar uma linguagem diferente para fazer isso soar muito razoável. Se você coloca terno e gravata, e diz que as pessoas devem ir para a faculdade, não se tatuarem, entrarem para o mainstream, isso faz a supremacia branca parecer razoável. Fiz isso quando era parte do movimento. E é engraçado ver que, 20 anos depois, é exatamente assim que o movimento é agora.

Há uma ameaça séria de que esse nacionalismo branco de extrema-direita possa ganhar mais poder?
Frank Meeink: Eles já ganharam poder. Eles estão lá. As principais pessoas deles estão no poder. Bannon acabou de entrar para o Conselho de Segurança Nacional. Spencer vai se candidatar a alguma coisa, e vai ser eleito, porque vai escolher a cadeira certa.

Tony McAleer: Vendo as técnicas de recrutamento do ISIS para os garotos na Europa, eles não vendem a ideia de se tornar um estudioso islâmico. Eles encontram garotos que são quase delinquentes, e vendem um senso de propósito e significado que eles podem encontrar através do grupo. É como se eles estivessem vendendo a fantasia de que você pode ser um herói. E você vê muito disso nas coisas da extrema-direita, com todas essas imagens de vikings. É uma jornada do herói hipermasculino distorcida, o que parece ótimo quando você não tem muito acontecendo na sua vida.

O que você acha que está encorajando a direita alternativa a se expressar mais abertamente?
Angela King: Acho que é toda a desinformação. Temos bolsões de pessoas no nosso país que não são inerentemente racistas ou cheias de ódio, mas suas vidas não vão bem. Elas não estão ficando ricas, mal conseguem se virar. Elas não conseguem cuidar da família, e é aparente que as pessoas que se chamam de "direita alternativa" pensaram criticamente em como alcançá-las. A linguagem usada cria uma narrativa de "nós versus eles". Eles dizem que refugiados e imigrantes são o grande inimigo — não que essas pessoas estão fugindo para salvar suas vidas, mas que querem vir para cá para destruir os EUA.

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Tradução: Marina Schnoor

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