​Por que o TomorrowWorld 2015 Foi um Fiasco?

​Depois de muita chuva, a organização do festival que acontece em Atlanta, nos EUA, limitou a entrada do público no último dia do evento causando transtornos da magnitude de um Woodstock.

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set 29 2015, 9:35pm

"O que aconteceu no fim de semana em Whitlake, nos Estados Unidos, pode ter sido mais do que a saída descontrolada de jovens descolados lutando para sobreviver. Primeiro, os engarrafamentos de 30 quilômetros e a caminhada de oito quilômetros; depois o calor intenso e a chuva repentina, sem mencionar a sede e fome da falta de água e comida, tudo pela oportunidade de passar alguns dias chapados no campo e dançando com a música. O que aconteceu em Whitelake foi que centenas de milhares de jovens invadiram um resort rural que estava completamente despreparado para recebê-los."

— John Laurence, CBS News.

A fala acima é de um apresentador falando sobre Woodstock que aconteceu em 1969, mas poderia facilmente ser usado para descrever o TomorrowWorld que rolou no último fim de semana (25 a 27 de setembro), em Chattahoochee Hills na Georgia. Pancadas de chuva que caíram sobre o festival, transformaram a fazenda de quatro mil hectares em uma grande piscina de lama, e a decisão dos organizadores de limitar os serviços de transporte no sábado deixou muitas pessoas abandonadas pelo acesso do festival, muitas delas gastando centenas de dólares por Ubers com preço inflacionado, enquanto outra galera acabou forçada a dormir do lado da estrada sem água ou comida.

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Para a maioria do público, as coisas não melhoraram. O festival cancelou a entrada no domingo para quem não estivesse acampando no Dreamville, o que representava a maioria do público. Muitos tentaram entrar de qualquer jeito, inclusive tentando derrubar os portões — ou tristemente se resignaram a discutir processos legais contra o festival nas redes sociais. Esse foi o terceiro ano do festivalão de EDM nos EUA — o Tomorrowland original acontece na Bélgica e foi fundado em 2005 — e a não ser que uma grande contenção de danos seja feita para amenizar as massas raivosas que prometeram nunca mais voltar ao evento, esta pode ter sido a última edição.

Hardwell no TomorrowWorld (Foto via TomorrowWorld / Facebook).

Até aqui, o tempo ruim já estragou festivais o bastante, mas você há de pensar que um dos maiores exemplares do gênero nos Estados Unidos (em 2014 foram 160 mil pessoas) deveria ter um plano B. Ao contrário do esperado, o lamaçal que se formou no lugar acabou por barrar o acesso de inúmeros pagantes que não estavam hospedados no camping oficial do evento. Depois do THUMP solicitar à organização uma retratação, parte do anúncio oficial que nos foi enviado, dizia: "Levamos a segurança de todos os nossos visitantes muito a sério. A chuva desde quinta-feira resultou em uma capacidade limitada das áreas de estacionamento do festival, lugares de desembarque e o sistema de transporte. Pessoas com ingressos de um dia, convidados na lista, e todo mundo que não está acampando na Dreamville infelizmente não terá acesso ao evento de hoje." A mídia também foi notificada de que o transporte de visitantes e mídia não iria funcionar, e que o TomorrowWorld só seria acessível a quem estava hospedado no Dreamville, o acampamento do festival.

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Um anúncio do TomorrowWorld em seu Facebook dizia apenas que "a mãe natureza decidiu o contrário", enquanto a organização não fez nada para acalmar aqueles que descobriram que seus planos de ver shows como Armin van Buuren, David Guetta e Big Gigantic tinham acabado de ser destruídos. (O festival publicou um link com sua política de reembolso). Por outro lado, Armin van Buuren tuitou suas condolências em menos de 140 caracteres: "Muito dó de quem não conseguiu entrar no @TomorrowWorld essa noite! Espero que vocês curtam o set no livestream! Tomorrowworld.com/home"

A notícia do cancelamento da entrada no domingo para quem não estava no Dreamville foi como tacar sal na ferida e causou todo o transtorno de transporte na noite de sábado, quando pessoas que não estavam acampando no festival tentavam a todo custo voltar para suas casas e hotéis, enquanto tiveram que encarar uma longa caminhada na lama e no escuro até conseguir alcançar o transporte ou chamar um Uber, que simplesmente não conseguiam chegar ao festival já que as estradas que levavam à entrada do evento foram consideradas inacessíveis. Algumas pessoas pagaram centenas de dólares por um Uber, outras pessoas apenas desistiram e/ou dormiram onde conseguiam.

James Baker, um fã do TomorrowWorld que foi pela terceria vez ao festival, esteve "presente em toda a bagunça". Depois do show, ele soube que ir embora "seria maluco" e conseguiu entrar em um ônibus de funcionários que estava em um estacionamento a cinco quilômetros de distância.

"De lá, parecia um lance Jogos Vorazes", relatou. Baker descreveu a cena como um filme com milhares de pessoas na floresta, algumas mijando ao ar livre, desmaiadas no meio-fio, batendo suas mãos na lataria de ônibus lotados. Assim que Baker conseguiu entrar em um ônibus, ele viu um homem se deitar na estrada para tentar parar o veículo para que mais pessoas pudessem ser transportadas.

"Quando encontramos aquele ônibus nós juntamos mais de U$100 entre nós para comprar nossa passagem para fora", disse Baker. "Os ricos e sortudos foram motorizados, os pobres andaram e os pobres e cansados paravam onde quer que encontrassem um pedaço de chão livre".

Público jogado ao lado da estrada (Foto via @EDMPocahontas / Twitter).

Como um frequentador do festival que mora em Atlanta, Baker escolheu, conscientemente, não acampar no festival em nome da sua cama e do seu chuveiro pós-curtição.

"Tem uma grande cena EDM aqui, com muitos de nós oficialmente e não oficialmente promovendo o festival", disse, referindo-se ao apoio dos locais ao festival (até agora), tanto ao vivo quanto nas mídias sociais. "Nós somos uma razão chave para o sucesso desse festival e eles nos deixaram apodrecer como no Walking Dead!".

Ainda assim, Baker diz que ama o festival em si e não tem certeza se participaria da ação conjunta criada a partir de uma página de Facebook — a ação está sendo comandada por um advogado corporativo e de direitos humanos de 20 anos. "O problema que tivemos consiste basicamente na negligência que eles [da organização] mostraram para com o público", disse o advogado da ação em nota ao THUMP. "Você viu as imagens das pessoas que tiveram que dormir na floresta porque o transporte prometido foi cancelado?"

Confira a Nossa Cobertura do Tomorrowland Brasil 2015.

Outro fã de terceira visita, Erin Meyer, 25, de Kennesaw estava igualmente indecisa sobre o processo, mesmo ela e seu namorado tendo dito que "tiveram quase que lutar" para conseguir um transporte antes de pagar U$ 50 por Uber, já que a rede estava congestionada e o aplicativo caiu. "O grande problema é que eu sou uma grande fã de todos esses artistas," disse Meyer. "E eu não quero nada mais do que ter um lugar para eles tocarem quando vierem para cá... [mas por causa da] total falta de comunicação, esforço em melhorar conhecidos problemas de transporte e uma atitude quase 'ahhh, foda-se' que a companhia SFX deu ao público, eu apoiaria totalmente ir atrás dos organizadores. Eles estão quase falidos. Talvez isso tenha causado um pouco da confusão, talvez não."

Uma foto do público do festival dormindo no chão que foi postada na página de Facebook para um potencial proceso em conjunto.

O consenso é que não foi o tempo que arruinou a experiência do festival. A falta de coordenação e o desrespeito pela segurança das pessoas tentando ir embora na noite do sábado e na manhã de domingo foi determinante para o fiasco do evento. Se tivesse melhor planejamento por parte do festival, a loucura poderia ter sido evitada.

E para melhorar: por mais difícil que tenha sido o que Meyer descreveu como "hordas de zumbis" de pessoas tentando sair, seria tecnicamente impossível para qualquer um entrar de volta no festival, já que o TomorrowWorld havia limitado o acesso ao festival apenas a campistas. Muitas pessoas recusaram aceitar o destino e discutiram sobre derrubar os portões na página de Facebook do festival, pensando que haveria força em números.

Pelo que Reagan McCracken, 26, viu durante sua espera de quatro horas no portão, havia gente tentando forçar a entrada quanto muita discussão com os funcionários. Ela viajou de Oklahoma apenas para a programação do domingo e estima que viu mil pessoas barradas.

"Nós ouvimos a música lá dentro", disse McCracken. "Todos os eventos ainda estavam acontecendo, nós só não conseguimos passar pelos portões... A pergunta de todos foi por que não deixar as pessoas entrar se ainda havia a música. Por que cancelar apenas para as pessoas que não estavam acampando?"

McCracken não conseguiu entrar — apenas se sentiu excluída. Ela disse que apoiaria absolutamente um processo. "Isso foi planejamento e relações públicas extremamente pobres. Um reembolso de uma entrada não é o bastante, nós pagamos antes pelo nosso hotel entãos fomos forçados a ficar uma noite a mais."

As milhares de pessoas que estavam dentro dos portões no domingo conseguiram curtir o último dia de festival sem chuva e com espaço de sobra. Aqueles que foram deixados de fora experimentaram algo que eles nunca irão esquecer... No entanto, não por falta de tentativa.

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Tradução: Pedro Moreira

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