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Por que decidi passar um mês na solitária

Voluntariamente, James Burns resolveu passar 30 dias confinado como parte de uma experiência que pretende discutir o método carcerário de isolamento.

por James Burns
13 Dezembro 2016, 8:34pm

Todas as fotos por Daniel Brothers

A cela onde James Burns pretende passar o próximo mês. Todas as fotos por Daniel Brothers.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

Na tarde antes de James Burns ser colocado pela primeira vez em isolamento, sua mãe o levou para assistir Jurassic Park. Ele tinha só seis anos, mas lembra disso como um sonho que acabou muito mal: a mãe era viciada em drogas na época, e passar um dia com ela sozinho era uma ameaça especial. Mas horas depois de assistir ao filme, a mãe de Burns o deixou num hospital psiquiátrico. O serviço de assistência social de Denver já tinha decidido que Burns tinha problemas sérios depois que ele se comportou mal na escola.

Burns ainda lembra das luvas de borracha que a equipe médica usava quando abaixaram sua calça e lhe deram uma injeção de clorpromazina para apagá-lo naquele dia. Ele foi deixado numa "sala do silêncio", o que não é a mesma coisa que a solitária de uma prisão, mas com certeza foi uma experiência traumática para uma criança.

Aquele dia marcou o começo de um relacionamento de mais de 15 anos de um garoto problemático com o sistema de justiça criminal dos EUA. Em seu ponto mais baixo, segundo o próprio Burns, ele roubava traficantes locais e cometia crimes violentos, mesmo que não fosse o membro mais sádico ou volátil da gangue de que fazia parte. Mais que qualquer coisa, as sentenças que Burns cumpriu foram marcadas por estadias repetidas na solitária, em vários momentos como criança e de novo em prisões estaduais.

Por isso pode parecer estranho que, no começo da última segunda-feira (12), Burns tenha decidido voluntariamente passar 30 dias na solitária na Prisão do Condado de La Paz em Parker, Arizona, transmitindo ao vivo todos os seus momentos atrás da porta de ferro na VICE.com. Mas ele espera que essa experiência ajude a iluminar um dos cantos mais sombrios do sistema de justiça criminal americano.

"Não quero envenenar a mente de ninguém — quero começar uma discussão", diz Burns. "Confinamento solitário é algo que devemos continuar fazendo como sociedade? Tudo sugere que isso não torna as instalações mais seguras, não torna nossa comunidade mais segura, e que as pessoas estão desenvolvendo problemas mentais e físicos por causa dessa prática. Então mesmo sabendo de tudo isso, por que continuamos usando a solitária? Quero que as pessoas pensem nisso."

No vídeo abaixo, James Burns explica por que vai ficar na solitária voluntariamente por 30 dias.

O confinamento na solitária consiste em passar "23 horas por dia sozinho numa cela, atrás de uma porta de metal sólida, com um beliche, uma privada e uma pia", como a ACLU definiu num relatório de 2014 sobre a prática. A experiência é marcada por uma falta quase total de interação humana e exposição a luz natural, e muitas vezes inclui uma proibição da entrada de material de leitura. Diferentemente do resto do mundo, os EUA abraça essa prática em quase todos os níveis do sistema — em prisões locais, estaduais e federais, clínicas psiquiátricas, tudo. Na maioria das estimativas, as solitárias abrigam de 65 mil a 100 mil pessoas em qualquer momento nos EUA. Mês passado, um estudo da Yale Law School, realizado com conjunto com os chefes das principais prisões dos EUA, descobriu que aproximadamente seis mil dessas pessoas estão na solitária há três anos ou mais. E como a maioria das camadas do sistema de justiça criminal dos EUA, a solitária afeta desproporcionalmente pessoas não-brancas.

Seria uma coisa se a prática de confinar pessoas em celas minúsculas e isoladas funcionasse — se a solidão e a miséria humana tivessem um objetivo. Mas relatório atrás de relatório (e estudo atrás de estudo) sugerem que as solitárias brutalizam os encarcerados e em alguns casos pode até torná-los mais dispostos a ferir outros quando eles saem.

"A solitária me marcou profundamente", explica Burns. "Uma parte de mim teme tocar uma porta que fechei muito tempo atrás, que levei anos para compreender."

Mas dessa vez, o período de Burns na solitária será especial — ele pode pedir para sair a qualquer momento, a equipe da VICE vai monitorá-lo através da câmera 24 horas por dia, e vários procedimentos de emergência foram preparados caso ele tenha problemas médicos. Mas ele espera que isso mostre a realidade do dia a dia (hora a hora) do confinamento na solitária, que a conversa tantas vezes silenciada sobre os esquecidos e desamparados avance de maneira real. Uma busca especialmente importante agora que Donald Trump, cujo entusiasmo por lei e ordem foi uma mensagem central de sua campanha, está medindo as cortinas da Casa Branca.

Burnes espera que todos, de defensores dos direitos humanos a reformistas da justiça criminal até quem defende a solitária, tomem nota.

"Aqui no escritório do xerife do condado La Paz, nos orgulhamos muito de nossa instalação de detenção e do trabalho que nossos oficiais fazem", disse o Tenente Curt Bagby numa declaração. "Ter câmeras na nossa instalação, mostrando qualquer parte do nosso processo, é fácil de aceitar porque seguimos cuidadosamente as regras estabelecidas pelas diretrizes do Arizona sobre como lidar com nossa população carcerária. Ficamos felizes em mostrar ao público geral a maneira como operamos e que não temos nada a esconder. Entendemos que a VICE quer mostrar a prática do confinamento na solitária, e estamos dispostos a mostrar como isso é feito.

"Sabemos que as respostas nem sempre serão positivas para as forças da lei, e que outras agências considerariam essa experiência contraprodutiva", acrescentou Bagby, "mas se ajudar a VICE significa ajudar a começar um diálogo, então gostaríamos de estar envolvidos".

Aqui, em suas próprias palavras, James Burns descreve seu tempo dentro do sistema, como ele conseguiu sobreviver a ele e sobre o que é esse projeto.

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Acho que é importante apontar que não quero me pintar como a vítima aqui. Me responsabilizo pelas minhas ações, porque todos têm uma escolha. E por mais falhas que o sistema tenha, eu tomei decisões ruins que me colocaram nesta situação. Meus dois maiores arrependimentos são, primeiro, os crimes que cometi, os roubos armados. E por causa das pessoas que foram as vítimas. Segundo — mais importante — me arrependo de ter aberto caminho para pessoas mais jovens, como meus irmãos e outros garotos do bairro, que podem ter olhado para nós a achado que era OK seguir nossos passos.

Quando se trata da solitária, as pessoas têm essa ideia de que as celas são calabouços escuros, onde a pessoa não vê luz do dia por todo esse tempo. E é meio que o oposto disso. Para mim, o lugar é como um inferno bem iluminado. Um inferno bem iluminado e estéril. E mais do que qualquer coisa, a solitária fode com a sua cabeça. O modo como as coisas seguem aqui é muito eficiente e mecânico, e se você quer fugir, seus piores medos sobre controle da mente, privação sensorial e tudo mais entram em jogo. Mesmo os sons — é como se você estivesse num caixão.

"Pessoas cometem erros, mas isso não quer dizer que devemos bani-las para o resto da vida."

A solitária é uma monotonia perpétua. Pense no dia mais miserável que você já teve, o mais entediante, e multiplique por 100. Lá, nossos pensamentos vão e voltam, não param de rodar e não se acalmam. Na verdade, eles só ficam mais fortes. E aí você tenta dormir. Acho que as pessoas vão se identificar com isso: as pessoas deitam na cama à noite e ficam loucas porque não conseguem dormir. Bom, isso começa a acontecer, você não consegue dormir e os barulhos vão se tornando mais altos, os gritos e a loucura acontecendo fora da sua porta parecem gargarejados. É muito estranho.

A solitária também afeta partes do cérebro — partes do seu cérebro encolhem fisicamente. A ciência sabe que isso causa problemas, que as pessoas desenvolvem doenças mentais e até físicas depois de saírem da solitária. Acho que a solitária não deveria ter um lugar na sociedade moderna — deveríamos ter superado isso, deveríamos estar falando sobre saúde mental, sobre reforma e como fazer as pessoas melhorarem, não ficarem pior.

Quase todas as pessoas que estão presas hoje serão libertadas em algum ponto, e esses ex-presidiários vão ser nossos vizinhos. Estamos libertando algumas pessoas de prisões de segurança máxima onde elas ficaram na solitária por 15 anos, e elas estão loucas quando você finalmente as liberta. Isso cria um perigo desnecessário para muitas comunidades.

Nem todas as pessoas que cometeram um crime ou estiveram em circunstâncias ruins são mutantes, animais, monstros ou o bicho-papão — são seres humanos como você. Elas podem mudar. Pessoas cometem erros, mas isso não quer dizer que devemos bani-las para o resto da vida. E poucas pessoas conseguem sair da solitária e viver uma vida normal. Não estou dizendo que sou especial de maneira nenhuma. Entrei nessa indústria [como autor] graças a uma combinação de sorte e trabalho duro, mas no final, o sistema criminal como é estruturado hoje não funciona para a maioria das pessoas presas — não as coloca no caminho da reabilitação.

Eu ainda era criança na primeira vez em que entrei no sistema, então não entendia realmente a verdadeira gravidade do que estava acontecendo comigo. Tenho medo que agora aconteçam situações que sejam um gatilho para mim, mas espero não ter que ver meus demônios cara a cara nunca mais e consiga fechar essa porta para sempre.

Assista ao livestream do confinamento na solitária acima e acesse o site autônomo do projeto aqui.

Tradução: Marina Schnoor

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