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Joguei Xadrez com o GZA do Wu-Tang Clan

Como nerd do rap e enxadrista em desenvolvimento, não podia perder a oportunidade de jogar contra God Zig-Zag-Zig Allah.

por Zach Schwartz
17 Setembro 2014, 1:23am

Todas as fotos por Peter Larson.

Há poucas certezas nessa vida. Uma delas é que o Wu-Tang Clan é melhor grupo de rap que já existiu. A amplitude da influência deles, além das realizações marcantes de cada membro (RZA, GZA, Method Man, Raekwon, Ghostface Killah e Ol' Dirty Bastard, só para citar alguns), cravou um lugar muito especial na história da música para eles.

Como muitos fãs sabem, o Wu-Tang é um universo em si. Suas influências aparentemente idiossincráticas – Five-Percent Nation, kung fu, vegetarianismo, etc. – moldaram o estilo distinto (alguns diriam filosofia) deles. E uma dessas influências é o antigo jogo de xadrez. Já no disco de estreia, Enter the Wu-Tang: 36 Chambers, eles tinham a música “Da Mystery of Chessboxin''”, a primeira de muitas comparando o xadrez à vida. 

O membro mais velho do grupo (e seu líder espiritual) é o GZA. Ele foi o primeiro membro do Wu-Tang a assinar um selo, em 1988, sob o nome “the Genius”. O nome não é em vão – GZA é uma potência intelectual. Nas horas vagas, ele vai conhecer o trabalho de físicos do MIT, dá aulas sobre o universo na McGill e promove o Science Genius, uma parceria com o Rap Genius que visa a ensinar ciência a crianças de escolas públicas. Ele também é um dos melhores enxadristas do Clan.

O amor de GZA por xadrez é bem conhecido. Em 2005, ele lançou um disco inteiro dedicado ao jogo: Grandmasters. Todas as músicas têm um título relacionado a ele: “Advanced Pawns”, “Illusory Protection”, “Queen's Gambit”. Mas o GZA, como um verdadeiro samurai, mantém suas habilidades longe dos olhos do público – não há vídeos dele jogando xadrez, e ele prefere enfrentar apenas outros membros do Clan.

Minha odisseia pessoal no xadrez começou em 23 de abril, quando ganhei um tabuleiro de presente de aniversário. Meu interesse pelo “jogo dos reis” começou com um dos meus filmes favoritos, o grande clássico gângster jamaicano Shottas. Numa cena, os dois gângsteres principais jogam uma partida de xadrez enquanto fumam e bebem. “Não é um jogo de conversa, é um jogo de morte”, um deles diz, logo antes de atender um telefonema informando que seu irmão “Blacka” foi morto pela polícia.

Peguei o jogo facilmente e logo estava vencendo todo mundo com quem eu jogava. Tudo, do término com a minha ex-namorada até as tentativas de encontrar outra, podia ser simplificado a séries de movimentos de xadrez.

Quando eu estava realmente ficando bom no jogo, fiquei sabendo que GZA estaria em Cleveland no final de agosto para o Lakewood Music Festival. Como nerd do rap e enxadrista em desenvolvimento, eu não podia perder a oportunidade de jogar contra God Zig-Zag-Zig Allah. Eu sabia que seria difícil conseguir um jogo com o rapper, mas, como no xadrez, tudo na vida é simplesmente uma série de movimentos. Eu só precisava fazer os certos.

O xadrez é vencido pelo xeque-mate, quando o rei não tem fisicamente mais para onde ir. Eu tinha que cercar GZA, que era o rei desse jogo. Mas em volta dele havia um bloqueio firme de cavalos e bispos: seu agente de imprensa e empresário. Mas eu tinha uma peça poderosa. Eu tinha a rainha: Kelly Flamos, organizadora do Lakewood Music Festival. Ela estava do meu lado desde o começo.

Joguei com criatividade. O agente de imprensa não respondeu meu e-mail, e eu retransmiti para o empresário que isso ia mesmo acontecer. Esse já é um movimento do xadrez, jogar as peças umas contra as outras. Kelly, minha rainha, também entrava no jogo de vez em quando, abrindo caminho para que eu avançasse.

Eventualmente, a equipe do GZA concordou com a partida. Mas eles estabeleceram seus próprios termos – jogaríamos no Intercontinental Hotel de Cleveland, onde o rapper estava hospedado. Além disso, como um favor para a Kelly, eu tinha que pegar o GZA no aeroporto e levá-lo até o hotel. Depois da partida de xadrez, eu tinha que levá-lo direto ao festival. Concordei, óbvio. Isso ia mesmo rolar.

Para me preparar para meu oponente, fui até a biblioteca pública de Lakewood e peguei emprestado quase todos os livros sobre o tema que eles tinham. Aderi a um regime rigoroso de exercícios diários de xadrez. Os jogos do GZA nunca tinham sido documentados, então estudei seus discos Grandmasters e Liquid Swords na esperança de aprender sua estratégia pela música. Também treinei fisicamente: nadei 60 chegadas por dia para que meu corpo não desse para trás durante a partida. Puxei ferro para que minhas mãos não fossem esmagadas quando apertassem as mãos do GZA.

O Wu-Tang é envolto em espiritualidade e mitologia, então eu sabia que, para ter uma chance, tinha que me elevar ao GZA num nível espiritual. Eu me recusei a comer carne ao máximo, como ele faz. Meditei e orei quase todos os dias. E, no dia anterior à partida, fiz jejum, bebendo apenas líquidos para purgar meu espírito e limpar meu corpo. Naquela noite, sentei e meditei no Lago Erie, olhando para a escuridão da água. Meu estômago roncou e meu coração acelerou. Eu estava pronto.

O sol se pôs e nasceu no Lago Erie, já era de manhã. Meu carro (um Toyota Higlander de 10 anos) estava sujo demais para buscar o GZA, então fui até a casa dos meus pais pegar o Prius da minha mãe. Minha mãe, uma taiwanesa baixinha, ficou na porta da casa acenando. Ela ficou ali até eu desaparecer completamente de vista.

Dirigi até o aeroporto e fiquei perto do final da esteira de bagagem com meu cartaz escrito “GZA”. Finalmente, ele e seu empresário Kay, que depois descobri ser o irmão do Raekwon, me acharam.

GZA tem 48 anos e envelheceu bem. Ele foi reconhecido no aeroporto e cumprimentou todo mundo que gritou “Wu-Tang!”. A voz dele é áspera, mas confortável. Ele parecia sempre prestes a sorrir. Sua roupa era normal de longe – tênis, jeans, jaqueta –, mas, de perto, notei que ele estava todo de Gucci. Também notei que a mochila dele tinha uma luxuosa estampa xadrez cinza.

O astro do rap e seu empresário se sentaram no banco de trás do Prius da minha mãe, e partimos em direção a Cleveland. Quando chegamos ao hotel, GZA pediu um drinque, eu arrumei o tabuleiro e nos sentamos. Dois amigos meus tinham vindo assistir. O empresário dele ficou por perto, de braços cruzados.                                                                                

Olhei para o GZA. Ele estava sentado com as costas retas, as mãos nos joelhos, olhando nos meus olhos. Um sorriso dançava nos cantos dos lábios dele. “Você está pronto?”, ele perguntou.

Acenei com a cabeça e fiz meu primeiro movimento: movi o peão do meu rei duas casas. GZA respondeu movendo o peão da rainha, e o confronto começou.

Por um tempo, os únicos sons eram dos movimentos das peças de madeira. Ocasionalmente fazíamos uma pausa para nos concentrarmos. “Ah, você está tentando atirar no dedinho do meu pé?”, ele dizia enquanto rapidamente fazia seu movimento, combatendo tudo que eu estava fazendo. O jogo estava bastante equilibrado até a metade. O centro estava aberto para jogadas, ninguém tinha vantagem material. Comecei a sentir: meu treinamento tinha valido a pena.

Do nada, notei um xeque-mate fácil. Se eu movesse minha rainha para a sétima fileira, eu poderia dar o xeque-mate em GZA em dois movimentos. O tempo desacelerou. Notei quão rápido meu coração estava batendo. Olhei para GZA. Ele estava estudando o tabuleiro. Seria possível? Movi minha rainha.

Bum. Ele tirou minha rainha do tabuleiro e substituiu por um de seus cavalos. Eu não tinha visto o cavalo protegendo aquele espaço. Errei, errei feio. Os espectadores suspiraram. Um erro de principiante. Joguei as mãos pra baixo. GZA se recostou na cadeira. “Um jogo totalmente diferente agora, não?”, perguntou, rindo em seguida.

Eu me segurei por mais alguns minutos depois disso, mas estava tudo acabado. Um jogador do calibre dele não tem uma vantagem material dessas e perde. Ele não me deu xeque-mate – consegui escapar dele por um tempo –, e simplesmente concordamos em jogar outra partida. Ele tinha me vencido. Justo.

No segundo jogo, as coisas ficaram mais amistosas. GZA começou a relembrar histórias do Wu-Tang.

“Eu costumava jogar isso por horas, cara, o dia inteiro”, relatou. “Joguei 78 partidas com o Masta Killah uma vez. Jogamos... acho que por umas 12 horas. A noite toda. Fumando, bebendo. Tirando um cochilo a cada duas horas e voltando.”

GZA também tinha histórias sobre a mitologia da Ásia Oriental pela qual o Wu-Tang é famoso. “Você já ouviu a história de como um rei indiano foi apresentado ao xadrez?”, questionou. “O rei ofereceu ao cara que o mostrou o jogo o que ele quisesse. E o cara pediu apenas grãos de trigo, mas ele queria um grão de trigo para cada casa do tabuleiro, só que dobrando a cada casa. Então seria 1, 2, 4 grãos de trigo para todos os 64 quadrados. E quando os matemáticos se reuniram, eles perceberam que essa quantidade de trigo daria a volta na Terra três, quatro vezes.

“Acho que isso mostra a profundidade do jogo”, ele se admirou. “Porque quando li isso, achei idiota. Então comecei a revolver isso na minha mente. E quando cheguei à quarta fileira do tabuleiro, isso já estava em bilhões. Isso é profundo como o universo, certo?”

No final da partida, apertamos as mãos. “Foi um prazer”, ele disse. “Até a próxima.”

Depois da partida, deixei GZA e seu empresário no Lakewood Music Festival. Apesar da entrevista e da partida terem ido bem, eu estava deprimido – detesto perder. Eu era, tipo, um novato nos playoffs da NBA que tinha sido eliminado na primeira rodada. Os jogos tinham sido legais, mas eu queria ganhar.

Cheguei em casa e vi o livro 55 Passos Para Se Tornar Um Mestre ainda no meu criado-mudo. Era o único livro da biblioteca que eu não tinha terminado. Com os sons do festival pairando à distância, sentei na cama, abri o livro e comecei a ler.

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Tradução: Marina Schnoor

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