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O Que Significa Ser "Adolescente" Hoje?

Conversamos com o escritor Jon Savage sobre os movimentos jovens do passado e os atuais, e como a vida é muito mais legal quando se é adolescente.

por Jamie Clifton
22 Janeiro 2014, 12:25pm

Fotos de arquivo do filme cortesia de Margaret PR.

Setenta anos atrás, adolescentes não existiam. Quer dizer, existiam, mas ninguém chamava eles assim — as pessoas os chamavam de “nossa futura força de trabalho” e faziam eles usarem ternos, fumar cachimbos e ter aulas de elocução aos 13 anos. Você ia dormir criança e acordava adulto. Mas, no final da Segunda Guerra Mundial, a ideia de adolescência evoluiu de uns poucos anos se preparando para a vida na mina de carvão ou na assessoria jurídica, para Os Melhores Anos da Sua Vida. Então, em 1945, o New York Times publicou um artigo definindo essa nova palavra bizarra — “teenage” — e o conceito começou a se tornar parte da consciência pública.

Alguns anos atrás, o compositor e historiador cultural Jon Savage escreveu um livro sobre tudo isso chamado A Criação da Juventude (Teenage: The Creation of Youth). A adaptação do livro para o cinema, dirigida pelo cineasta norte-americano Matt Wolf e com trilha original de Bradford Cox, estreia nos cinemas do Reino Unido no dia 24 deste mês. Liguei para eles para conversar sobre os movimentos jovens do passado e atuais, e como a vida é muito mais legal quando se é adolescente.

O trailer de Teenage.

VICE: Oi, gente. No começo do filme, vocês dizem que a ideia de adolescente é uma invenção dos tempos de guerra. Não há movimentos jovens pré-guerra que vocês deixaram de fora?
Jon Savage: Um que não era pré-guerra, mas que não entrou no filme, foi o zazou. Eles eram um grupo francês da Paris ocupada no começo dos anos 1940 e amavam a música swing negra americana — o que era proibido —, usavam roupas inglesas, davam festas secretas, tentavam evitar o trabalho forçado e, sabe, emputeciam a Gestapo no geral. Eles também fizeram mais uma coisa incrível: quando saiu a lei do uso da estrela amarela, eles fizeram suas próprias estrelas, que diziam “Swing” em vez de “Judeu”. E há outros grupos, sobre os quais não entramos em muitos detalhes — os movimentos de volta à natureza dos anos 1920, como o “wandervogel”.

Ah, sim. Aqueles proto-hippies alemães que curtiam ficar pelados e viver na floresta. Esse movimento começou durante a Primeira Guerra?
Não, na verdade isso começou por volta de 1900 na Alemanha.

Então não era uma reação à guerra?
Bom, era uma reação à militarização e industrialização da sociedade alemã. Havia também um vácuo geracional entre os adolescentes e seus pais e, pelos anos 1920, eram muitos grupos diferentes. Na verdade, o número de grupos que existiam na época é desconcertante, desde grupos protofascistas a hippies.

Você diria que o wandervogel foi o primeiro movimento jovem, pelo menos no sentido moderno?
Se você considera movimento jovem como algo no qual os jovens tentam ter algum grau de autonomia, e tentam definir por si mesmos o que é ser uma pessoa jovem, então sim.

Garotos “wandervogel”.

Se esse foi o primeiro movimento jovem — e isso aconteceu antes do termo “adolescente” existir — o que vocês acham que foi a coisa mais instrumental na introdução do conceito de “adolescência” como conhecemos hoje?
Matt Wolf: Acho que “adolescente” nasceu como um tipo de consumidor democrático durante a guerra, nos anos 1940. Era quando gente jovem estava começando a trabalhar e ganhar algum dinheiro. Eles não eram dependentes. E eles tinham um novo poder para definir a si mesmos, consumindo música, moda, cosméticos... Eles reconheceram seu valor como cidadãos democráticos, que podiam contribuir positivamente para a sociedade, mas também sua influência e poder como consumidores, que podiam comprar coisas e dirigir o mercado.

É engraçado como, no começo, a juventude foi definida pelo establishment e pelo mercado. A adolescência devia representar liberdade e rebelião, mas mesmo a palavra “adolescente” só se tornou parte de um léxico mais amplo quando o New York Times escreveu um artigo codificando e estabelecendo isso — como vocês mostram no filme.
Jon: Sim, foi aquele equilíbrio dos adultos aceitando que os adolescentes tinham algo a dizer e que iam manter algum tipo de controle sobre si próprios.

Matt: Definitivamente. Acho que isso é um compromisso produtivo e útil, porque se os jovens não tivessem nenhum tipo de supervisão, eles provavelmente ficariam fora de controle. Mas o filme também mostra que quando a juventude é regimentada da maneira como Hitler e o regime nazista fizeram, isso pode ser algo extremamente destrutivo.

Sim, muito. No filme, notei que as duas guerras espalharam cultura jovem — levando música e ideias da América para a Europa — e também esmagando isso, já que todo mundo era mandado para morrer nos campos de batalha.
Jon: Com certeza. O swing e as bandas de música negra norte-americanas ainda eram um fenômeno pequeno antes da guerra; isso não tomou o Reino Unido de imediato — era algo mais de vanguarda. Depois, os norte-americanos chegaram e os adolescentes britânicos de repente viram esse outro estilo de vida.

O próprio swing é fascinante, é a primeira cultura jovem ocidental internacional. É incrível como isso foi usado, como eu disse antes, pelo zazou — e o Swing de Hamburgo, que eram os zazous alemães — durante a Segunda Guerra Mundial, como método de resistência. Não era algo político; tudo o que eles queriam fazer era o que os garotos fazem hoje: ouvir música, sair com os amigos, transar e zoar um pouco. E por fazer isso na Europa ocupada pelos nazistas, eles foram mandados para campos de trabalhos forçados, espancados, mandados para Frente Oriental, para campos de concentração... É uma divisão muito forte.

Garotos do swing.

Sim. Quando o swing foi finalmente abraçado, parecia que todo mundo queria fazer parte disso. Mas, mais tarde — nos anos 1980 e 1990, pelo menos — parecia que as pessoas não estavam tão dispostas a se juntar ao mainstream, parecia que elas estavam mais interessadas em tentar ser “indivíduos”.
Jon: Essa não é minha experiência de ser um jovem entrando na cultura jovem, mas acho que o que você está descrevendo acelerou nos últimos dez anos. Acho que isso tem a ver com a privatização do ser, causada pelas redes sociais e aparelhos eletrônicos, a fragmentação da consciência e a fragmentação da coorte jovem no geral. O que me fascina é que — tenho 60 anos, então, quando eu era moleque, vieram os hippies, depois o glam rock, depois o punk rock — e o punk rock falava dessa aceleração da informação e da privatização do ser. Agora, vivemos num futuro de ficção científica que foi profetizado quando eu era jovem.

E o resultado disso é que não existiram novas subculturas jovens propriamente ditas na última década — aquelas que têm música e roupas, mas que também tem um conjunto distinto de ideias com que as pessoas se identificam, como o movimento hippie, punk ou rave.
Quer dizer, há muitas razões para isso. Eu tinha a sua idade em 1977 quando me envolvi com a indústria da música, que era voltada para os garotos, não para adultos. Então, nos anos 1980, a indústria da música parou de visar os adolescentes — a faixa dos 15 aos 24 anos — e começou a visar pessoas mais velhas também, significando que toda aquela loucura de consumo não era mais somente a preservação dos adolescentes. Os jovens perderam seu status especial, o que acho que é parte do problema.

Além disso, no começo dos anos 1980, teve início um ataque político aos adolescentes, começando com o governo Thatcher e continuando neste governo com a desclassificação social do jovem, desemprego, taxas universitárias... E tudo isso faz meu sangue ferver. Se um país não investe em sua juventude, então é só ladeira abaixo. Essa é a mensagem do Teenage: adolescentes são incríveis, ouçam o que eles têm a dizer. O que está acontecendo me deixa absolutamente furioso. Alguns garotos ficam putos com a minha geração, mas não é culpa nossa! Eu não votei na Thatcher e não votei nesse governo também!

A única verdadeira contestação de tudo isso é a proliferação de grupos de protesto de esquerda, que não têm o mesmo alcance dos movimentos musicais ou artísticos, porque não é todo mundo que quer se sentar na chuva no centro de Londres, ameaçando gente rica com cartazes de papelão.
Matt: Mas acho que é muito difícil se identificar com esses movimentos [baseados em arte e música] enquanto eles acontecem. Existiram movimentos jovens distinguíveis e definidos nos anos 1990, mas só porque os vemos agora em retrospecto. Eu não consigo refletir tão bem no presente porque isso está acontecendo agora, entende? Acho que há uma cultura on-line, com certeza, mas acho que isso vai se apresentar num formato muito diferente dessas coisas que tendemos a romantizar, como a cultura underground e o punk.

Jon: Tenho muitas teorias sobre isso. Eu curtia muito Nirvana e fico imaginando se o suicídio do Kurt não matou a ideia do rock como desafiador, subversivo e perigoso. Depois disso, você tem o britpop, que tem alguns discos legais, mas que é como os anos 1960 requentados. Algumas bandas interessantes vieram desde então, como Arctic Monkeys, mas não significam tanto num contexto mais amplo. Há bandas fantásticas com letras incríveis, mas é como se elas estivessem numa espécie de vácuo.

Sim. É estranho — há muitas coisas que deviam provocar reação, mas muitas reações hoje em dia parecem um pouco artificiais.
Cada geração enfrenta sua própria tarefa. Sua tarefa é muito diferente da minha. A tarefa da sua geração é lidar com sustentabilidade, mudanças climáticas, escassez de recursos, como fazer a transição do capitalismo altamente progressivo para outra coisa — outra maneira de viver neste planeta, uma maneira onde você não tenha que jogar fora as coisas boas que temos em nossa sociedade. A tarefa da minha geração era lidar com os estragos de Segunda Guerra Mundial, que marcaram nossos pais e marcaram literalmente a paisagem quando eu era criança.

A Juventude Hitlerista, o clube jovem mais escroto da história.

E a ideia de que a internet destrói subculturas? Porque assim que algo acontece, já está instantaneamente por todo o globo e não tem tempo de crescer organicamente.
Jon: O que você também tem agora — algo que já existe há 25 anos — é marketing agressivo e definição de alvo. O punk rock realmente se desenvolveu no underground por um tempo; as pessoas das firmas de publicidade não levaram isso a sério por uns 18 meses, até o meio de 77.

Matt: Acho que isso acontece porque a distinção entre o que é considerado mainstream ou underground é mais confusa, e isso capacita artistas e jovens que vivem em áreas remotas, sem acesso aos recursos urbanos. Por outro lado, sim, isso também oblitera completamente algumas dessas distinções que evoluíram entre cultura de consumo de massa e cultura independente.

Esse é um bom ponto. Finalmente, já vi o filme ser descrito como uma “colagem viva”. O que isso significa?
Matt: Algo que o Jon me disse no começo do processo é que os punks ingleses pegaram as roupas das culturas jovens anteriores, remontaram-nas com alfinetes e fizeram algo novo. Aquela imagem foi muito evocativa para mim e, em certo sentido, foi isso que fiz com o filme; peguei trechos, imagens e citações de adolescentes de todas as eras e países, e tentei encontrar uma maneira de colar tudo junto para criar esse novo trabalho. Porque mesmo que Teenage seja sobre o passado, meu objetivo real é refletir o presente — para entender como conflitos entre gerações se preservaram — e para mostrar que devemos ter uma atitude muito otimista para com os jovens hoje.

Jon: É hora de dar um pouco mais de respeito aos adolescentes. Não por eles serem consumidores, mas por serem seres humanos que vão viver no futuro e que devem ter ideias sobre como eles querem que o mundo seja, sabe? O que não estamos vendo nesse governo ignorante, que parece perfeitamente feliz em ignorar completamente quem tem menos de 25 anos, assim como quem é pobre. É nojento. Nem vou começar.

Talvez em outra oportunidade. Obrigado, caras.

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