Oh! You Pretty Things: relembrando a abordagem radical de Bowie para a beleza

Do Ziggy Stardust até o Thin White Duke, Bowie usava maquiagem e estilo para expressar ideias complicadas sobre gênero e sociedade – e para impulsionar sua carreira. Em homenagem ao ícone do rock, que morreu ontem aos 69 anos, relembramos como suas...

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jan 11 2016, 7:29pm

David Bowie era um alienígena. Isso é um conhecimento básico entre os fãs, que se espalha por grupos de várias idades, gêneros e tudo mais: o homem que caiu na Terra trabalhava há décadas, mas nunca realmente se assentou numa forma mortal. Em vez disso, ele se transformava numa nova interação de si mesmo, sobrepondo a própria história com mitologia a cada rodada. Davie Jones, o garoto de Brixton, se tornou David Bowie, o rocker mod que passava por bandas e personalidades tão rápido quanto pulava de cama em cama, se transformando em Ziggy Stardust; depois, em Aladdin Sane; em seguida, Thin White Duke, e assim por diante. Cada interação lhe deu uma geração de fãs fascinados por sua paródia particular de gênero e sexo em performances.

Um dos primeiros roqueiros a se assumir gay – e, claro, negar isso, diminuindo depois a coisa toda ao chamar a si mesmo de "heterossexual enrustido" –, Bowie foi um catalisador de diálogos sobre sexualidade na música, muito antes de essas boy bands com fanfics gays aparecerem.

Além de seu talento musical, a longevidade de Bowie tinha a ver também com suas experimentações frequentes e memoráveis com práticas de beleza, além da maneira como ele as usava para manipular o público. Sua morte – dois dias depois de seu aniversário de 69 anos e do lançamento de seu 25º disco, Blackstar – foi recente, porém suas experimentações infinitas de estilo, beleza e individualidade viverão por muito tempo ainda.

O primeiro sinal de David Bowie usando beleza como moeda para impulsionar sua carreira foi o protesto de 1964 em Londres no Evening News, quando ele tinha 17 anos. Ainda membro de uma banda novata sem grandes sucessos, ele já parecia um rock star: ele usava o cabelo comprido, assim como seu ídolo Mick Jagger, cuja estrela estava começando a ascender. Ele fundou uma organização fictícia chamada Sociedade para a Prevenção de Crueldade contra Homens de Cabelo Comprido. Quando Bowie foi convidado para se apresentar na televisão, eles disseram que o músico deveria cortar o cabelo – o que ele usou como uma oportunidade para ganhar atenção da mídia, se recusando a fazer isso e fazendo seu empresário organizar um protesto em frente ao estúdio em nome da organização falsa. Não por coincidência, os homens atrás dele enquanto ele era entrevistado sobre a história eram membros da sua banda da época, o Manish Boys. Mesmo no começo da carreira, Bowie já pensava em como podia usar a busca e a negociação da beleza para chegar aonde queria. Ele sabia desde o início que, concatenando uma imagem que questionava as fronteiras entre masculino e feminino, ele poderia atrair fãs e a mídia.

Foto por Michael Ochs Archives via Getty Imagens.

Depois de seu primeiro sucesso, o "rock de ficção científica sutilmente moralista" "Space Oddity", em 1969, a tendência de Bowie em usar os cabelos como teatro ficou estabelecida na época em que ele lançou seu terceiro disco,The Man Who Sold The World, cuja capa é uma ode à performance queer. Numa entrevista para John Mendelsohn, da Rolling Stone, ele deixou seu amor pelo estilo teatral exagerado explícito: "Quero deixar o rock mais atraente. Não quero sair das minhas fantasias para subir ao palco – quero levá-las para o palco comigo". Ele se revelou em sua aparência sem gênero e, ainda assim, hipersexual, usando o cabelo ao estilo Veronica Lake e um vestido na capa do disco. Segundo Bowie: The Biography, de Wendy Leigh, o futuro ícone usava vestidos regularmente nessa época, geralmente emprestados da esposa Angie. O álbum era tão provocador que a gravadora escolheu outra capa para o lançamento nos EUA, levando Bowie a gritar por sua casa que eles eram censores fascistas.

Isso foi apenas o começo. Ele passou por vários visuais, e a maioria deles, quase paradoxalmente, se tornou sua marca registrada: o topete, o cabelo bufante, as sobrancelhas descoloridas, um moicano temporário, vestidos de todos os tipos, macacões de lantejoula e horas de blush antes de um show. Ele foi mod por um tempo; depois, um deus do glitter rock. Muitos críticos musicais o consideram o fundador do glam rock, mas isso não é necessariamente verdade: apesar de ter ajudado a popularizar a performance extravagante no começo dos anos 70, Marc Bolan, do T. Rex, já usava muito glitter antes de David Bowie. Como Bolan era um dos amigos mais próximos dele, e como Bowie se autoproclamava um "colecionador" de ideias, ele provavelmente começou a usar isso depois de ver algum show do amigo.

"Meu negócio, claro, sempre foi a respeito de mudança."

Só que o impacto de Bowie foi poderoso e intercontinental. Na era de Ziggy Stardust, Lou Reed começou a usar glitter e sombra quando se apresentava em Londres. David Bowie foi o produtor do segundo disco de Reed,Transformer: Velvet Underground encontra Velvet Goldmine. E essa era uma estrada de mão dupla: Bowie explicou em várias entrevistas que se inspirou no Velvet Underground quando criava Ziggy Stardust.

O amálgama de referências em Ziggy (tanto no álbum como na persona) o tornou um dos monstros mais influentes da história da música. Muitos dos figurinos eram referências ao filme de 1971 de Stanley Kubrick Laranja Mecânica. Em Bowie Style, de Steve Pafford, o músico explica a influência como uma revisão da violência do filme. "Tirei a maior parte do visual de Ziggy daquele filme. Eu gostava da qualidade maliciosa, malévola e violenta daqueles caras, apesar de aspectos da violência em si não me atraírem particularmente. Eu queria dar outro toque nisso; então, escolhi materiais brilhantes e em xadrez, e isso tirou o impacto violento daqueles modelos... isso se encaixou perfeitamente no que eu estava tentando fazer: criar esse mundo falso ou um mundo que não existia ainda."

Bowie no show final de Ziggy Stardust em 1973. Foto por Debi Doss via Getty Images.

As origens do cabelo agora famoso são tão esquivas quanto uma descrição apropriada disso. O mullet vermelho flamejante era um sinal de anarquia de gênero e carisma sem fronteiras: foi quando David Bowie começou a aparecer como si mesmo, como músico e como performer. O corte foi trabalho da cabeleireira Suzy Fussey numa colaboração com Bowie. Há duas histórias sobre como eles chegaram nisso, as duas do próprio artista: isso era uma combinação de looks tirados das páginas da Vogue ou uma cópia descarada do cabelo de um modelo do primeiro desfile do estilista japonês Kansai Yamamoto em Londres, segundo o cantor em The Complete David Bowie, de Nicholas Pegg. "O corte Ziggy" – numa cor chamada "vermelho Schwarzkopf" – "foi tirado de uma foto de Kansai na Harpers", ele disse. O corte influenciado pelo kabuki e a cor incomum inundaram Londres e o resto do mundo, sendo usado por roqueiros de todos os gêneros. Era um jeito fácil de sinalizar participação em algo novo, empolgante e estranho: queer de todas as maneiras, tanto no gênero como na prática. A contribuição de Bowie para o diálogo queer não foi apenas visual, mas lírica também. A letra de "Lady Stardust" é sobre feminilidade e desgraça: "People stared at the make up on his face / laughed at his long Black hair / his animal grace".

Outros músicos da época imitaram a abordagem de Bowie para a beleza quase que imediatamente: Cherie Currie, do Runaways, copiou seu corte de cabelo, assim como uma geração inteira de fãs. Isso era um sinal exuberante de individualidade sem remorso. Aquele corte e o próprio Ziggy significavam estar alienado em relação àqueles que não entendiam o movimento, e ser uma alienígena era finalmente legal. As apresentações como Ziggy não eram para ser o próprio Bowie – na verdade, ele sempre chamou isso de performance, a antítese da autenticidade. Ziggy era um ícone queer não porque era Bowie, e sim porque ele fez uma farsa do que queria dizer ser real; ele fez ter um corpo e ser um corpo algo fantástico, se tornando um avatar para aqueles que precisavam de uma história para onde escapar. O alienígena bissexual e andrógeno era um salvador para aqueles que queriam cruzar as linhas que a cultura tinha desenhado para os gêneros e o sexo.

Quando David Bowie se tornou Aladdin Sane em 1973, seu impacto foi oficialmente cimentado. Esse é o personagem pelo qual ele é mais lembrado: a criatura alienígena séria e flamejante, a pele branca como a neve, o raio vermelho. Isso foi obra de Pierre La Roche, um maquiador que a história parece ter esquecido. La Roche também fez a maquiagem para The Rocky Horror Picture Show e trabalhou com Mick Jagger. Para Bowie, ele criou a esfera astral de Ziggy Stardust e o raio de Aladdin Sane. O resto de seu trabalho parece ter desaparecido num abismo, tendo sido relativamente pouco documentado, mas o gênio que pintou o rosto desse músico ajudou a transformar o rock star na criatura transcendental que ele seria no palco. Hoje, a pintura está em toda parte, de fantasias até capas da Vogue. Essa era uma tradução direta da busca de Bowie pela fama, algo difícil de ganhar e evasivo ao mesmo tempo: um raio cruzando seu rosto, brilhante, tangível e fugaz.

Se Bowie fosse lembrado apenas por algumas capas de discos, isso já seria suficiente para fazer dele o símbolo de uma geração. No entanto, ele é conhecido por muitas outras versões de si mesmo, cada uma com sua própria contribuição no diálogo sobre música e beleza: Thin White Duke, Halloween Jack, Cracked Actor. Sua última identidade era tão firme quanto as outras – e tão difícil de entender. Num clipe de dez minutos lançado em novembro para o single "Blackstar", ele aparece vendado, cantando como uma criatura do Labirinto do Fauno, um profeta, um monstro ou as duas coisas juntas. Agora, ele usava menos glitter para nos transportar em novas fantasias, deixando o ritmo ambíguo, a letra e os visuais fazerem o trabalho.

Isso estava muito distante dos macacões de lantejoula e das bochechas de arco-íris. Mas a mudança drástica é, na verdade, na personagem representativa da perseguição de uma vida toda pelo novo e pela transformação. Como ele declarou para a Circus Magazine em 1976: "Meu negócio, claro, sempre foi a respeito de mudança. Meu veículo tem sido transformações. Acho que sou mais conhecido por isso, e é isso que venho tentando dizer".

Tradução: Marina Schnoor.

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