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Terror, Estágio Dois: Capitalizando sobre o Luto

Após os ataques em Paris vários sites já ofereciam capas de celular, camisetas e bottons com o desenho ou o slogan “Pray For Paris” em todas as redes sociais.

por Equipe VICE
18 Novembro 2015, 12:20pm

Na época dos ataques de 11 de Setembro, uma capacidade inigualável da nossa sociedade capitalista se revelou: explorar a emoção coletiva vendendo itens comemorativos, como um alvo de dardos magnético com a cara de Bin Laden ou tapetes com a imagem das Torres Gêmeas. Mas, desde 2001, um novo marco foi atingido graças ao crescente sucesso de sites de compras e o desenvolvimento de impressão personalizada em apenas algumas horas. Esses dois fatores permitiram que qualquer pessoa com um computador, uma vaga ideia e algum dinheiro possa se tornar um empreendedor de improviso – o que acabou favorecendo todo tipo de ideia escrota.

Já em janeiro, depois do ataque à revista Charlie Hebdo, o slogan "Je Suis Charlie", criado por Joachim Roncin, tomou o mundo – inclusive em forma de agasalhos. Encarando tentativas de comercializar seu slogan, Roncin disse que estava "horrorizado". O Instituto Nacional de Propriedade Industrial esclareceu depois que estava rejeitando todos os pedidos para registrar "Je Suis Charlie".

Logo depois dos ataques de 13 de novembro, derivativos também apareceram por todo lado em apenas algumas horas. Na noite dos ataques, o ilustrador francês Jean Julien postou uma imagem da Torre Eiffel com o símbolo da paz, explicando depois para a WIRED que o desenho pretendia transmitir uma mensagem de paz e solidariedade, além de frisar que ele não pretendia lucrar com isso de forma alguma. Vários sites como o Zazzle – que possibilita a produção e venda de criações do tipo – já ofereciam capas de celular, camisetas e bottons com o desenho dele ou o slogan "Pray For Paris" em todas as redes sociais. O mesmo vale para o Etsy, em que você pode comprar pingentes e brincos combinando. Muitos vendedores dizem que parte (ou, às vezes, todo) do lucro será doado para associações das vítimas ou organizações como a Cruz Vermelha, porém essas promessas são difíceis de verificar.

Quando entramos em contato com os relações-públicas do Zazzle para perguntar se eles consideravam a possibilidade de remover as contas que tentassem tirar vantagem dos ataques, recebemos a seguinte resposta: "Muitos designers que trabalham no Zazzle mostram apoio à França durante esses tempos difíceis. Se os desenhos seguem nossas diretrizes, o Zazzle vai continuar permitindo a venda dos produtos nos nossos sites".

Em outras palavras, o site confia em suas regras e nenhum objeto relacionado com os ataques de 13 de novembro será removido. Numa matéria sobre as camisetas "Je Suis Charlie" feitas e vendidas em janeiro, a CNN Money perguntou a vários vendedores se eles não achavam sua abordagem um pouco "insensível". Eles responderam: "Essa é uma mensagem importante que precisa ser transmitida. Se não vendermos isso, outra pessoa vai".

Enquanto isso, anúncios para itens tão inócuos quanto bandeirinhas de festa onde se lê "PEACE" foram renomeados para acrescentar "Pray For Paris" nas palavras-chave de procura, com toda a frieza dos SEOs mais experientes. Outros produtos preferem apostar na raiva, como essa camiseta que diz "Todas as vidas contam. Menos o ISIS. Eles que se fodam", também vendida durante o final de semana (com desconto de 20% pelo código SOLIDARIEDADE). Devemos apontar que a loja Pray For Paris é um caso especial, porque ela tem esse nome desde sua inauguração em 2011. Nessas circunstâncias, os gerentes do site escolheram parar as vendas em 14 de novembro por causa dos eventos – e, agora, 20% de todo o lucro será doado para a Cruz Vermelha.

Num comunicado à imprensa divulgado na segunda-feira, 16 de novembro, o eBay anunciou seu objetivo de doar "5% da renda feita em seus mercados europeus em 14 e 15 de novembro para as vítimas e suas famílias", o que talvez seja uma tentativa de limpar seu nome depois que alguns vendedores se apropriaram do tema. Um porta-voz do eBay afirmou que medidas estão sendo tomadas para "garantir a retirada de anúncios inapropriados ou ilegais procurando glorificar ou lucrar com essa tragédia".

De sua parte, o site Amazon.fr, "desde a manhã de sábado, 14 de novembro, procura evitar a exploração dos eventos trágicos em Paris (através) de venda de produtos derivativos no nosso mercado. Se necessário, a Amazon vai remover todos os produtos de terceiros do site", nos contou o departamento de relações públicas deles. Até o final de segunda-feira, 16 novembro, nenhum anúncio do tipo foi divulgado pelos serviços deles.

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

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