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Conheça os Punks de Myanmar que Estão Alimentando os Sem-teto do País

Na noite em que a VICE os acompanhou, mesmo depois de uma chuva torrencial que transformou enxurradas em rios, cerca de 30 punks e simpatizantes se juntaram para enfrentar a crescente crise de desabrigados em Yangon.

por Paul Gregoire
14 Julho 2015, 8:30pm

Punks de Yangon distribuem comida para os sem-teto da cidade. Fotos por Charlotte Bauer.

Toda noite de segunda-feira, um grupo de punks vestidos de preto e cobertos com rebites prateados se encontram embaixo de um viaduto que cruza a avenida Sule Pagoda, centro de Yangon, para distribuir comida para as pessoas que moram ali. Na noite em que a VICE os acompanhou, mesmo depois de uma chuva torrencial que transformou enxurradas em rios, cerca de 30 punks e simpatizantes se juntaram para enfrentar a crescente crise de desabrigados em Yangon.

Fomos divididos em dois grupos para fazer a ronda pela cidade, entregando refeições de arroz frito, bananas e garrafas de água. As refeições, que os próprios punks preparam, são financiadas por doações. Na noite anterior, o grupo recebeu 50.000 quiats birmaneses em doações, cerca de R$ 137, o que ajudou a financiar os suprimentos dessa noite. As refeições variam a cada semana e roupas geralmente também são distribuídas.

A banda punk Rebel Riot comanda o programa de distribuição de alimentos. Imagem via Jirka Pasz.

Esse grupo é o braço birmanês do Food Not Bombs. A iniciativa já tem três anos e é liderada pela banda punk local Rebel Riot. O Food Not Bombs envolve voluntários que fornecem refeições vegetarianas para os necessitados. O movimento mundial se formou nos EUA em 1980 e tem um etos antipobreza e de não-violência. O grupo de Yangon está em contato com o movimento principal, apesar de "opiniões e direções diferentes".

"Percebi que precisava fazer alguma coisa, não só cantar sobre mudar o mundo", me disse Kyaw Kyaw, vocalista e guitarrista da banda. Ele acredita que o governo atual não entende o sofrimento dos sem-teto da cidade, cujo número vem crescendo. "Grandes empresas vêm para Myanmar para fazer negócio, então a moradia está cada vez mais cara, especialmente em Yangon, porque é a cidade principal."

As eleições gerais de novembro de 2010 acabaram com quase 50 anos de isolamento internacional devido ao regime militar. Desde então, o país está se abrindo cada vez mais para investimento estrangeiro – na verdade, o primeiro KFC do país abriu suas portas no dia seguinte, a alguns quarteirões de onde nos encontramos.

Todo esse investimento estrangeiro está alimentando um boom imobiliária em Yangon. Em 2014, inquilinos residenciais estavam pagando 60% a mais no aluguel do que dois anos antes, enquanto o preço de terrenos subiu 50% no mesmo período.

Investimento estrangeiro está alimentando um boom imobiliário na área. Como resultado, os aluguéis mais que dobraram.

Com os aluguéis decolando, mais e mais famílias estão perdendo suas casas. Algumas são forçadas a viver nas ruas, outras procuram abrigos fornecidos por monastérios budistas e outras ainda conseguem se mudar para cidades satélites.

E nos últimos dois anos, há relatos de vários casos de despejos forçados nos bairros suburbanos da cidade, visando dar lugar a novos empreendimentos imobiliários.

Os punks estimam que ajudam cerca de 80 a 100 pessoas por noite. Durante a ronda de distribuição daquela noite, foi difícil achar os sem-teto, já que eles estavam se escondendo da tempestade. Alguns vivem embaixo de viadutos, outros improvisam abrigos contra os muros. Mas aqueles com quem cruzamos, jovens e velhos, demonstraram apreciar a ajuda.

Um dos punks alimenta um cachorro.

Mas a iniciativa dos punks nem sempre foi recebida tão alegremente. "Os sem-teto achavam que éramos estranhos por causa dos cabelos coloridos. Eles nos mandavam embora ou fugiam", me disse Kyaw Kyaw. "Mas agora eles sabem que queremos ajudar."

Mas não foi só a mudança de opinião dos sem-teto que permitiu que o Food Not Bombs birmanês pudesse operar. As eleições de 2010, que estabeleceram uma democracia parcial e um governo com participação civil, trouxe uma liberdade maior. Antes dessas eleições, grupos de cinco pessoas ou mais não tinham permissão de se reunir nas ruas. Os próprios punks tinham que permanecer no submundo e podiam ser presos.

Segundo Kyaw Kyaw, um marinheiro introduziu o punk aos jovens oprimidos de Yangon em 1997. Depois de viajar pelo mundo, o marinheiro myanmarense voltou para sua cidade natal com discos de grupos de hardcore punk dos anos 80, como Black Flag, Dead Kennedys e Crass. Foi desse impulso inicial que evoluiu a rede underground de punks e bandas.

Mas foi só depois do início da Revolução Açafrão em 2007 que uma segunda onda punk atingiu Yangon. A revolução teve início quando dezenas de milhares de pessoas, lideradas por monges budistas, protestaram em Yangon e várias outras cidades do país contra o regime militar.

Segundo Kyaw Kyaw, um marinheiro myanmarense introduziu o punk aos jovens de Yangon em 1997.

Os protestos começaram quando o governo decidiu retirar o subsídio dos combustíveis, o que causou um aumento de 66% no preço da gasolina, um aumento de 500% no gás natural e um pico no preço dos alimentos.

A junta militar acabou esmagando o movimento com violência, mas foi esse o espírito que inspirou várias bandas punks, como o Rebel Riot. Os primeiros shows punks eram ilegais e tinham que ser mantidos em segredo.

Hoje, bandas punks como o Rebel Riot e o Side Effect podem tocar mais livremente pela cidade, mas ainda precisam de permissão das autoridades e podem ter os shows fechados pela polícia. Dificultando ainda mais as coisas, algumas bandas precisam alugar seus equipamentos, já que não têm condições de comprá-los.


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As músicas das bandas punks de Yangon geralmente têm letras políticas, com títulos como "Fuck Religious Rules". Elas lidam com violações de direitos humanos e as condições difíceis da vida em Myanmar.

No final de nossa ronda, Kyaw Kyaw abordou uma idosa que estava deitada numa barraca de plástico improvisada numa calçada. Ele explicou que ela só tinha uma mão, o que dificultava cuidar de si mesma, por isso eles sempre a visitavam em todas as rondas.

"Esse governo não sabe do que essas pessoas precisam", disse Kyaw Kyaw. Ele não estava muito esperançoso com as eleições gerais de novembro, já que acredita que todos os partidos ainda são controlados pelos militares. "Espero poder mudar alguma coisa para todas essas pessoas nas ruas um dia. Descobrir o que elas querem e precisam, e as ajudar a conseguir isso."

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Tradução: Marina Schnoor

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