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Onde Vão Parar as Craques do Futebol Feminino Brasileiro?

Machismo, proibições, falta de patrocínio, maternidade e erotização foram só alguns dos problemas que nossas jogadoras enfrentaram. Mas elas continuam na ativa.

por Letícia Naísa
24 Julho 2015, 10:30am

Roseli mostra que ainda manda muito bem com a bola. Foto: Guilherme Santana/VICE

Quando eu tinha nove anos, a professora da terceira série perguntou na sala de aula o que gostaríamos de ser quando crescêssemos. Devo ter respondido que seria algo que não sou hoje, mas um dos meninos da turma, o Felipe, respondeu com muita convicção que seria jogador de futebol. Outros meninos também deram a mesma resposta, mas o Felipe estava tão certo daquilo que até andava com uma bola de futebol embaixo do braço pela escola e tirava onda fazendo embaixadinha.

O tempo passou e não sei o que o Felipe é hoje, mas o fato é que nenhuma menina cogitou dar a mesma resposta que ele porque, afinal, todo mundo sabe que futebol não é coisa de mulher. Apenas duas garotas da minha sala realmente gostavam de jogar bola e, olhando aqui meu Facebook, hoje só sei de uma que ainda joga. Ou seja: quanto mais gente conheço, menos sei de mulheres que praticam futebol.

Eu mesma só fui me empolgar de verdade com o esporte em 2014 durante Copa do Mundo no meu país, apesar do inesquecível 7x1, que, claro, tinha que rolar na véspera do meu aniversário. Esse, aliás, foi meu primeiro trauma futebolístico e, quando li as muitas notícias sobre corrupção na FIFA e uns lances bem estranhos na CBF este ano, questionei bastante por que a gente continua a torcer pela seleção. Mas se existe algo em que eu acredito nessa vida é que o mundo dá voltas.

Na última quarta-feira (16), a seleção feminina realizou o desejo de David Luiz de levar alegria para o seu povo e marcou um belo 7x1 contra o Equador na segunda rodada da fase de grupos do Pan-Americano. Foram nada menos do que cinco gols da Cristiane. Sabe aquela história do copo meio cheio ou meio vazio? Você pode achar que tomou mais um gol da Alemanha enquanto lia essa matéria, mas prefiro ver como mais um gol da Cristiane.

Sei que sou minoria nessa. É bem provável que você não saiba das últimas vitórias no Pan nem da existência de Cristiane ou que o Brasil foi eliminado há três semanas da Copa do Mundo de futebol feminino. (Aliás, você sabia que teve uma Copa do Mundo de futebol feminino?) Assim como era na minha classe anos atrás, o esporte mais popular do nosso país parece não existir para as mulheres. Não vemos por aí notícias de artilheiras e nunca vi alguém comentando de um estádio lotado para ver um joguinho feminino.

Mas por quê?

Para responder essa questão, resolvi ir atrás daquelas que dedicaram uma vida inteira ao esporte: as craques do passado; aquelas que, antes mesmo de entrarem no campo, sabiam que teriam de lidar com preconceito, falta de incentivo e, talvez o pior inimigo de um atleta, o esquecimento.

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Roseli

Roseli mostra um dos prêmios que ganhou em 1998. Foto: Guilherme Santana/VICE

"Ela é um monstro. Ou uma monstra. No bom sentido."

A frase é do falecido locutor Luciano do Valle, ex-Bandeirantes, logo depois de ver um gol da atacante Roseli de Belo contra a Austrália, em Uberlândia, em 1995. O lance foi, como costumam dizer, uma pintura: a jogadora matou a bola no peito, chapelou a adversária e chutou forte. Um gol que comentaristas da época descreveram como "histórico".

Quando visitei Roseli em sua casa no município de Osasco, em São Paulo, numa segunda-feira de junho, e perguntei qual era o momento mais marcante da carreira, ela citou essa jogada. "Fiz um gol bonito e ficou na memória", disse, com um sorriso no rosto. Ela vestia uma roupa da seleção brasileira da cabeça aos pés e não escondia o entusiasmo ao lembrar das glórias do passado. "O coração parece que vai sair, você sente ainda mais vontade de jogar bola. Você vê todo mundo olhando, torcendo. Era bom demais", ela conta.

Naquela época, Roseli marcava um gol atrás do outro. Só nesse jogo contra a Austrália, uma semifinal de um torneio internacional, foram dois golaços. Dona da camisa 11, ela era considerada uma das mais talentosas de uma geração de ouro do futebol feminino no Brasil. "No jogo da final tinha 70 mil pessoas", ela se recorda. Na ocasião, um disputadíssimo Brasil e Argentina, nossa seleção saiu vitoriosa.

Vinte anos depois do título, a vida de Roseli está longe do glamour que se esperaria de uma ex-estrela vitoriosa da seleção. Mesmo considerada uma das maiores jogadoras do século pela International Federation of Football History and Statistics (IFFHS), a história da craque ficou perdida na memória do país do futebol. Hoje com 44 anos, ela mora em um sobrado com um sobrinho, duas tartarugas e um casal de coelhos (que acabou de ter filhotes e corria pelas escadas enquanto conversávamos). Seu trabalho atual é como professora e coordenadora de esportes da prefeitura da pequena cidade que mora. Ela treina cerca de 180 meninos e meninas para conseguir manter sua modesta rotina.

Ainda que talentosa e uma das melhores do mundo, Roseli nunca teve mansões ou carros importados. No auge de sua carreira, em 1998, quando defendia o São Paulo, seu salário era de R$ 8 mil, o mesmo valor que jogadores iniciantes do masculino costumavam receber em um clube médio ou grande. O mais curioso: seu salário era tido como alto para uma jogadora, segundo uma reportagem da Folha de S. Paulo da época. "Aqui é só masculino e mais nada", me diz Roseli, resignada. "Cismam de passar jogo do feminino na Globo só quando vai pra final. Se o feminino não for pra final, não passam. E é difícil achar hoje outra emissora que passe o futebol feminino."

Roseli tem razão. Para a estudiosa do futebol feminino e professora de educação física Silvana Goellner, da UFRGS, a carreira da ex-camisa 11 é reflexo de uma cultura que demarca o futebol como espaço de homens para homens. "As mulheres que ousam adentrar esse espaço ferem essa representação", diz. "O futebol é pensando para homens pelos homens. Tem uma série de circunstâncias que historicamente foram produzindo o esporte como espaço de maior projeção pros homens do que pras mulheres."

A real é que a história da nossa seleção de futebol feminino é recente. Nós, mulheres, ganhamos o direito aos campos apenas em 1979. Pouco se fala mas, em 1941, no governo do Estado Novo de Getúlio Vargas, a prática de esportes considerados "incompatíveis com as condições femininas" foi proibida por lei. O futebol acabou entrando na dança. A partir daí, só era possível saber notícias da modalidade por meio de notas policiais.

Este ano o Museu do Futebol, localizado embaixo do estádio do Pacaembu, em São Paulo, fez um resgate histórico do futebol feminino. Entre taças e fotografias, há reportagens com os títulos "Batida policial em jogo de futebol feminino" e "Mulheres são presas após partidas de futebol", datadas da época da proibição. "Você tem um universo que estava crescendo igual ao masculino e, de repente, tem uma onda contrária, com mulheres jogando escondido. Foi um retrocesso muito grande na modalidade", me contou a responsável pela área de pesquisa do Museu, Aira Bonfim. Somente nos anos 80 que a modalidade foi regulamentada por aqui e que surgiu a seleção. Mas a proibição causou danos profundos no futebol feminino. Foi como se retrocedéssmos décadas.

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Maravilha

Maravilha em sua chácara. Foto: acervo pessoal.

A goleira Maravilha é até hoje um dos nomes mais lembrados do futebol feminino. Ela me contou por telefone como foi viver, vinte anos atrás, um dos poucos suspiros da modalidade.

"Tinha campeonato do começo até o final do ano, a gente não tinha folga para ir para casa de tantos jogos que tinha", disse a ex-goleira, que quase não usa mais o nome de batismo, Marlisa Whalbrink. A diferença, afirma Maravilha, é que havia empresas que investiam no esporte para mulheres. A principal era a de marketing esporitvo Sport Promotion, que patrocinou a seleção durante os Jogos Olímpicos e organizou campeonatos femininos em São Paulo — incluindo o Torneio de Uberlândia em que Roseli marcou aquele golaço.

Dos anos 90 para cá, as poucas empresas e emissoras que apoiavam o futebol feminino se desinteressaram pela categoria. O cenário é de um trágico ciclo de esquecimento: não tem investimento porque não tem patrocínio; sem patrocínio, não tem público; sem público, não tem visibilidade; e sem visibilidade, não entra dinheiro.

Hoje Maravilha tem uma rotina agitada. Aos 42 anos ela cuida da casa (que, na verdade, é uma chácara com plantações e tudo), do filho de cinco anos, e, no fim do dia, faz faculdade de educação física. De três anos para cá, a ex-jogadora também arrumou tempo para treinar goleiros e goleiras na prefeitura da cidade de Maravilha (de onde veio seu apelido) em Santa Catarina. "Agora está aparecendo bastante resultado, mudou totalmente a cara dos goleiros da região, tem gente de outros municípios que também vêm treinar comigo."

Maravilha. Foto: acervo pessoal.

Mas não foi fácil ser Maravilha. Aos 21 anos, ela ouviu numa rádio gaúcha que o time do Cruzeiro estava fazendo testes para disputar a Taça Brasil de 1994. Ela foi embora de casa e contou com ajuda financeira de amigos. "Saí sem um tostão no bolso, não sabia nem onde ia dormir. Na roça, a gente trabalhava o ano inteiro e não ganhava nada, só os filhos homens ganhavam parte do dinheiro", ela contou, me deixando abismada. Ela passou no teste como atacante para disputar a Taça. "Passei porque batia bem na bola. Fiz dois gols."

Na época, o time não pagava nada além da passagem para as jogadoras. Ela trabalhou como empregada doméstica para se manter. O problema foi que, sem tempo para treinar, percebeu que foi ficando para trás. "Eu não tinha tênis para correr, corria de chuteira, e tive algumas lesões", conta. "Percebia que as outras meninas estavam mais rápidas do que eu e eu seria cortada." Pelo medo de ter que voltar para a roça, ela pediu para fazer um teste de goleira. "Eu não gostava de cair no chão duro, mas não tinha outra alternativa", conta, dando risada. Foi para o gol, passou no teste e brilhou.

Quando foi convocada para a seleção, ela foi determinada. "Eu disse 'agora vai ser difícil me tirar daqui porque vou treinar mais que todo mundo.'" Dito e feito: Maravilha só saiu da seleção em 2008, largou o posto por causa do desejo de ser mãe. "Acho que é uma grande dificuldade ser mãe e continuar jogando, porque o futebol feminino não dá condições financeiras", diz. "Parei de jogar futebol em 2009 para poder ter filho, eu já estava ficando velha também e não ia conseguir."

A questão da maternidade é algo que preocupa as mulheres no mercado de trabalho em geral. No caso do futebol, a professora Silvana aponta que existe um problema grande em quadros de planos de carreira, fruto daqueles quase 40 anos de proibição. "No futebol masculino é comum vermos jogadores que se tornam treinadores. A gente não vê isso com as mulheres. São poucas as mulheres que conseguem permanecer depois na carreira, como treinadoras, como gestoras", afirma a professora. "É outro investimento necessário, porque elas têm uma experiência, têm uma carga de vida."

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Marcia Tafarel

Marcia foi convidada para acompanhar a seleção feminina na Copa do Mundo no Canadá esse ano. Foto: acervo pessoal.

A diferença entre o futebol feminino nos EUA e aqui é gritante. As gringas acabaram de levar a taça da Copa do Mundo desse ano num jogo contra o Japão. Foi uma goleada: um belo 5 a 2 para as norte-americanas, que já deram muita canseira na nossa seleção. A solução que muitas jogadoras brasileiras acharam na carreira foi se deslocar para lá.

Marcia Tafarel jogou na seleção feminina como volante desde a primeira Copa do Mundo organizada pela FIFA, em 1991, até as Olimpíadas de 1996. Hoje ela trabalha no Diablo Futbol Club, na Califórnia, treinando meninas. "Aqui elas treinam desde os 5 anos. A partir dos 8, elas já jogam competitivamente em clubes", ela me contou ao telefone. O grande diferencial é o trabalho de base. "As meninas que têm talento vão jogar em alto nível. Qual é o trabalho de base que existe no Brasil para as meninas desenvolverem talento?", questiona Marcia.

O início da carreira de Marcia ilustra bem as diferenças entre Brasil e Estados Unidos quanto ao futebol feminino. Ela começou a jogar quando era menina, com 13 anos, na cidade de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, com apoio da mãe (mas não tanto do pai). "Eu brincava de bola com os meninos na rua porque não tinha meninas que gostavam de futebol, então minha mãe achou que era hora de eu começar a jogar com outras meninas", conta Marcia. Sua mãe a levou para um teste no Bento Atlético Futebol Feminino. "Eu achava que meninas não sabiam jogar, mesmo assim, eu fui para o teste e passei. Eu era a mais novinha e mais baixinha do time." Passou pelo Saad e jogou futebol de salão em alguns clubes até chegar na seleção.

Marcia chegou às terras gringas por causa da colega Sissi, outra grande craque da seleção brasileira. Em 2001, ela foi passar uma temporada nos Estados Unidos para aprender inglês. "Quando eu vi a Sissi trabalhando com meninas aqui, eu pensei 'nossa, eu vou ter que ficar'. E isso já tem 11 anos", ela ri.

Sissi, além de treinadora, ainda joga profissionalmente. Ela é meia atacante do California Storm. Considerada uma das maiores jogadoras do século XX também pelo IFFHS, a baiana de Esplanada chegou aos Estados Unidos depois das Olimpíadas de Sidney. Desde então treina meninas na faixa dos 14 anos, mesma idade que ela tinha quando começou a jogar. O trabalho de base existente lá na gringa é um incentivo que faz a diferença, ela me contou, por telefone. E os resultados se traduzem em taças e audiência. O título desse ano foi o terceira que as norte-americanas levaram para casa e a final foi o jogo de futebol mais visto na história dos EUA.

A cobertura midiática do futebol feminino nos Estados Unidos tem se mostrado cada vez menos sexista e o futebol feminino tem sido levado mais a sério. Por aqui, ainda temos que aguentar listas medindo grau de beleza de jogadoras e o futebol feminino, infelizmente, ainda é encarado como brincadeira. "Não dá nem pra analisar uma cobertura [de futebol feminino], porque ela não acontece. O que a gente fica sabendo é pelas redes sociais de pessoas que gostam e acompanham", diz a professora Silvana.

Marcia Tafarel (quarta jogadora, da esquerda para a direita na primeira fileira) na seleção. Foto: acervo pessoal.

Sissi em 1999. Foto: acervo pessoal.

Mesmo sem muita cobertura da mídia por aqui, dá para ficar sabendo de muita bola fora dos responsáveis pela modalidade. Recentemente, Marco Aurélio Cunha assumiu a coordenação do futebol feminino na CBF e deu uma declaração a um jornal canadense afirmando que "agora as mulheres estão ficando mais bonitas" por causa dos uniformes mais elegantes. "Os shorts são mais curtos, os cabelos são bem feitos", disse.

Encontrei-o por acaso durante uma das palestras no Museu do Futebol e perguntei a ele o que quis dizer com tais palavras. Ele me respondeu com tom irritadiço. "O que eu disse é que as jogadoras hoje não são mais a cópia do modelo masculino que era antigamente dos uniformes", falou. "Antigamente elas eram o resto, a sobra, do futebol masculino. Agora há uma modalidade valorizada, definida e constatada. Inclusive no âmbito dos uniformes." Cá entre nós, precisava falar dos shortinhos curtos para falar sobre valorização do futebol?

Silvana acredita que o fenômeno é uma erotização do futebol. Para ela, é uma tentativa de tornar palpável o olhar sobre os corpos das mulheres. "É um olhar direcionado para quem, a princípio, consome futebol, que são os homens", diz. Mas a questão é que a torcida também é lugar de mulher, assim como o campo, a arbitragem, a comissão técnica e o estádio inteiro. Roseli, Maravilha, Marcia e Sissi nos lembram disso. Transgressoras, elas roubaram a bola dos meninos, tomaram o campo para si e serviram de inspiração para uma nova geração de mulheres e jogadoras. Os homens que se cuidem porque agora as minas estão no jogo. E não podem ser ignoradas ou esquecidas.