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Os Sul-Africanos Racistas que Queriam Matar o Nelson Mandela

Esse mês as cortinas se fecharam para um dos julgamentos mais dementes da história da África do Sul. Durante o caso que durou dez anos, 22 racistas que queriam derrubar o governo pós-Apartheid e matar ou deportar todas as pessoas negras da África do...

por Gavin Haynes
20 Agosto 2012, 6:00pm


Dois alegres membros da Boeremag sendo escoltados para suas novas celas.

Se o Dad's Army tivesse um pezinho na SS, ia ser uma coisa parecida com o Boeremag. Em julho fecharam-se as cortinas de um dos julgamentos mais dementes da história da África do Sul. Durante o caso que durou dez anos, 22 racistas que queriam derrubar o governo pós-Apartheid e matar ou deportar todas as pessoas negras da África do Sul esquentaram o banco dos réus acusados de alta traição.

Esse bando mal-acabado de fazendeiros, mecânicos, acadêmicos e vendedores de equipamentos agrícolas inspirados pelas profecias de um vidente Boer morto há 150 anos planejava explodir um Boeing com uma bazuca, envenenar pessoas com gás, iniciar uma guerra de raças apocalíptica e aplicar uma política de inseminação em massa. Os acusados ficaram na mesma sala de audiências que Nelson Mandela ocupou no seu próprio julgamento de traição. Ironicamente, eles estavam treinando franco-atiradores para matá-lo.

O plano deles, apresentado num doc de MS Word astutamente intitulado “Documento 12” (na esperança de que os investigadores desistissem depois de ler os documentos de um a onze) ia tão longe que chegava a dividir os gabinetes ministeriais entre eles. Mas não tão longe para explicar exatamente como ocupariam grandes bases militares equipados só com pistolas e rifles de caça.

Seus sonhos podiam ser meio imbecis, mas não eram só fantasia. No dia 13 de setembro de 2002, em carros lotados de gasolina e bombas de cilindros, um grupo viajou até Alexandra, Joanesburgo. De lá, o plano era colocar as bombas em carros alugados e mandá-los para executar a fase um. O plano mudou no caminho. Mas eles ainda tinham 1.500 quilos de explosivos, e chegaram a entrar em contato com químicos que poderiam fazer gás venenoso. Farsa e desonestidade raramente se aproximam tanto assim. Aqui estão alguns dos destaques do caso:


Os irmãos Toit, Andre (esquerda) e Mike (direita).

ELES SE INSPIRARAM NUM VIDENTE MORTO HÁ MUITO TEMPO
Mike du Toit, o líder do grupo, recrutava pessoas que considerava vulneráveis dizendo que elas estavam sendo contratadas por uma empresa de “segurança de fazendas”. Depois disso, ele realmente as evolvia contando tudo sobre “Siener” Van Rensburg, um profeta místico que foi conselheiro do presidente boer Martinus Steyn e cujas visões otimistas do futuro culminavam numa guerra total entre raças (que os caras brancos venceriam, claro). Du Toit achava que seus homens estariam melhor equipados para alcançar seus objetivos se vissem a si mesmos como agentes encarregados de um destino místico.

ELES ERAM MESMO O DAD'S ARMY
No começo do ano de 2002, membros do grupo fizeram um juramento dentro de um galpão de batatas numa fazenda em Free State. Lá eles juraram lealdade, e assinaram “cartas azuis” declarando guerra ao governo. Cada um ganhava uma bala, simbolizando que “o traidor deveria ser morto”. Foi também nessa reunião que o conspirador Fritz Naude escolheu o codinome “KGB”. Outros agentes tinham codinomes como “Rottweiller” e “Motherfucker”. É, eles eram esse tipo de organização.


Um acusado membro da Boeremag no Tribunal de Pretória. 

ELES ACREDITAM NA TEORIA DE LIMPEZA ÉTNICA DE BREADCRUMB
Num tipo de imigração em massa que teria feito a divisão da Índia parecer um time de netball fora de jogo, eles previam que, após a Boeremag tomar o poder, todas as pessoas negras da África do Sul teriam que se dirigir para a fronteira. E eles encorajariam isso, de acordo com o Documento 12, “deixando parcelas de comida em intervalos estratégicos”. Isso mesmo: a Boeremag ia literalmente pegar grandes sacos de milho, enfileirá-los numa determinada direção na estrada N1, e as pessoas iam segui-los humildemente como galinhas até as fronteiras com o Zimbábue, Botsuana e Moçambique. Chegando lá, o plano de Toit imaginava que a ONU formaria campos de refugiados para esses humanos sobressalentes.

ELES SONHAVAM COM UM NOVO 11 DE SETEMBRO
É difícil saber por onde começar com um grupo assim. Inicialmente, eles conversaram muito sobre fazer “outro 11 de setembro” — um espetáculo tão dramático que causasse caos suficiente para o Boeremag aproveitar o vácuo. Em 2001, depois que a polícia invadiu sua casa (e “plantou”, segundo ele, um software com pornografia infantil no seu computador), um lívido du Toit anunciou que acionaria 450 homens que tinha a sua disposição na Eastern Transvaal. Eles simplesmente atirariam em pessoas negras indiscriminadamente para criar caos: “Tantos cafres (negros) vão morrer que nem seria engraçado”. Um atirador cuidaria de Nelson Mandela e seus oficiais chaves das Forças Armadas. Eles cogitaram a ideia de derrubar um Boeing com um bazuca. No final, du Toit coordenaria a queda simultânea do Parlamento, do Banco Central e da rede de energia nacional. Quando a eletricidade fosse restaurada, a TV anunciaria que o Boeremag estava no controle. Inacreditavelmente, du Toit superestimou o apelo de seu plano racista e nada disso se materializou. 


Os membros da Boeremag, Rudi Gouws e Herman van Rooyen.

ELES ACREDITAVAM QUE SERIAM SAUDADOS COMO SALVADORES
Depois de ouvirem as boas novas de que de agora em diante seriam comandados por um Talibã neo holandês, os africâneres brancos se levantariam espontaneamente para atacar os negros. Brancos não-africâneres teriam que obedecer a eles: quem não cooperasse seria fuzilado. Tom Vorster, que assumiu a liderança depois que du Toit foi preso, teve a ideia de que brancos não-africâneres que não apoiassem sem reservas a Boeremag poderiam ser usados para “limpar” os acampamentos, depois que os negros tivessem fugido. Ele até disse para uma testemunha que os carros desses traidores seriam levados para siderúrgicas e derretidos, o que mostra uma ingenuidade preocupante sobre as técnicas de produção de ferro.

ELES SONHAVAM COM ESPERMA
Numa viagem de carro, Vorster disse a um de seus homens que sonhava em manter um harém enorme de mulheres no quartel general da Armscor, o fabricante militar nacional, e engravidá-las com esperma Boeremag para produzir uma nova nação. Foi durante essa mesma viagem que Vorster sugeriu assassinar o popular comediante africâner Casper de Vries, “porque ele não estava no caminho certo”.

Pra que não fique nenhuma dúvida, esse é o comediante africâner Casper de Vries:


Um homem no caminho errado.

ELES QUERIAM DISPARAR CANHÕES POR CIMA DAS CIDADES
Para apreender o aparato militar da nação, o plano era bem básico. Fotos aéreas dariam a eles a inteligência para atacar as bases militares. Armento mais pesado seria apreendido e recrutas sem treinamento usariam essas armas altamente tecnológicas para tomar Pretória de assalto. Os aviões de guerra do governo seriam derrubados pelos comandos do Boeremag armados com rifles de caça, agachados atrás das bases militares. Vorster também sugeriu disparar a artilharia pesada da base militar de Potchefstroom através da cidade, para “instigar o pânico”. Moleza.

ELES DEPOSITAVAM SUAS ESPERANÇAS NA IMIGRAÇÃO
Depois que o trabalho principal estivesse feito, esse paraíso na terra receberia centenas de milhares de sul-africanos brancos que haviam emigrado durante as últimas duas décadas. Perth, Putney, Vancouver: todas se esvaziariam como a Saffas abandonou seus negócios de exportação e todos voltariam correndo pra sua nação onde não haveria mais ninguém pra limpar as piscinas ou bombear o petróleo, apenas grandes piscinas de líquido viscoso borbulhando no lençol freático. Eles voltariam porque, depois de ter se livrada do capital humano improdutivo, a nova África do Sul finalmente se tornaria uma utopia econômica. Em outra palavras, seria como a Austrália. Só que sem aqueles australianos degenerados.


Herman Van Rooyen depois de ser preso, escapar e ser preso de novo. 

ELES SÃO ESCAPOLOGISTAS VETERANOS
Em 2006, dois membros da Boeremag escaparam de suas celas na hora do almoço e fugiram por nove meses. Em 2011, três policiais e um guarda foram levados para o hospital depois que alguém espirrou amônia nos olhos deles durante o julgamento. Herman Van Rooney conseguiu quebrar um painel de vidro com os punhos e escapar de uma delegacia em Pretória, onde foi preso de novo logo depois. Vorster socou uma policial e teria escapado também, se ela não tivesse contra atacado com um taser. Depois disso, eles não só tiveram que comparecer no tribunal como algemas nos pés, como também foram obrigados a dormir com elas.

MAS ELES SIMPLESMENTE JÁ NÃO ESTÃO NEM AÍ
O julgamento levou dez anos. Só as sentenças proferidas demoraram um mês para serem lidas. Os acusados já estavam de saco cheio do tribunal. Durante o resumo que o juiz Eben Jansen leu contra Rooikoos du Plessis, alguns de seus coacusados estavam vendo uma revista de carros com óculos 3D. Em defesa deles, a África do Sul é muito conhecida por suas revistas 3D de carros super legais. Algo pra se orgulhar.

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