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Entretenimento

Eu e Minha Namorada Encontramos o Verdadeiro Hannibal Lecter a Pedido de Thomas Harris

Fomos atrás do Alfredo Ballí Treviño, o médico que inspirou o personagem de Silêncio dos Inocentes
13 Setembro 2013, 12:00pm

Foto por Juan Carlos Rodriguez

Diego Enrique Osorno é um proeminente escritor e poeta mexicano. Ele já publicou seis livros, focados principalmente nos cartéis de drogas do México, e têm conhecimento enciclopédico sobre Monterrey, a capital de Nuevo León, onde o Hannibal Lecter da vida real esteve preso.

Recentemente, os fãs de filmes de terror descobriram que um dos vilões mais notórios do gênero, o Dr. Hannibal Lecter de Thomas Harris, foi baseado num médico de verdade, preso no México, que o autor conheceu quando visitou a prisão para entrevistar outro detento chamado Dykes Askew Simmons. Na primavera passada, por meio do meu editor, recebi uma mensagem de Harris, que queria que eu encontrasse e identificasse uma pessoa que esteve na prisão estadual de Nuevo León durante os anos 1950 e 1960. Por algum momento, achei que iria acabar trocando correspondências com Harris, como Hannibal fazia com alguns de seus pacientes. Enquanto eu lia o bilhete, no entanto, ficou claro que eu seria um tipo de detetive contratado. Seu bilhete dizia o seguinte [sic]:

Preciso de informações sobre um médico, conhecido pela imprensa como “O Lobisomem de Nuevo León”, detido na Prisão Estadual de Nuevo León no final dos anos 1950 e pelos anos 1960. Não sei seu nome. O médico foi condenado por matar caroneiros em Nuevo León, desmembrando-os e desovando os corpos aos poucos à noite com seu carro. O médico salvou a vida de outro detento na prisão, Dykes Askew Simmons, quando ele foi baleado pelos guardas enquanto tentava fugir. O médico também tratou pessoas pobres gratuitamente quando era prisioneiro e chegou a ter um consultório dentro da cadeia.

Simmons era um texano condenado em Nuevo León, em março de 1961, por matar três membros jovens da família Perez Villagomez em outubro de 1959. Ele foi sentenciado à morte, uma sentença depois comutada para 30 anos de prisão. Eles esteve na Prisão Estadual de Neuvo León de 1961 até sua fuga em 1969. O caso de Simmons, e provavelmente o caso do médico, foi coberto pelos jornais El Norte de Nuevo León e El Sol de Nuevo León_. Os repórteres do_ El Norte que escreveram sobre Simmons foram Ricardo Bartres e Esteban Ardines.

Qualquer ajuda será bem-vinda.

No começo, minha tarefa parecia bem simples. Com tantos detalhes, não achei que seria difícil encontrar o nome do assassino que tanto interessava a Harris. Comecei minha busca com um telefonema para o escritor Eduardo Antonio Parra, um dos mestres da literatura criminal do nordeste do México, cujo trabalho eu muito admiro. Dei a ele todos os detalhes, mas, infelizmente, ele não conseguiu lembrar de ninguém que batesse com a descrição. Em seguida, procurei por Hugo Valdés, autor de El crimen de la calle Aramberri, um romance baseado num incidente que aconteceu no Barrio Antiguo de Monterrey na virada do século. Novamente, sem sorte.

Logo recebi outra mensagem de Harris em minha caixa de e-mails [sic]:

Fico muito feliz de ter sua ajuda para identificar o médico que tratou Dykes Askew Simmons. Agradeço pelo seu tempo. A identidade do médico é meu principal interesse, assim como qualquer detalhe sobre ele. Não preciso de mais informações do caso Simmons, exceto por seu contato com o médico.

Assisti com grande interesse sua discussão no You.Tube sobre os problemas atuais no México e lhe desejo o melhor.

Então, decidi tomar um rumo diferente. Procurei dois ex-agentes da promotoria, um ex-comandante e um ex-promotor. Perguntei se eles se lembravam de algo sobre um prisioneiro que se encaixasse na descrição de Harris, mas eles também não se lembravam. A busca me levou a fazer um índice rápido dos crimes mais famosos dos anos 1960 e 1970 em Monterrey.

Foi aí que Harris me escreveu, mais uma vez, com mais algumas pistas [sic]:

O diretor da prisão na época era Miguel Guadiana Barra. Um dos inspetores se chamava Sarquiz. Espero que essas informações ajudem.

Só para esclarecer: tudo de que preciso é o nome do médico e alguns fatos sobre seus crimes. Ele esteve preso entre o final dos anos 1950 e pelos anos 1960, na mesma época que Dykes Askew Simmons. Ele foi condenado por vários assassinatos nos quais as vítimas foram desmembradas. Ele tratou de pacientes enquanto estava na cadeia. Ele salvou Simmons quando este foi baleado numa tentativa de fuga. Ele é membro de uma família importante do México.

Quando eu souber o nome dele, poderei levar minha publicação adiante. Obrigado pela ajuda. Boa sorte.

Eu estava prestes a ir para o museu Capela Alfonsina na Universidade Autônoma de Nuevo León para procurar nos periódicos dos anos 1950 e 1960, todos os dias, quando minha namorada me ligou para dizer um nome: Doutor Ballí. Ela – uma leitora ávida de todas as formas de contos criminais – tinha investigado por conta própria com amigos e familiares, e acabou encontrando o homem de Harris. Todo meu trabalho duro ao estilo Dick Tracy tinha sido superado por algumas conversas casuais de minha namorada.

Com o nome em mãos, decidi cavar mais fundo. Descobri uma história escrita em 2008 sobre Ballí baseada numa curiosidade jurídica: ele foi o último prisioneiro condenado à morte no México. Para sorte do médico, sua sentença foi comutada e, depois de uma longa estadia, ele saiu da prisão no ano 2000. O entrevistador de Ballí para a matéria, intitulada “Não Quero Reviver Meus Fantasmas”, foi Juan Carlos Rodriguez, um amigo e antigo colega do jornal Milenio.

Liguei para ele para falar sobre suas experiências com o médico:

 – Você se lembra de uma entrevista que fez algum tempo atrás com um médico sentenciado à morte?, perguntei.

– Alfredo Ballí Treviño?

– Sim. Você sabe se ele ainda está vivo?

– Não sei. Acho que pode estar. Lembro mais ou menos de onde ele morava e que trabalhava como médico, apesar de, tecnicamente, não poder mais exercer a medicina por ser um ex-condenado.

– Mais algum detalhe?

– Não mantive muita coisa. Na verdade, aquela entrevista veio porque um advogado nos disse onde podíamos encontrá-lo e nós o encontramos.

– O consultório dele era em Colonia Talleres?

– Sim. Era muito austero. Não lembro o número exato da casa.

– O que aconteceu com ele? Ele ainda está vivo?

– Acho que sim.

Usando as informações fornecidas por Juan Carlos Rodriguez e outras reunidas em periódicos, preparei um dossiê volumoso para Harris, que posso resumir assim:

*O nome do médico que tratou Dykes era Alfredo Ballí Treviño.

*Ele foi sentenciado à morte por “crimes de homicídio qualificado, enterro clandestino e expropriação da profissão, perdidos contra o Doutor Jesús Castillo Rangel".

*Seu caso está arquivado sob o número 263/59 no escritório da promotoria do estado de Nuevo León.

*A data da abertura do caso é 9 de outubro de 1959.

*A sentença foi dada em maio de 1961.

*Do ponto de vista judicial, seu caso é interessante porque foi a última sentença de morte proferida no México. A pena de morte não tem sido praticada legalmente no país desde então (embora o governo a aplique de forma extrajudicial).

*Mais interessante, sua pena foi comutada.

*Todos os sinais sugerem que o Dr. Alfredo Ballí Treviño morreu em 2010. Até aquele ano, ele praticou a medicina num consultório numa colonia esquecida de Monterrey. O endereço é:

Rua Artículo 123,
Colonia Talleres,
Monterrey, Nuevo León,
México CP 64480 Norte

Harris respondeu agradecendo pela descoberta. Agora sei que ele precisava da informação para terminar o prólogo da edição de 25 anos de O Silêncio dos Inocentes. Nesse texto, extraído do Times de Londres, Harris narra como, aos 23 anos, viajou para Monterrey e entrevistou Dykes Askew Simmons e, como em dado momento, ele conheceu a figura que o inspirou a criar Hannibal Lecter. No texto, ele se refere a essa pessoa como “Doutor Salazar”. O “Doutor Salazar” é o Dr. Ballí. E o Dr. Ballí é o alter ego do Dr. Hannibal Lecter, que, sob o domínio de Harris, tinha uma maneira especialmente sinistra de falar que ele nunca esquecerá: “Você já viu sangue sob a luz da lua? Ele parece negro".

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