Publicidade
Esta história tem mais de 5 anos de idade.
Noticias

A Violência Entre Rebeldes na Síria Ameaça a Luta Contra Assad

A guerra entre milícias só dificulta a tentativa de derrubar o ditador.

por Glen Johnson
14 Outubro 2013, 3:15pm


A bandeira do al-Nusra.

Crianças sírias, refugiadas do conflito em sua terra natal, sentam-se sob tendas improvisadas em Oncupinar, Turquia. Elas enfiam os rostos sujos pelos buracos da lona rasgada. Água ferve em panelas acima de pequenas fogueiras. Homens fumam cigarros e mulheres lavam roupas à mão. Ao longe, ouço um estrondo, provavelmente um tiro de tanque.

A explosão distante vem através da fronteira entre Turquia e Síria. Pela maior parte da manhã, combatentes do Estado Islâmico no Iraque e Síria (ISIS em inglês) enfrentaram as milícias no vilarejo curdo de Qustul Jendo, próximo da cidade estratégica síria de Azaz, tomada pelo ISIS em 18 de setembro.

Não haveria nada de notável nesse combate, se seis grandes facções rebeldes não tivessem pedido em 3 de outubro que “nossos irmãos do ISIS retirem suas tropas e veículos [de Azaz] para seu quartel-general principal imediatamente”.

Em vez disso, o ISIS – uma milícia afiliada a al-Qaeda que se tornou uma das facções mais fortes na região – realizou uma ofensiva contra a vila de Qustul Jendo e abriu mais um fronte nas proximidades de Azaz. Nas últimas duas semanas, o ISIS e a brigada Tempestade do Norte, ligada ao Exército Livre da Síria, têm se estapeado pelo controle de Azaz e, mais importante, do cruzamento Bab al-Salamah na fronteira, a apenas alguns quilômetros estrada acima.

Os conflitos estouraram quando o ISIS tentou sequestrar um médico alemão que trabalhava num hospital local em 18 de setembro. Eles tomaram o controle da cidade e reforços do ELS foram mandados de Alepo para apoiar os combatentes sitiados da brigada Tempestade.

Discutiu-se um cessar-fogo, mas que não se concretizou. Um membro do centro de mídia de Azaz, Hazem al-Azeze, que tentava intermediar o cessar-fogo, foi baleado no pescoço pelo ISIS e deixado sangrando numa rua, segundo relatos de ativistas.

Na Síria, rixas entre facções da oposição levaram ao aumento da violência entre os rebeldes.

“Como podemos lutar contra Bashar al-Assad quando temos uma guerra com o ISIS e o PKK [uma milícia separatista curda no sudeste da Turquia] ao mesmo tempo?”, disse um ativista da oposição, temendo represálias. “Não podemos mais nos concentrar somente em Assad, temos que estar sempre olhando por cima do ombro para saber quem está atrás de nós.”

Recentemente, o ISIS enfrentou ainda outras brigadas do ELS na cidade de Deir Ezzor no leste, e teria declarado guerra às Brigadas Farouk, um grupo filiado ao ELS.

Na província de Hasakah no nordeste, nas proximidades da cidade árabe-curda de Ras al-Ayn, combates esporádicos continuam entre o grupo islâmico Jabhat al-Nusra (JN) – liderado por Abu Mohammed al-Joulani, um agente da al-Qaeda envido no final de 2011 pelo comandante do ISIS, Abu Bakr al-Baghdadi, para estabelecer um grupo jihadista na Síria – e milícias curdas, que até agora tinham evitado se envolver no conflito.

De acordo com o Observatório Sírio pelos Direitos Humanos, uma organização com base em Londres, o ISIS atacou a base do JN na província de Hasakah, matando dois militantes do Nusra e apreendendo armamentos e equipamentos no dia 22 de setembro. O grupo também é suspeito de ser o responsável por um carro-bomba que matou sete pessoas no lado sírio do cruzamento de fronteira Bab al-Hawa em 17 de setembro. O grupo também teria ameaçado realizar uma onda de ataques em Ancara, a capital turca, em represália ao fechamento da fronteira em Oncupinar pelo governo turco. A cidade era um rota de suprimentos chave para os grupos rebeldes.

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, enfrenta atualmente uma séria reação doméstica pela política de seu governo com relação a Síria: a Turquia exige uma mudança agressiva do regime em Damasco, defendendo o envolvimento direto de forças militares ocidentais num conflito que já matou cerca de 115 mil pessoas (estima-se que 41% dos mortos sejam das forças do regime e aliados), devastando toda a infraestrutura e deslocando cerca de seis milhões de pessoas.

O governo turco, que procurou inicialmente intermediar um acordo entre Damasco e a oposição, permite que combatentes estrangeiros (dezenas de jihadistas, conhecidos como al-Muhajirin, que deixaram o Jabhat al-Nusra pelo ISIS no começo do ano) e armas passem livremente pelo território turco até a Síria e acredita-se que o país tenha movimentado diretamente armamentos para insurgentes sírios – uma acusação que Ancara nega.

Muitos argumentam que o governo turco está usando tanto o ISIS quanto o JN como representantes.

A política turca de mudança do regime levou à dissolução da fronteira com a Síria, agora assombrada por contrabandistas e combatentes. A posição de Erdogan provavelmente intensificou o conflito sírio e minou qualquer influência que a Turquia podia ter sobre o regime sírio para negociar um acordo.

Isso também aumentou a possibilidade de um tiro pela culatra em Damasco: em maio, dois carros-bomba explodiram em outra cidade de fronteira turca, Reyhanli, num movimentado mercado de rua, causando 52 mortes. Ancara associou o ataque a um grupo militar envolvido com o regime sírio. Mas recentemente, o ISIS se responsabilizou pelo ataque – apesar de seu envolvimento parecer improvável.

Ainda assim, o parlamento turco votou na quinta-feira passada por estender um mandato que permite enviar tropas turcas para a Síria, afirmando que as armas químicas de Damasco representam uma ameaça para a Turquia. (Atualmente, a Organização pela Proibição de Armas Químicas – OPCW em inglês –  tem inspetores trabalhando na Síria para destruir o arsenal do regime, uma resposta aos ataques nos subúrbios de Ghouta no final de Agosto.)

“Vamos continuar a agir com os reflexos de um grande estado”, disse Erdogan recentemente, depois que aviões turcos derrubaram um helicóptero sírio que se desviou para os céus da Turquia mês passado, uma das primeiras vitórias das tropas adicionais turcas enviadas para a região. “Espero e acredito que ninguém interprete erroneamente a paciência e a moderação turca e tente nos testar.”

Enquanto o ISIS e o JN emergem como duas das mais potentes facções rebeldes, atraindo muitos recrutas e combatendo fortemente o regime – um estudo recente do IHS Jane estima que cerca de 50% da oposição é composta por islâmicos linha-dura – esse grupos parecem estar irritando boa parte da oposição com sua visão austera de uma Síria ultraconservadora.

“Eles (ISIS) estão brigando sobre o que é o Islã. Eles querem que todos sejam como eles”, Ahamed, um refugiado na fronteira, me disse quando a luta em Azaz começou duas semanas atrás. “Eles acham que se você não é como eles, então eles podem te matar.”

Enquanto isso, o JN continua a ganhar apoio nas áreas ocupadas por rebeldes, fornecendo eletricidade, pão e serviço de transporte aos residentes, de acordo com relatos de ativistas em Alepo.

No entanto, o ISIS também mantém um certo grau de apoio. Falando da cidade de fronteira turca de Kilis na sexta-feira passada, Abdallah, um combatente do Ahrar al-Sham prestes a retornar às linhas de frente depois de se tratar num hospital turco por ferimentos sofridos em Alepo, disse que o ISIS estava pronto para levar o combate até o ELS.

“O ISIS é forte e justo”, disse ele, esfregando as mãos e usando um pequeno chapéu preto de oração bem apertado em torno do crânio.

@GlenAJohnson

Mais sobre a guerra civil síria:

Guia VICE Para a Síria

As Mulheres do Exército Livre da Síria

Cada Vez Mais Jornalistas São Sequestrados na Síria

Como Poderá Ser a Intervenção Ocidental na Síria?

Tagged:
ISIS
Assad
Siria
PKK
Vice Blog
Alepo
al Nusra
rebeldes
facções
Exército Livre da Síria
rixas