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Marcelo D’Salete faz quadrinhos para redescobrirmos o Brasil

Vencedor brasileiro do Eisner Awards, a mais importante premiação mundial de HQs, o autor fala sobre sua trajetória e disseminar uma perspectiva abrangente da identidade nacional.

por Eduardo Ribeiro
07 Agosto 2018, 10:00am

Capa de 'Cumbe' (Veneta)

Com uma carreira dedicada a revelar o Brasil e a vida nos centros urbanos sob uma perspectiva negra, indígena e periférica, o quadrinista Marcelo D’Salete impactou o público internacional e, recentemente, foi agraciado com nada menos do que o Eisner Awards. O paulistano recebeu a mais importante condecoração internacional das HQs na noite de 20 de julho, durante a San Diego Comic Con, na Califórnia, EUA, dentro da categoria Melhor Edição Americana de Material Estrangeiro. O reconhecimento se refere à versão estadunidense da obra Cumbe, lá fora publicada com o título de Run For It pela editora Fantagraphics.

Publicada originalmente aqui pela Veneta em 2014, Cumbe ganhou, em março deste ano, uma nova edição ampliada, que traz desenhos inéditos e um novo posfácio do autor. O livro mostra a resistência dos negros durante o nosso período colonial contra a violência da escravidão. Além dos Estados Unidos, o álbum saiu também em Portugal (Polvo), França (çà et là), Itália (BeccoGiallo), Áustria e Alemanha (Am-Book), e foi indicado no ano passado a outro importante prêmio, o alemão Rudolph Dirks.

Seu trabalho mais recente, Angola Janga (Veneta, 2017) é um épico sobre o quilombo de Palmares e teve os direitos vendidos para Alemanha, Itália, Portugal e Estados Unidos. No início do ano, recebeu o prêmio Grampo. Aqui, D’Salete retrata os conflitos raciais e sociais do país, alternando cenários urbanos do presente com o Brasil colonial das senzalas e quilombos após uma pesquisa de dez anos.

Além de ser um dos mais importantes nomes dos quadrinhos nacionais da atualidade, Marcelo D’Salete também é mestre em História da Arte. Tem na bagagem os livros Noite Luz (Via Lettera, 2008), Encruzilhada (Veneta, 2016), participações em coletâneas e ilustrações para obras infantis.

Passada a turbulência do recebimento do prêmio, ele dedicou um pouco de seu tempo a um bate-papo com a VICE. Acompanhe:

VICE: Qual é a memória mais antiga que você tem de ter gostado de um quadrinho, e, o que há nesta arte que lhe fez querer ser um quadrinista?
Marcelo D’Salete:
Bem, eu comecei a minha relação com o desenho bem cedo. Isso vem desde a infância. Meu irmão, Marcos, mais velho, também gostava muito de desenho e de ler quadrinhos. Lembro que, no fundo da nossa casa, lá em São Mateus, Zona Leste, a gente tinha uma lousa verde de giz, e ficava desenhando lá por horas e horas a fio. Essa lousa é uma das minhas primeiras memórias de criar desenhos baseados em quadrinhos e tal. Tenho uma paixão muito grande pelo desenho e por narrativas. Com o tempo, tudo isso foi confluindo para a criação de histórias em quadrinhos. Foi juntando duas artes das quais gosto bastante.

Página de 'Cumbe', quadrinho vencedor do Eisner Awards como melhor obra estrangeira publicada nos Estados Unidos.

O caminho até o lançamento de Noite Luz encontrou muitos percalços?
Esse livro saiu em setembro de 2008 aqui no Brasil. Um mês antes, tinha saído primeiro na Argentina. Comecei a publicar quadrinhos em revistas mix, com vários autores, em 2002. Na Quadreca, Fronte... Na Quadreca, acho que publiquei umas duas histórias, com roteiro do Kiko Dinucci; na Fronte, participei de umas seis edições. Na Fronte foi onde tive mais contato com profissionais da área. Eu era, ali, meio que o calouro, o novato do time. Aprendi muito, demais. Foi o meu momento de formação em quadrinhos, com certeza. E, o fato de a gente editar as histórias a partir de um grupo online e escolher quais entrariam na publicação foi o que me fez aprender muito sobre edição, como conduzir uma história, ouvindo as críticas dos colegas, analisando outras histórias, estando na posição de artista, mas muitas vezes também de leitor, crítico dos trabalhos dos colegas. Foi um momento especial.

Claro, não foi algo tão fácil publicar o Noite Luz, esperei um bom tempo. Desde que terminei até o lançamento demorou mais de um ano, ano e meio, não pensei que fosse demorar tanto. Mas acho que tudo acontece no momento certo. Eu estava amadurecendo ainda algumas questões, detalhes. Foi um livro de experimentação, de saber como funciona essa mídia, histórias em quadrinhos, como levar uma história. Não tinha um tema único, as histórias se relacionavam mais como contos, e cada uma apresentava um traço também, um bem diferente do outro. Era um momento também em que eu estava buscando um traço mais característico, próprio.

Já no segundo álbum, Encruzilhada, você foi indicado ao HQMix. Como foi a sensação?
Ali, acho que amadureci muita coisa que tinha em Noite Luz. Em ambos, as histórias são muito urbanas, cheias de prédios, cidade grande, pessoas passando pra lá e pra cá. Tinha muito esse meu interesse em desenhar a cidade, essa paisagem extremamente urbana, de fazer com que, dentro dessa paisagem, logotipos, marcas, todas essas coisas que vivenciamos na cidade, também estivesse lá e fizesse parte da história, dos personagens e locais apresentados. Acho que consegui isso. E tem um traço razoavelmente único do começo ao fim do livro, o que é bem diferente do Noite Luz .

Antes de Cumbe, você já tinha essa noção de poder ganhar um Eisner?
Nem imaginava que seria uma obra tão premiada e reconhecida. Minha intenção inicial era publicar no Brasil e chegar num público que se interessasse por esse tipo de história. Tinha muitas dúvidas se isso ia acontecer, mas, contendo as minhas expectativas, o livro chegou onde eu queria, no público interessado nessa discussão, em pensar a história do Brasil a partir de outras referências e interessado em amadurecer esse tipo de abordagem. É algo novo pra mim.

O que talvez atraia o olhar internacional pra essa obra seja que internacionalmente são poucas obras falando sobre história do Brasil, a questão da escravidão. O Brasil é um dos últimos países a abolirem a escravidão, e isso traz consequências até hoje. Temos pouco conhecimento disso a partir da perspectiva negra, de autores negros. Isso é algo que, cada vez mais, chama a atenção dos leitores, conhecer essa outra referência, mas que também, razoavelmente, dialoga com a história da América de séculos atrás e com uma questão de tráfico que envolve todo mundo. Para além disso, está falando sobre personagens muito singulares, inspirados em fatos históricos, e buscando uma coisa muito simples, que é a autonomia sobre a própria vida.

Página de 'Angola Janga', trabalho mais recente do autor.

Como você procurou ampliar em Angola Janga uma discussão, um registro, que se casa com o universo dos títulos anteriores?
O Angola Janga é um livro sobre Palmares, uma história de Palmares. O termo significa “Pequena Angola”, acredita-se que era assim que os palmaristas se chamavam. De certo modo, esse livro foi publicado agora em 2017, mas eu comecei o roteiro dele em 2006, e a ideia já vem desde 2004. Foi um processo longo, quando já estava criando os outros livros eu já pensava com trabalhar fazer algo assim. Era um livro que estava sempre no meu imaginário, mas eu sabia que era importante pesquisar muito sobre o período, em termos de imagem, narrativas, naquele momento ainda não tinha possibilidade disso. De 2006 até 2009, fiquei só pesquisando. No ano seguinte comecei a fazer os esboços, realmente, de cada personagem, e a finalizar as páginas. De certo modo, ele traz algo que está no Noite Luz e Encruzilhada, que é pensar a nossa sociedade a partir a partir de uma experiência negra sobre esse espaço e os diferentes períodos históricos.

"A gente conhece muito pouco sobre a nossa história. Temos pouquíssimas personalidades negras e indígenas. Acho que vale conhecer mais, elas podem acrescentar algo importante sobre quem somos nós hoje, e, principalmente, para esses grupos muitas vezes marginalizados."

Além de seu trabalho autoral, você também já fez ilustrações para obras de outros autores. Ainda anda fazendo? Conte um pouco sobre esse lado.
Cheguei a trabalhar, também, com ilustração infantil, alguns livros paradidáticos. Fiz ilustrações para um amigo de quem gosto muito, que é o Allan da Rosa, ele tem textos ótimos. Recentemente, fiz a capa de um livro dele, o Pedagoginga. O Alan é importante na minha história porque ele fez o primeiro texto sobre o Noite Luz, o prefácio, assim como o Bruno Azevedo, que fez o texto da orelha do livro. Além disso, fiz umas ilustrações de livros infantis por volta de 2004 até 2011, depois dei uma parada e acabei focando mais nas HQs. Pretendo voltar, talvez até com textos meus também, mas isso futuramente.

Qual é a maior falta de conhecimento sobre a escravidão no Brasil, levando em conta tudo o que já descobriu em 11 anos de estudo sobre a escravidão e o período colonial brasileiro?
A gente conhece muito pouco sobre a nossa história. Temos pouquíssimas personalidades negras e indígenas mesmo nesse período. Acho que vale conhecer mais, elas podem acrescentar algo importante sobre quem somos nós hoje, e, principalmente, para esses grupos muitas vezes marginalizados, negros e indígenas. O Brasil do século 17 é um país ainda estranho ao olhar contemporâneo. Nem poderíamos chamar, inclusive, de Brasil. Era uma região totalmente repartida por interesses diversos, e uma luta constante por território. A noção de unidade nacional não existia. Tem fatos incríveis quando misturamos um pouco dessa história, o Ari Castro fala bastante disso, da relação entre Brasil e Portugal, e Oeste africano. Principalmente com os negros da região de Angola.

As políticas que as metrópoles adotam aqui são pensando muito em como afetam lá em Angola. O que acontece aqui interfere lá, o que acontece lá interfere aqui. Isso, porque o Brasil estava sendo construído a partir do trabalho forçado desses mais de cinco milhões de africanos que trouxeram pra cá. Inclusive fala-se que são 12 milhões de pessoas que vieram pra América, mas esse número ainda é tímido, é provável que seja muito maior. Essa é apenas uma estimativa a partir dos números registrados. Fora disso, sabemos que houve um mercado informal, não registrado. A história de Palmares, também, vale ser conhecida para além de seu principal líder, que foi Zumbi. Ele é importante, sim, mas além dele existiram vários grupos.

Capa de 'Encruzilhada', quadrinho lançado pela Veneta em 2016.

Você tem também a HQ Risco, que pouca gente comenta. O que ela representa pra você?
Esse quadrinho foi publicado pela Cachalote, foi um grande prazer participar desse selo, mas foi uma tiragem um pouco menor. É uma história que gosto muito. Fiz logo depois de terminar o Encruzilhada. Tanto, que na nova edição, da Veneta, de 2016, do Encruzilhada, foi incluída essa história do Risco. Fala sobre um guardador de carro, um flanelinha, e o conflito dele com jovens que vão pra balada, de classe média, e explora um pouco desses conflitos que às vezes a gente tem nas grandes cidades. Isso muitas vezes mostra uma tensão social e étnico-racial entre diferentes grupos.

Existe uma enorme dificuldade em dialogar e resolver essas questões que levam a toda uma discussão maior sobre desigualdades, discriminação e racismo. A história saiu dentro de uma série bem interessante, chamada Franca. Considero que foi muito interessante e oportuno poder publicá-la junto das outras histórias do Encruzilhada. Acho que ela finaliza muito bem esse livro cheio de contos que falam sobre esse olhar jovem, periférico e negro dentro de uma grande cidade como São Paulo e outras.

O que muda depois do Eisner? É cedo para falar de novas HQs?
Ainda estou me acostumando com essa ideia. Na verdade, considero que o Eisner é um reconhecimento de todo o trabalho anterior, que dialoga com um trabalho meu, mas também do momento do Brasil. E Angola Janga, no mundo, só foi possível por estar conectado com essas questões desde a juventude, participando de grupos, discutindo, com muita influencia da literatura, de música, outras artes. O que tentei foi trazer isso pro universo dos quadrinhos.

É um trabalho de várias mãos, o acumulo de uma discussão. Espero que o prêmio seja importante também para o reconhecimento de outros artistas no Brasil, existem várias grandes obras que merecem ser publicadas no mercado estrangeiro. E, para que a gente atente cada vez mais para essas questões da desigualdade, do racismo e vários outros problemas pelos quais estamos passando, essa intolerância, essa dificuldade de diálogo. Conseguir, de fato, avançar pautas progressistas, hoje, é algo que preocupa bastante. Estou pensando ainda em novos projetos, não tenho nada, por enquanto, pra revelar. Apenas que estou pegando antigos rascunhos, ideias, anotando muito. Daqui a algum tempo, talvez tenha algo novo aí.

Na primeira entrevista sua pra VICE o Bruno Soraggi lhe pergunta se você conhece o Ogi e você diz que vai procurar pra conhecer. Só por curiosidade: o que achou?
Mano, eu curto o som do Ogi, mas ouço pouco até. preciso acompanhar mais. Hoje, acabo ouvindo bastante o Rincon, o [Thiago] Elniño, Síntese, Criolo, James Bantu, Ba Kimbuta...

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