Time Warp Argentina 2016. Screenshot vía.

Como uma tragédia em um festival mudou a cena eletrônica de Buenos Aires

Cinco jovens morreram no Time Warp em 2016, e o poder público proibiu as festas eletrônicas. Mas mesmo com a aprovação de nova regulação, dúvidas e estigma permanecem sobre a cena da capital argentina.

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02 Agosto 2018, 10:00am

Time Warp Argentina 2016. Screenshot vía.

Na noite de 16 de abril de 2016, cinco jovens morreram durante o festival Time Warp Buenos Aires. As causas forma várias, incluindo o consumo de múltiplas drogas, venda de mais ingressos do que o local suporta, o corte de água potável no espaço Costa Salguero e a suspeita da cumplicidade de organizadores e equipe de segurança com o comércio de entorpecentes. Depois dessa tragédia e até a sanção da vigente Lei de Eventos Massivos, o governo da cidade de Buenos Aires proibiu as festas eletrônicas com base em uma decisão judicial, e inclusive tentou cancelar o show do Kraftwerk em novembro de 2016. Recentemente, em um festival realizado a céu aberto na capital argentina, um raio caiu próximo ao palco que levou à suspensão do evento e à pergunta: festivais podem ser produzidos de maneiras diferentes?

A princípio, a partir da tragédia no Time Warp, com o debate público marcada pela discussão em torno das mortes, o poder legislativo da Cidade Autônoma de Buenos Aires trabalhou em uma nova legislação para “eventos massivos”. O resultado foi a Lei 5641, que desde janeiro do ano passado organiza o entretenimento de grande escala na cidade. Consultados pelo Noisey, a área de comunicação da Agência Governamental de Controle (AGC) de Buenos Aires, reconhece que “o número de público permitido em um espaço fechado é muito menor do que a permitida em um espetáculo comum."

A entidade encarregada de fiscalizar os locais portenhos explica: “Existem dois tipos de evento massivo, de diversão pública e de espetáculo público. A diferença consiste no fato de que no primeiro o público interage e no segundo permanece como espectador. Os eventos de música electronica são considerados de diversão pública pois o público, ao dançar, está interagindo. A lei prevê que neste tipo de eventos a quantidade de público permitido em espaços fechados seja menor."

Como já publicamos aqui, o fiscal a cargo de investigar os organizadores do Time Warp argumentou que um dos vários fatores que desencadeou a tragédia foi a venda de mais ingressos do que a capacidade do local: havia 20 mil pessoas em um lugar fechado com capacidade para 13 mil. Com o dano já feito, o GCBA (Governo da Cidade de Buenos Aires) diminuiu a quantidade de público permitido para os eventos indoors. “Mesmo assim, na AGC não aconselhamos que esse tipo de evento seja realizado em espaços fechados”, adverte o órgão. “Se tem dois palcos — argumentam na Agência — e vai haver milhares de pessoas se locomovendo de um a outro durante a noite, isso dificulta as coisas quando essa movimentação de pessoas acontece em um espaço fechado."

O marco regulatório que rege os eventos massivos em Buenos Aires parece estar naquela de “melhor prevenir do que lamentar”, mas o corte no número de espectadores e as críticas aos portões fechados podem gerar, ainda, um retrocesso em outro dos fatores que, segundo o fiscal Federico Delgado, provocaram a tragédia e estigmatizou as festas eletrônicas: a ambição das produtoras mais poderosas e sua margem de ação dentro e fora do marco da lei.

“Em um espaço fechado, a organização gerou as condições para que um grupo de pessoas vendesse livremente as drogas aos frequentadores. Permitiram a venda porque as drogas sintéticas requerem hidratação constante, e a organização vendia a água. E assim as drogas foram um veículo para vender mais água”, afirmou Delgado em sua investigação. Desencorajar as festar ou reduzir seu público é um caminho para a solução ou, em tempos globalizados, apenas “joga o problema lá pra frente”?

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Se a ideia é conhecer a cena eletrônica de Buenos Aires, o Under Club é uma passagem obrigatória. Consultado pelo Noisey sobre a atualidade da realização de eventos eletrônicos, Joel Silva, um de seus responsáveis, argumentou: “O que devemos entender é que na Argentina quem tem a oportunidade de realizar eventos massivos em sua grande maioria são empresários que não têm a intenção de cuidar de seus frequentadores. Só se propõem a cuidar deles pela exigência de uma lei e não pelo lado humano, como deveria ser. Aqui, poucos empresários veem o lado humano do movimento eletrônico."

Como o feito que reiniciou a gestão de eventos eletrônicos e disparou o novo marco legal foi a tragédia de Time Warp, é sempre bom lembrar como os investigadores judiciais caracterizaram a realização desse evento: “uma jogada empresária” que fez do festival uma “zona liberada para a venda de drogas como veículo para vender água a 100 pesos (mais ou menos 15 reais) a garrafa”. As opiniões do fiscal Delgado e sua equipe são contundentes para reforçá-lo: não só venderam 7 mil entradas a mais que o permitido, como a ganância da superlotação ainda contou com a venda caríssima de água mineral.

Devido à sua experiência como gestor de datas em espaços fechados, Silva insistiu: “Claramente, em eventos massivos se deveria trabalhar mais com a informação, mas não como uma obrigação, e sim como algo que partisse da organização, já que estamos falando de algo tão importante como o cuidado com pessoas e sua saúde."

A respeito dos cuidados, na AGC eles apontaram que a partir da lei nova “se capacitarão pessoas para que trabalhem como ‘promotores da saúde’ nesses eventos. Elas farão um curso, receberão um registro público de promotores capacitados no prazo de dois anos pela Cruz Roja (a Cruz Vermelha), e a Defensoria do Povo e os organizadores devem, por lei, contratá-los para que estejam presentes durante os eventos."

Essa medida é suficiente como política de redução de danos, levando em conta antecedentes como o do Time Warp? “Essa não é uma questão que cabe à Agência de Controle”, responderam.

O Noisey tentou fazer contato com grandes produtoras, mas seus representantes alegaram estar “de férias” ou acabaram não respondendo as perguntas que se comprometeram a responder.

PAF! e redução de danos

Em contraponto, Silva ressalta o trabalho dos voluntários do Projeto de Atenção em Festas (PAF!). Se trata de um grupo de cidadãos capacitados por ONGs e pelo Estado Nacional que vai aos eventos e — sem substituir o trabalho dos médicos — oferece suporte e contenção para quem tenha tomado algo e não esteja se sentindo bem. O Under Club foi um dos primeiros espaços a recebê-los.

Silva explica: “Para nossa família, é muito importante cuidar de cada pessoa. Não porque são 'clientes', e sim porque fora do nosso club eles têm uma vida. Por isso sempre proporcionamos em nosso espaço uma mensagem informativa e positiva. Sabemos que o governo se recusa a aceitar esse ponto de vista porque tem uma maior tendência à proibição, mas nosso caminho foi e será a informação. Para que cada um possa decidir livremente sobre seu bem-estar com uma base de conhecimento sobre os riscos que assumem ao consumir alguma substância."

Do lado da sociedade civil, Tomás Pérez Ponisio, coordenador da PAF! argumenta: “Isso de imaginar um mundo sem drogas é uma utopia que a maioria dos governos do mundo persegue e cujas políticas de proibição não geraram resultados positivos. Tendo em vista que muitas pessoas decidem usar drogas, nós providenciamos informação e acompanhamento. Se a pessoa decide consumir algo, nosso objetivo é minimizar os eventuais riscos. No caso do Time Warp, onde se apresentou uma série de condições que acabaram muito mal, acreditamos que talvez se alguma daquelas pessoas tivesse a informação que necessitava sobre os efeitos das substâncias, no lugar em que estava, poderia não ter misturado ou consumido drogas. O Time Warp viabilizou a falta de informação no geral."

Sobre o que sucede quando participam de eventos, Tomás comenta: “As pessoas se surpreendem positivamente por não sofrerem preconceito nem nada do tipo. Nos damos conta de que existe a necessidade de informação porque vemos que eles tem dúvidas sobre a mistura de substâncias e nos dizem que se não estivéssemos lá não contariam com o pessoal da segurança porque não se sentiriam acolhidos por eles. Inclusive houve quem nos dissesse que não se dirigiu a um médico por medo de ser julgado. Nos veem como parceiros. E nós somos. Se alguém vem e desmaia vamos chamar um médico imediatamente. Mas se alguém nos consulta sobre substâncias, vamos passar a informação para que não chegue a se sentir mal."

O Estado pode atender e entender a realidade das pessoas que usam drogas? “Tomara que possa haver um avanço nesse sentido", insiste Tomás. "Entendo que o Estado argentino e o da cidade de Buenos Aires entram em uma contradição porque legalmente as drogas estão proibidas e a redução de danos os confrontaria se aceitassem que as pessoas consomem, mas essas políticas funcionam em muitos países. Isso sim, em quase todos os casos de tratam de projetos que surgiram na sociedade civil. Através da gente."

Esta matéria foi originalmente publicada no NOISEY ES.

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