A youtuber que comanda uma seita suicida internacional

Conheça Teal Swan, uma youtuber que prova que vender a salvação para pessoas desesperadas é um oportunismo que não distingue gêneros.

por Sarah Berman; Traduzido por Marina Schnoor
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ago 7 2018, 10:00am

Teal Swan, imagem cortesia Youtube.

“É sempre um cara escroto.”

Como alguém que escreve muito sobre seitas (desculpa, gente!), esse é um sentimento que tenho escutado muito ultimamente. De cabeça, quase ninguém consegue pensar numa seita liderada por uma mulher (Ma Anand Sheela não conta), mas a maioria consegue facilmente listar um punhado de homens narcisistas que juntaram uma caralhada de seguidores. Alguns imaginam se é preciso um tipo especialmente maligno de masculinidade tóxica para alguém se declarar um profeta/guru/curandeiro e explorar seguidores vulneráveis para seus propósitos bizarros.

Acontece que não são só caras que fazem isso. A pesquisadora de seitas e professora da Universidade do Estado da Califórnia Janja Lalich me garantiu que há muitas mulheres líderes de seitas, algumas bastante destrutivas. Uma guru espiritual new age chamada Teal Swan desencadeou um debate particularmente acirrado depois que um de seus ex-estudantes cometeu suicídio. Swan diz ter poderes super-sensoriais, ser capaz de ver o que acontece dentro do corpo das pessoas e ajudar a recuperar memórias reprimidas de traumas da infância. Ela recentemente foi o tema de um podcast em seis partes do Gizmodo chamado The Gateway.

Apesar de Swan negar alegações de que comanda uma seita, sua influência nas redes sociais e práticas polêmicas em torno de depressão e suicídio – às vezes encorajando seus estudantes a imaginar sua morte em detalhes – a colocaram no lado perigoso do radar de seitas de Lalich. E com quase meio milhão de seguidores em seu canal no YouTube e centenas de vídeos sobre assuntos que vão de cuidados de pele, relacionamentos e até criptomoedas, Swan não se encaixa imediatamente no perfil (datado) de líder de seita. No passado, gurus mulheres como Elizabeth Clare Prophet e Judy Zebra Knight viraram manchetes construindo abrigos pro fim do mundo e dizendo que canalizavam espíritos antigos, mas Teal Swan traz um novo tipo de conhecimento do século 21 da internet, que usa o YouTube e SEO para encontrar pessoas desesperadas.

Para melhor entender como uma seita atual comandada por uma mulher funciona, liguei pro repórter do Gizmodo Jennings Brown, que visitou o retiro de Teal Swan na Costa Rica. Brown tenta evitar o rótulo de seita nas notícias que cobre, e reconhece que Swan atende a uma necessidade de diálogo sem culpa sobre assuntos tabus como abuso sexual infantil e idealização de suicídio. Mas ele também se preocupa com pessoas que devotam suas vidas à “marca sombria de espiritualidade” dela, sem supervisão profissional ou responsabilidade da parte de Swan.

“Quando ela finalmente chega, é sempre de forma muito teatral”, lembra Brown sobre seu primeiro encontro cara a cara com ela na Costa Rica, onde os estudantes pagam mais de $2 mil para trabalhar com Swan. “Ela desce por uma escadaria de pedra, com dois seguidores próximos de cada lado, e ela está sempre mais alta que todos. E uma das primeiras coisas que eles fazem é uma meditação de morte, onde ela diz 'vamos todos ficar um pouco suicidas por um momento'.”

Brown disse a VICE que foi pego desprevenido quando Swan começou a instruir as pessoas a visualizar como acabariam com a própria vida. Mas os participantes pareciam acostumados com o exercício, já familiarizados com o estilo intenso dos vídeos de Swan. Em clipes ainda disponíveis no YouTube, ela sugere o suicídio como um botão de reset, um alívio, e que pensamentos suicidas são uma reação válida para situações ruins. Nos comentários, os espectadores expressam o medo e vergonha de querer agir sobre esses pensamentos.

Brown descobriu que a abordagem pouco convencional de Teal não se alinha com pesquisas sobre suicídio. Um novo estudo sobre contágio de suicídio divulgado recentemente descobriu que menções a métodos de suicídio na mídia aumentam as chances de suicídios subsequentes. “Isso é uma coisa importante sobre Teal, ela diz às pessoas que elas precisam decidir se vão se comprometer com a vida ou não”, ele disse a VICE. “Isso não combina com como os humanos se comportam... Os dados dizem que ninguém tem 100% de chance de se comprometer com viver ou morrer – mesmo no meio de uma tentativa de suicídio, há uma parte sua que quer viver.”

Lalich vê esse tipo de terapia dramática como um jeito de manipular pessoas vulneráveis. “Elas podem se tornar muito instáveis, e é com isso que ela conta”, ela disse. “Líderes de seitas vão sempre dizer que as pessoas precisam fazer o que chamo de 'reenquadrar sua vida'. Elas reinterpretam suas vidas para ver tudo que aconteceu antes da seita como ruim, e que só ficando ao lado do líder da seita elas podem consertar sua vida.” (Até hoje, muitos membros da “Tribo Teal” dizem que só estão vivos por causa dos ensinamentos dela.)

Brown estava curioso sobre como esses seguidores encontraram Swan, e muitos deles descreveram “um tipo de entrega cósmica”. “Eles colocaram suas intenções no universo, e os vídeos de Teal começaram a aparecer para eles”, disse Brown. Mas Swan tinha uma resposta mais direta para essa pergunta. “Ela disse que essas pessoas são basicamente o alvo dela através de SEO, e tags básicas do Google, então quando alguém procura coisas como 'Quero me matar', a pessoa encontra os vídeos dela.”

Teal Swan não respondeu os pedidos da VICE para comentar a matéria, mas consegui algumas respostas de um representante do Google sobre como eles lidam com buscas relacionadas a suicídio. O gigante da tecnologia não completa frases em buscas que indicam autoflagelação, e dá uma “caixa de resultados” no topo com números de telefone de organizações de confiança de cada país. Mas com títulos diretos como “Quero me Matar (O que Fazer se Você é Suicida)” e “O que Fazer Quando Você se Sente Desesperado”, não é difícil topar com os vídeos de Swan na busca do YouTube.

Lalich diz que vem ouvindo reclamações sobre Swan há algum tempo. “Na maioria de pessoas que se sentiram exploradas”, ela diz. “Elas querem algum tipo de validação de que estão certas sobre se sentir desse jeito sobre suas experiências.”

Mas para aqueles que dizem ter se sentido explorados, há muito mais gente do lado da guru. Como outras personalidades operando no espaço da autoajuda new age, Swan também tem muito conteúdo aparentemente benigno sobre definir objetivos, encontrar alegria e quebrar padrões destrutivos. Vídeos sobre “como ver auras”, “como ativar e abrir seu terceiro olho” ou “como usar sua intuição” e outros juntam milhões de visualizações juntos.

Quer seus seguidores aceitem ou não o rótulo de seita, Lalich diz que há mais trabalho a ser feito para expôs gurus exploradores e lutar contra o estigma de seita. “Você não vai querer chegar para alguém e dizer 'Oi, você está numa seita'. Você tem que conversar com eles com muito tato sobre o assunto”, diz Lalich. “Acho que se pudermos divulgar mais informação sobre como seitas realmente são, como elas enganam e como tiram vantagens, isso pode impedir as pessoas de ter uma reação tão negativa à palavra. Porque isso é útil para identificar o que há de errado nesses grupos.”

Brown disse que a comunidade online de Swan está mais ativa que nunca – ela continua crescendo na mesma velocidade. Ele diz que sua grande descoberta é que figuras jovens e controversas que fazem grandes promessas como Swan vão continuar encontrando um público enquanto ainda houver falhas em fontes de saúde mental. “Se você digita no Google algo sobre suicídio, provavelmente vai encontrar um número de linha de prevenção no topo, mas isso não é muito humano. É só um número”, ele disse. “Acho que precisamos de mais opções para pessoas que estão sofrendo, de outras fontes que podem ser responsabilizadas.”

Matéria originalmente publicada pela VICE Canadá.

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