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Comida

Por que comer asa de frango faz parte da cultura afro-americana

No passado, o fato de negros comerem frango foi usado para nos estereotipar e rebaixar.

por Erica Hawkins; Traduzido por Marina Schnoor
15 Janeiro 2019, 6:14pm

Imagem via Getty.

Você lembra a primeira vez que experimentou um molho picante misturado com uma porção de asinhas de frango fritas? Você pode achar que estou romantizando um prato barato que você encontra em qualquer boteco – e não se engane, amigo, estou mesmo.

Pessoalmente, não apenas amo buffalo wings, mas também sou obcecada com a cultura que comer asinhas de frango implica. “Mas asinhas de frango não implicam em cultura nenhuma”, você pode pensar. E eu respondo: “Leia tudo antes de jogar fora minha premissa, por favor”. O que quero deixar claro aqui: comer buffalo wings, e asa de frango no geral, não é só um hobby de bar, mas uma representação das crenças profundas de uma coleção de pessoas que fazem parte da cerimônia de engordurar os dedos e o coração com uma coisa que todo mundo adora: asinhas de frango.

“Sempre pensei em criar algo envolvendo frango ou churrasco, porque como homem afro-americano que tem que viver com o estereótipo de que todos os negros comem frango, por que não ter uma coisa nossa nacionalmente?"

Frango, especialmente frito, sempre teve uma história meio sórdida na cultura americana. Quando comecei a falar com amigos entusiastas de frango, os temas de esteriótipos, apropriação e relação do prato com a cultura negra surgiam mais que as preferências de molho – fosse molho mumbo de DC ou tempero de limão com pimenta de Atlanta. Alguns, como eu, sentem orgulho de comer frango sendo negro. Michael Vann, dono do Smitty & Mo's Chicken Kitchen de Nova Jersey, me disse: “Sempre pensei em criar algo envolvendo frango ou churrasco, porque como homem afro-americano que tem que viver com o estereótipo de que todos os negros comem frango, por que não ter uma coisa nossa nacionalmente? Por que o KFC e o Popeye's comandam o mercado quando nós é que temos que viver com os estereótipos?”

E esses estereótipos estão por toda parte, particularmente quando você investiga como, o quê e o porquê por trás da história de criação das buffalo wings. Em 1980, Calvin Trillin tentou compilar uma breve história das buffalo wings para a New Yorker, mas acabou com mais perguntas que respostas. Ele apontou que, segundo a maioria dos registros, Frank Bellissimo, fundador do Anchor Bar em Buffalo, Nova York, inventou as buffalo wings em 1964. Como contava Bellissimo, ele criou a receita por necessidade, depois de receber uma entrega de asas de frango em vez de outras partes que tinha encomendado. Mas essa história é desafiada por pelo menos duas pessoas: a esposa de Bellissimo, Teressa, e o filho deles. A versão da história das asinhas picantes deles diz que Teressa salvou o dia preparando asinhas com molho para fregueses do fim de noite da taverna familiar. Assim como o melhor molho de buffalo wings, o enredo fica mais espesso.

É importante notar que aqueles que compartilham coletivamente as crenças, comportamentos e ingestão de temperos que formam a cultura das buffalo wings inclui, mas não se limita, a millennials sensíveis a glúten como eu ou donos de restaurante com uma missão, mas também celebridades que podiam facilmente viver de filé mignon e lagosta diariamente, mas escolheram participar do culto às asinhas.

Quando Chrissy Teigen equilibrou um prato de asinhas no bumbum, fiquei comovida. Quando a modelo Anna Herrin usou os peitos como bandeja para comer suas asinhas, fiquei fascinada. Mas por que a realeza das celebridades participa dos prazeres da plebe? Uma teoria é que elas simplesmente curtem asinha de frango. Outra teoria (talvez mais apropriada) é que isso permite que elas ajam como o meme “celebridades são gente como a gente!”

Comer asinhas de frango normaliza celebridades, dando a elas um ar de acessibilidade que refeições preparadas por um chef não conseguiriam. Asinhas de frango fritas são o grande equalizador? Talvez. Celebridades estão conscientemente se apropriando da cultura normie? Quase com certeza. Elas levam isso longe demais, como quando o BFF da Kim Kardashian, Jonathan Cheban, fez buffalo wings cobertas com ouro 24 quilates e vendeu o prato por $1 mil, nos lembrando que nem tudo é pela cultura? Sim.

Falando sobre a cultura, no final daquela matéria para a The New Yorker, Trillin encontrou um homem chamado John Young que garantiu que ele era o verdadeiro inventor das buffalo wings. Young, um homem negro que abriu um restaurante em Buffalo, o John Young's Wings 'n Things, no meio dos anos 60, disse a Trillin que ele tinha criado o “molho mambo” na época, e que comer asinhas de frango não era nada novo para os negros.

Então por que sou pessoalmente obcecada por buffalo wings? Primeiro, é o som da fritura que lembra minha mãe fazendo frango numa panela de ferro enquanto eu observava, salivando e esperando impacientemente para experimentar – e minha urgência geralmente resultando numa língua queimada. Segundo, a memória das promoções de porção de asinha que me sustentaram na faculdade, um ritual de quarta-feira regado a cerveja igualmente barata depois da – ou às vezes matando – aula. Terceiro, é o jeito necessariamente nada refinado de consumi-las. Mas minha razão favorita para comer buffalo wings com orgulho é saber que, com cada mordida saborosa e saturada, abraço um ato que no passado foi usado para estereotipar e rebaixar pessoas negras como eu.

Essas memórias, comportamentos e experiências gerais são parte da experiência afro-americana. Psyche Williams-Forson, presidente de Estudos Americanos da Universidade de Maryland, escreveu sobre experiências similares em seu livro Cooking Lessons: The Politics of Gender and Food:

“Minha mãe sempre dizia: 'domingo não é a mesma coisa sem frango. Você precisa de um prato a que possa voltar depois'. Geralmente, muito depois que os pratos já tinham sido lavados, alguém estava na cozinha colocando uma coxa ou asa de frango num pão, juntando molho picante, e acompanhando o lanche com chá gelado ou Coca-Cola. No confinamento do espaço seguro de casa, todos os estereótipos sobre pessoas negras e frango eram esquecidos.”

Williams-Forson também toca nas contradições encaradas quando investiga as suposições historicamente racistas feitas entre afro-americanos e consumo de frango como parte de uma cultura maior, especificamente envolvendo frango frito: “...essa narrativa e os estereótipos que a acompanham produziram uma resposta paradoxal de muitos brancos. Por um lado, eles não podem atribuir o consumo negro de frango frito como normativo; por outro, eles querem igualar esse consumo com algo negativo. No entanto, a questão se torna mais complexa quando frango frito – um dos pratos mais marcantes do Sul – é listado entre as contribuições dos negros. A questão aqui é como difamar os negros e seu consumo de frango frito sem dar crédito a eles por contribuir com o método de fritura para a Nova Cozinha Mundial”.

Como Young explicou a Trillin, o ato de comer frango tem um fio histórico quando se trata dos negros americanos. Num artigo do NPR de 2013, Gene Demby entrevistou Claire Schmidt, professora da Universidade do Missouri, que rastreou a primeira interação do estereótipo ao filme da KKK de 1915 Nascimento de uma Nação, especialmente uma cena onde um legislador negro – um dos muitos mostrados se comportando mal numa prefeitura – é retratado comendo frango frito. Schmidt explica que, assim como a melancia, o jeito como o frango é consumido faz um comentário sobre política de respeitabilidade. “É uma comida que você come com as mãos, portanto é suja”, Schmidt disse a Demby, continuando, “Etiqueta à mesa é um jeito de determinar quem é digno de respeito ou não”.

Williams-Forson compartilha o sentimento de Schmidt, dizendo que “Há uma longa história de afro-americanos sendo estereotipados envolvendo frango. Sim, todo mundo come frango. Sim, todo mundo gosta. Mas afro-americanos têm uma relação historicamente diferente com isso”. Williams-Forson continuou listando as representações da mídia com as quais ela cruzou ligando afro-americanos a frango: cartões de Natal, arte, saleiros e pimenteiros, propagandas e até estatutos legais. Ela continuou: “como a romancista nigeriana [Chimamanda Adichie] diz, se você mostra para as pessoas uma história em particular por muito tempo, elas começam a acreditar, e a sociedade também”.

Enquanto termino este texto num bar local que decidi escolher como meu escritório por hoje, com os dedos ainda engordurados com as asinhas que acabei de comer como parte da minha abordagem cerimonial para a prosa, me refestelo com a rebelião oferecida pelo consumo de buffalo wings. Porque, apesar de sua história complicada, tons raciais, e estar acostumada com os golpes das celebridades, e do prato muitas vezes me deixar com os olhos marejados, sempre serei uma forte defensora da cultura das buffalo wings e tudo que ela representa.

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