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Esse cientista está deixando um berne crescer nele prum rito de passagem

“É meio estranho, você consegue sentir ele se mexendo, então brinco com a minha esposa que 'está chutando', como se fosse um bebê dentro de mim.”

por Mack Lamoureux; Traduzido por Marina Schnoor
26 Março 2019, 10:00am

As costas e o berne. Fotos via Phil Torres. 

Para a maioria, ter uma larva enterrada nas suas costas não seria motivo pra comemorar.

Mas a maioria das pessoas não é entomologista (pessoas que estudam insetos), e aparentemente, alguns entomologistas adoram essa parada. Segundo Phil Torres, um biólogo tropical e entomologista, esse é um rito de passagem para aqueles que estudam insetos.

Vamos ter que aceitar a palavra dele aqui – é ele que está deixando uma mosca-berneira (uma mosca parasita que planta seus rebentos na doce carne humana) lentamente comer o interior de suas costas.

“Conheço alguns entomologistas mais velhos que fizeram exatamente isso, e eles me contavam histórias quando eu ainda era universitário sobre a vez que pegaram um berne e esperaram para ver quanto tempo aguentavam ficar com ele”, Torres disse a VICE. “Você pode dizer que é tipo um rito de passagem.”

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Torres disse que deve ter sido picado pelo inseto no começo de março – alguns dias depois de seu aniversário de 33 anos. Faz sentido que ele tenha uma pequena criatura de pesadelo nas costas, o cara passa muito tempo na floresta tropical. Ele morou dois anos na Amazônia, onde trabalhou com pesquisa e conservação – e fez algumas descobertas importantes – e já trabalhou em vários programas educativos para a televisão. Seu projeto atual é o canal do YouTube The Jungle Diaries, e ele planeja fazer um vídeo da sua experiência com o berne.

Depois de todo esse tempo na floresta, é a primeira vez que ele pegou um berne – algo na verdade bem raro, então não precisa cancelar sua viagem para a Amazônia por causa dessa história. E ele está curtindo.

Depois que percebeu que não era “uma espinha estranha”, ele escreveu um tuíte empolgado sobre a descoberta e, como ele diz, recebeu “muitos tuítes de colegas entomologista dizendo que estavam com inveja”. E não é mentira, uma pessoa tuitou o parabenizando e perguntando quando era “o chá de bebê”. Outro respondeu “estou tentando pegar um há anos”, e outro ainda disse “que sorte!!! Quero um faz dez anos!”

Decidi ligar para Torres perguntando o que diabos rola na comunidade de entomologia, como é ter uma pequena criatura devorando lentamente suas costas, e se ele pretende levar essa história até o fim.

VICE: Então... para começar, o que é uma mosca-berneira?

Phil Torres: A mosca-berneira [Dermatobia hominis] é um inseto grande que tem uma história natural muito interessante. Temos uma versão nos EUA que é igualmente nojenta – mas essa espécie geralmente não afeta humanos. Nos Trópicos você tem a mosca-berneira, e lá é algo que você vê muito trabalhando com macacos. Às vezes os macacos têm essas pústulas vulcânicas na pele, é geralmente aí que elas são encontradas, mas humanos podem pegar também.

Bom, agora que sabemos um pouco mais sobre a mosca-berneira, você pode dizer como acabou com uma? Acho que você usou o termo “o bebê nas suas costas”?

A mosca-berneira é interessante porque a criatura não tende a botar ovos em pessoas, a mãe na verdade pega um mosquito fêmea, prende e bota os ovos no mosquito. Agora, um desses mosquitos pousou nas minhas costas e o calor da minha pele fez os ovos chocarem, e as larvas rastejaram pela minha pele, algo em torno de uma dezena, tentando encontrar um ponto de entrada. Parece que uma delas encontrou o buraco da picada do mosquito.

Aí a larva se enterrou nele e começou a comer. Foi assim que acabei com um berne. Não é segredo que entomologistas procuram oportunidades para ter um berne. Vemos isso quase como uma medalha de honra. No mundo dos trópicos há duas conquistas assim: ser picado por uma formiga-cabo-verde e outra é pegar um berne. Consegui a picada da formiga alguns anos atrás. É a picada mais dolorosa do mundo, dói demais e é uma experiência interessante – você pode aprender mais sobre a natureza que estuda de modo muito íntimo, por assim dizer. Mas sempre imaginei como seria ter um berne. Eu, claro, esperava pegar um no braço, um lugar mais conveniente para observar, mas esse berne está perto do ombro nas minhas costas, então é mais difícil olhar, mas já arranjei um tripé e uma câmera para documentá-lo.

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Um berne (tipo o que está nas costas do Phil). Foto via Wikimedia Commons.

Espero ficar com ele pelo tempo que puder. Já ouvi que é mais fácil falar que fazer, porque pode ficar bem doloroso, dar pontadas. Umas duas ou três vezes por dia parece que você está sendo picado por uma abelha. A dor dura um minuto. É meio estranho, você consegue sentir ele se mexendo, então brinco com a minha esposa que “está chutando”, como se fosse um bebê dentro de mim.

Meu deus.

É! Ele se mexe. Vendo fotos da larva, ela tem uns espinhos nas costas. Então esse é o problema, não dá pra puxar porque a larva crava esses espinhos na carne. Então quando ela se move, esses espinhos meio que puxam seus nervos. É bem doloroso às vezes.

Bom, não vou dizer que entendo totalmente essa ideia, mas, como você disse, é tipo uma medalha de honra? Tipo quando você faz uma viagem muito louca nas férias e volta com uma tatuagem ou algo assim?

Exato! Tipo isso. Como entomologistas que passam muito tempo nos Trópicos e acabam pegando um berne. Então quando vê alguém com um berne, você pensa, tipo, “respeito”. Isso significa que a pessoa passou anos na floresta, e fez coisas loucas o suficiente para acabar numa área onde você pode pegar um berne. É quase inédito alguém pegar na primeira viagem. É possível, mas geralmente você precisa de muito tempo para que um mosquito aleatório bote seus ovos em você e a larva consiga entrar.

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Nojento, mas uma parte primitiva de mim entende.

Né? Minha mulher não aguenta mais porque toda vez que falo disso, fico sorrindo, não consigo evitar. É emocionante! É uma experiência muito interessante que posso ter com os animais que estudo. É muito legal ter essa coisa dos trópicos nas minhas costas enquanto ando pelo Brooklyn.

O ideal seria deixar ele crescer até sair sozinho. Umas quatro ou cinco semanas para ele amadurecer o suficiente para a larva ter que pupar – como a borboleta precisa de uma crisálida. O berne não faz isso dentro de você. O que ele faz é sair e cavar o chão para fazer a pupa ali. Vai doer pacas quando ele estiver saindo, então vou saber que está acontecendo e espero pegá-lo, colocar na terra e esperar o bebê se tornar um adulto.

Você já teve insetos antes? E se sim, você acha que terá uma conexão mais forte com esse? Tipo, você vai olhar pra ele é pensar “isso saiu de mim”?

Sim, claro. Crio insetos desde que era criança, besouros, borboletas. Tive uma tarântula de estimação. Mas isso aqui é diferente. Eu estava falando com uma grávida e consegui fazer ela concordar que estou passando por 0,1% do que uma mulher passa para ter um filho; tipo, eu disse “escuta, sinto ele chutando às vezes, ele reage a diferentes atividades que estou fazendo, ele é literalmente feito da minha carne e sangue” e ela disse “OK, te dou essa pequena porcentagem”. Sei que isso é questionável, mas essa é a única vez que eu, como homem, posso experimentar algo parecido com dar à luz.

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Tem algum efeito colateral negativo ou só a dor?

Dor é a principal. Há casos raros onde pode virar uma infecção pior. As pessoas dizem que têm dificuldade para dormir, então pode acabar sendo um desafio psicológico tanto quanto um desafio de dor, se eu não conseguir dormir e o berne me incomodar constantemente. Estou sendo cuidadoso. Se parecer que está infeccionando ou piorando, vou até o dermatologista da minha rua pedir para ele remover a larva cirurgicamente.

Tem muitos remédios caseiros para berne. Algumas pessoas dizem para soprar fumaça de cigarro nele, porque nicotina é um inseticida, e dizem que isso pode fazer ele sair. Algumas pessoas cobrem o buraco com vaselina ou silver tape por 24 horas, aí o bicho se agarrar nisso com os tubos esféricos por onde ele respira. Quando essa parte sai da pele, você pode pegar e tentar remover a larva. Outros remédios eu não recomendaria, tipo colocar carne no buraco. A ideia sendo que o bicho vai rastejar para a carne, mas ouvi falar de pessoas que pegaram infecção estafilocócica por colocar carne crua numa ferida.

Provavelmente vou deixar o berne sair sozinho e se ficar muito doloroso, procurar um médico para remover do jeito certo. Mas o ideal é que daqui quatro semanas eu tenha uma linda pupa de mosca-berneira na minha casa e a dor vai passar.

Você acha que moscas-berneiras são incompreendidas? Porque a maioria das pessoas vai ver isso e dizer “meu deus, queima!” Qual é sua opinião sobre a mosca-berneira?

Vejo isso como um animal fascinante, com uma história natural muito interessante. O fato dela não botar ovos em você, mas usar um mosquito e deixar o calor da pele chocar os ovos, é fascinante. Acho mesmo muito legal e é por isso que vou deixar o berne aí e fazer um vídeo sobre ele, porque quero que as pessoas conheçam essa história.

Não é como se essa coisa fosse passear pelo meu corpo e acabar no meu cérebro, como outros parasitas podem fazer. O berne fica no lugar. Quando precisa respirar, ele coloca seu respirador esférico pra fora. Tipo, quando estou tomando banho e a água passa pelo buraco, o bicho não consegue respirar, certo? É quando sinto um pouco mais de dor porque ele está colocando seu respirador pra fora.

É um animalzinho legal vivendo dentro de mim... é meu pequeno.

A entrevista foi editada para melhor entendimento.

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