Foto: Matias Maxx

A ostentação antissocial do Filipe Ret

Do Liceu às bocas de favela e seda gringa personalizada, batemos um longo e sincero papo com o rapper sobre sua história, carreira, rap, funk e pixo.

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13 Julho 2017, 7:30pm

Foto: Matias Maxx

No final do ano passado, mais precisamente naquela semana entre o Natal e o Ano Novo, quando está quente pra caralho mesmo muito depois da meia noite, tive a oportunidade de acompanhar um show do Filipe Ret numa favela do Rio de Janeiro. Subi o morro com a equipe meia hora antes do Ret; a van acelerando vagarosamente pela ladeira íngreme, com farol baixo e luz da cabine ligada, como manda o proceder nesses casos. Primeiro passamos pela UPP, abandonada, depois mais umas duas contenções do tráfico. A cada contenção, o produtor no banco do carona dá um desenrole: "Somos a equipe do Ret, ele vai tocar no baile hoje e tá vindo atrás num carro assim e assado, passa o rádio pra galera". Muitas curvas estreitas depois, chegamos no topo do morro. Desviando com muito talento das inúmeras motos, o piloto consegue encostar a van já cercada de fãs. Alguém da produção local aparece e assegura nossa saída abrindo um corredor rumo ao "camarim" do evento, uma casa exatamente do lado do palco montado numa extensa rua com paredões de equipes de som e um mar de gente a perder de vista. Mesmo sem sinal do Ret por perto os fãs continuam exaltados, amontoados em frente à entrada da casa.

Finalmente o Ret chega. Ele tem de ser escoltado da van por um bondezinho armado, mas, ainda assim, os fãs empurravam e tentavam falar com ele. A casa era bem maneira e o Ret pediu logo pra ver a laje, que tinha uma vista foda e onde eu fiz umas fotos dele gastando puxando uns ferros largados por lá. Daí sem enrolar muito, desce, faz umas fotos com a rapaziada, entorna um uísque e ruma ao placo. DJ Mãolee desce a mão na MPC uma montagem que diz "Filipe Ret" e "Ret é Ret né pai", uma queima de fogos monstra saúda o rapper e dura até o início da segunda música. A galera vai ao delírio.

Após o show, Ret é escoltado até uma quadra atrás do palco, de onde tinham sido disparados os fogos. A molecada, a maioria meninas, corre pra cima dele, estilo beatlemania, e o bonde pesado novamente é empregado para conter a galera e tentar organizar uma fila para que os fãs possam entrar na quadra para tirar selfies com o Ret.

Foto: Matias Maxx

Depois dessa fabulosa experiência bem louca de show e meet & greet na favela, marquei uma ideia com o mano num famoso bar na praia do Flamengo, no bairro do Catete. Com várias músicas do seu próximo disco já na pós-produção, Ret tirou o ano de 2017 para se dedicar à sua agenda de shows (tem mais detalhes sobre os próximos no fim da matéria) e lançar clipes. O próximo, para a faixa "Chefe do Crime Perfeito", deve sair nas próximas semanas, segundo ele. Seu sucesso foi reconhecido pela prestigiada marca de seda norte-americana Raw, que lança agora em julho uma edição especial da seda estampada com fotos do Filipe, que torna-se o segundo rapper a estampar uma edição da seda (o primeiro foi o californiano Wiz Khalifa).

Leia abaixo o longo e sincero papo que tive com o Ret. Ret é Ret né pai?

NOISEY: Então, no TTK , "ret" é gíria pra beck (corruptela de cigarrete) mas eu tô ligado que tu nem é tão maconheiro assim, então explica essa porra...
Filipe Ret: (Risos) Então, quando eu era moleque eu tinha cara de rato, tenho até hoje um pouco. Quando comecei a pixar pensei em assinar "Rat", roedor, que nem em "Rat Race" do Bob Marley, mas aí já tinha o "LET", que é um cara que até já morreu, ele era do AR, "Amantes do Rabisco" e da LM, "Largados no Mundo", e era um pichador pica, a letra dele era pica, e eu queria imitar, tinha onze anos. Então pensei Rat não, vai ser Ret. Só foi do A pro E por causa do Let. Ele morreu. Pra tu ter uma ideia, eu comecei a gostar de Planet Hemp através de um amigo nerd porque eu vi que no encarte tinha uma foto com uma pichação do Let. Ele teve uma influência gigante na minha vida, e nem sabe. Eu nem tive a oportunidade de conhecê-lo. O Jason, que me botou na FR, "Filhos da Rebeldia", a sigla mais respeitada no Rio de Janeiro, é um dos caras mais relíquias. O Let uma vez foi na praça do Catete, o Jason estava lá e pediu, "cara, faz uma folha pra um amigo meu que é teu fanzão", e era eu. Ele mandou a folha, Let para Ret. Até hoje eu tenho essa folha guardada. Eu era maluco por essas porras, colecionava folha de xarpi, ia pra reunião. Isso também é algo que faz parte aqui da história da área. Porra, eu só respeitei e parei pra ouvir o CD do Planet porque tinha o nome do Let, aí fudeu, minha cabeça mudou. Foi quando meu pai finalmente disse "até que enfim tu tá ouvindo algo que tem musicalidade", porque até então eu só ouvia funk.

Então seu apelido não tem nada a ver com maconha?
Porra, eu demorei a descobrir que ret era gíria pra maconha. Tem essa história, eu tava curtindo aquela praia, namorando uma gatinha que eu nem transava, aquela coisa de pré-adolescente que perdeu a virgindade tarde (risos). Era difícil comer alguém naquela época. Como é banal hoje, né? Mas então, aí eu lembro que eu tava lá namorando e veio esse cara quebrando o clima e perguntando se eu tinha um "ret", e eu "que porra é essa?". Porra, imagina tu tá lá e chega um cara perguntando se tu tem um "Matias"? (risos)

Foto: Matias Maxx

Você lembra da primeira vez em que você foi a um baile funk?
Se não me engano, foi no baile do morro dos Prazeres. Eu era muito novo, fui criado ali na subida do Santo Amaro mas eu não tinha acesso, minha mãe falava que a favela era perigosa e o asfalto também, então eu só ficava por ali mesmo, entre a favela e o asfalto. Mas eu só comecei a fumar maconha e fazer merda quando vim morar no asfalto. Até então era a galera mais pureza mesmo. Mas eu lembro que o primeiro baile que eu fui antes de baile de morro foi em baile de porrada, o Chaparral na Brasil, perto da Nova Holanda, e me impressionou pra caralho. Me impressionou mais o baile de briga do que o baile dos prazeres. No Chaparral o paredão de som era muito grande, o grave batia legal, machucava mesmo, muito doido. O Zezinho, quando ele era vivo, ficava no meio, puxava o bonde, passava no meio do corredor, daí quando começava a tocar "Carmina Murana", e a luz em cima dele... Eu lembro muito bem dessa cena, pra mim foi muito marcante. Eu nem brigava, ficava lá atrás, até porque não tinha nem carcaça pra isso. Mas me seduzia o jogo do baile de briga acontecendo ali. O Aron aqui do Catete era vivo, ele era a criança que foi trocada na novela Barriga de Aluguel na Globo. Ele era super amigo do meu irmão, frequentava lá em casa, a mãe dele é professora, minha mãe também. Ele gostava de música eletrônica e foi ele quem me apresentou o primeiro sampler, ele soltava o voltmix e a gente ficava recriando as montagens. Então eu sempre senti essa propriedade do funk em mim, acho que talvez eu acabei passando isso nas letras e nas melodias.

Hoje você tem um estilo bem próprio, melódico, não é apenas rap, mas também não é exatamente funk. Como você foi desenvolvendo isso?
Cara, eu acho que no final das contas eu sempre quis ser frontman de uma banda, talvez até de rock, tá ligado? Mas eu não tinha contato com esse mundo, não tinha contato com gente que tinha guitarra, o mundo de estúdio, então a primeira vez que eu gravei foi na Fábrica de Funk que era um estúdio que gravava vários MCs. Primeiro rap que eu gravei foi ali, e eu vi que era possível gravar uma parada dando um papo, expressando e principalmente barato. Até hoje é um pouco difícil arrumar uma banda, e na época eu não tinha acesso nenhum. Então intuitivamente eu queria ser o frontman de uma banda de rock, mas o rap me pareceu mais possível e acessível e o funk é a cultura daqui. Minha mãe ouvia MPB, meu pai gostava de rock, Paralamas, Titãs, Legião Urbana.

"Eu queria ser o frontman de uma banda de rock, mas o rap pareceu mais possível e acessível, e o funk é a cultura daqui."

E tu quando era moleque o que que tu ouvia, além de funk?
Pagode pra caralho! Eu lembro de estar indo pra Penha, na época em que meu irmão namorava uma menina de lá, hoje ele é casado com ela e mora lá. Ele batucando no banco de trás do ônibus e eu cantando Soweto, Belo, meio que imitando a voz dele, e a trocadora falando, "Nossa, você canta muito bem". Até hoje eu me apoio nesse elogio, tá ligado? (risos) A tiazinha falou isso com uma certeza grande. Ainda hoje às vezes eu imito a voz do Belo, ele é uma referência pra mim. Na rua eu gostava de ouvir proibidão, montagem. Eu parava na Praça do Catete e os moleques me chamavam como referência "Aí, como era aquela lá do morro do não sei o que?", "Aquela do lado A da casa do caralho?", eu sabia e cantava. Eu gravava os programas de rádio no K7, colocava adesivo na fitinha pra poder gravar, lembra disso? Eu tinha pilhas, dezenas de fitas, então eu era uma enciclopédia de proibidão e música de baile de porrada. Eu tenho muita influência do proibidão, do rap de montagem. "A gente é pica, vamos quebrar vocês"; "A maconha que a gente vende aqui é melhor"; "Aqui no morro tal tá pesadão". Eu nasci ouvindo essa porra e até hoje eu ouço, e me sinto mais isso aí do que do rap, tá ligado?

Você acompanha o funk de São Paulo? O que você acha?
Cara, não. Hoje em dia eu mal acompanho o do Rio. Mas acho que hoje pulverizou, o mundo líquido. Eu passo no Catete hoje e não vejo mais os moleques parados na rua, a galera não para mais pra conversar na rua, a galera faz grupo no WhatsApp, não vai pra rua.

Nem mesmo pra caçar Pokemon...
É, passou a onda... Então as paradas ficaram meio doidas. Mas eu não acompanho não, mas sei que lá é a febre. São Paulo se apropriou do funk e vendeu funk pra caralho, assim como eu acho que o Rio de Janeiro se apropriou do rap e vendeu rap pra caralho! E eu acho que o Rio de Janeiro ter se apropriado um pouco do rap machucou um pouco São Paulo, e São Paulo ter se apropriado um pouco do funk do Rio de Janeiro não deu em nada, porque o funk não liga pra isso, mas os caras de SP tem essa parada do rap. Mas, no geral, quem movimentou a nova cena de rap é a galera carioca que começou a falar da forma que quis sobre a porra toda, mais experimental até.

Eu acho que quem começou isso foi aquela geração 90/2000, que começa com o D2 e passa pelo Marechal, que veio com um discurso novo, porque em Sampa na época era ou falar só de crime, ou aquela coisa de pregação, redenção.
Sim, era bem catequizador.

E veio essa galera falando de maconha, de sexo, zoação... Tinha o rap nerd do Inumanos.
Acho genial o Inumanos. Mas o que eu acho, sobre o funk, a lírica do proibidão é muito carioca. "Fumar um, fuma dois, não deixa a erva pra depois, porque no morro do Turano tem maconha até de dois". Na época isso era uma coisa muito grande no Rio de Janeiro, acho que todo mundo da minha época lembra. Mas é aquilo, tudo muda, tudo recicla, os caras hoje me vêem como uma continuação desse rap meio funk, porque na verdade rap pra mim é o "Rap do Silva", "Rap da Felicidade", tá ligado? Não é necessariamente Racionais. É sempre uma coisinha que você rima, tem o refrão e rima depois. Rap é isso, não tem que necessariamente ter um engajamento com o hip hop, é um gênero que se você fazer uma rima 4x4 minimamente cadenciada... Se tu pegar o Funk Brasil vol. 1 e Funk Brasil vol. 2, tu vai ver que lá é tudo rap disso, rap daquilo, então o nosso primeiro acesso ao rap foi o funk. Nossa cabeça foi configurada de outra forma que o da galera de São Paulo. E aquela história, praiano... Eu fui criado na subida do Santo Amaro, a três quarteirões tem uma praia.

O Brejão.
É tem o Brejão mané, talvez a praia mais bonita do Rio, linda. Então a gente tem uma parada diferente. É igual nos EUA, West Side, Los Angeles, os caras falam mais de crime, mulher, é menos engajamento político talvez. Eu sinto que no Rio tem menos engajamento também, mas é da natureza, geografia. A geografia determina tudo, queira ou não. Porra, tou de bermuda e camiseta, qual rapper vai estar neste momento de bermuda e camiseta. Eu adoro fazer show de bermuda, adoro andar de camelinho. Estilo carioca mesmo.

O Rio tem essa geografia única de praia e montanha, além da geografia social da favela estar a três quarteirões da praia, da riqueza.
Eu tive uma criação de classe média, se eu tivesse em outra cidade, eu ia ter outra visão de mundo. Mas o meu classe média foi com uma convivência de uma galera da favela também, uma galera que sempre teve essa malandragem, que hoje eu tento olhar mais de fora, porque eu sempre tive tão dentro que eu não via assim. Hoje eu consigo me afastar um pouquinho pra entender o quão carioca é isso daqui. É até limitado às vezes.

Aqui as vezes você tem um amigo na favela e um super playboy e todo mundo mora no mesmo bairro. Em qualquer outro lugar você tem um bairro rico, um bairro de classe média e a periferia lá na casa do caralho, três baldeações depois.
Exatamente. Eu achava que isso era comum, mas é só aqui. Especialmente nessa parte da Zona Sul do Catete, Glória.... O Cartola nasceu aqui, ele teve uma criação de classe média, só que o pai dele se fudeu, ai na adolescência dele ele foi morar na Mangueira, mas ele era mais letrado e mais lírico pela formação dele. Eu a mesma coisa; tive uma formação bacana, me formei em jornalismo, estudei no franco-brasileiro, porque minha mãe é professora lá. Era bolsista né, estudei até a sétima série lá. Sempre fui bem limitado com os estudos, tirava dois, três, tinha auto estima meio abalada, ai estudava com minha mãe. O lance dela ser professora é algo muito forte em mim. Sou teimoso e esforçado pra caralho, mas nunca passei direto. Meu irmão mais velho já passava direto, e ele foi muito importante para mim. Ele me fazia andar com os caras mais velhos também. Quando você é um pouquinho mais novo que seu irmão mais velho é bom, tu ganha uma referência.

Outro dia eu tava conversando com umas amigas lá do Cantagalo, elas te amam (risos). Foram no seu show lá, daí comentei do rolê contigo na favela e foi curioso porque as pessoas têm uma visão diferente. Uma mina falou pra outra, "Ele é foda, era bandido e largou pra ser músico". Sei lá, acho que elas interpretam as letras de um jeito, e começam a criar uma fantasia.
Cara, mente bandida eu tenho com certeza, tá ligado? Com certeza irmão! (risos) Eu já fiz merda? Com certeza! Mas esse lance de "era bandido e virou do rap", não é bem assim, mas a mentalidade bandida eu sempre tive desde criança. Eu fazia uns desenhos quando era moleque e sempre era um moleque com uma galera em volta e esse moleque tinha um boné, um cordãozão e um baseado na mão. Se tu ver os meus desenhos, é até emocionante, é quase profético. Eu não tinha muita referência pra desenhar aquilo, eu não sei de onde vinha. Engraçado que em vários desenhos tinha gente com arma também, ai minha mãe ficava "Porque você desenha isso, onde você tá vendo isso?", "Mãe, se eu tirar o baseado da boca, se eu tirar o boné dele, tirar o cordão dele, botar ele sorrindo, perde a graça pra mim". Então sempre catequizei pro caos. Sempre tive essa visão meio marginal.

Meio marginal, revolucionário, delinquente juvenil, Revel.
É, eu tenho essa parada até hoje de eu ir no cinema e perguntarem se eu sou maior, e eu tenho 31 anos. Mas acho que eu tenho um formato de rosto de criança, não tenho barba, então transmite isso, um personagem que não envelheceu. E é exatamente o personagem que eu sempre desenhei, isso é uma maluquice. Então toda letra tem uma realidade e um pouco de ficção. Agora eu nem sei o que essa persona quer transmitir no final de tudo, mas eu sei que é alguma coisa muito próxima do sentimento que eu tinha quando desenhava esse bonequinho.

E como rolou essa fita do TH, de fazer aquela rima, você já conhecia ele?
Acho que foi uma feliz coincidência, o Revel tem mais influência de funk que os meus outros discos. Pô, começa com Cidinho. E assim que eu lancei disco, o TH explodiu com "Vidro Fumê", que e é irada, tem sampler de Red Hot Chili Peppers. E eu nem conhecia ele, ele botou porque curtia o som, ele diz "ouvindo Filipe Ret" de um jeito que "Filipe Ret" vira uma referência de tiração de onda, isso é ótimo, adorei essa imagem. Às vezes é difícil sair dela. Você tá lá fudido, tranquilão, sem camisa na esquina, e a rua cobra. Na hora do show eu me monto, coloco os cordões, mas no dia a dia eu ando mais leve. Mas é interessante, ele mostrou como se fosse isso, como se Filipe Ret fosse esse tirador de onda do Rio que cantasse rap. Achei genial.

E o sucesso desse som ajudou você a chegar mais na favela?
Com certeza, essa música do TH me projetou mais. Até chamei ele pra gravar uma música comigo. Ele é sangue bom, guerreirão. Viver de música é foda, brother, não pode achar que tudo é pra sempre, entendeu? Aproveita que tá vindo peixe e pegar peixe MESMO, economizar dinheiro... não dá pra saber o dia de amanhã. É aquilo, todo mundo dizendo que tu é foda, você vive muito essa maluquice. É muito fácil se perder em tudo, mulher, droga, ainda mais hoje. "Você é foda, você é foda, você é foda porque você é foda", tá ligado? Você é foda é o caralho! Tem que recusar isso, com força mesmo, pra poder continuar criando, continuar com teu eu, porque senão você começa a inverter, a consequência vira causa, aí fudeu. Aí acabou contigo.

Você tem a sua personalidade, o seu silêncio criador. Quando você joga algo pro mundo e o mundo adora, ele quer que você faça igual a coisa que você já criou, e assim não rola, tá ligado? Os fãs ficam te exigindo certas coisas, e você fica obrigado a ser mais social, quando você não quer ser social. Te exigem coisas que às vezes te afastam do teu "eu antissocial", e esse "eu autista" é o mais interessante. Eu me preocupo com isso. Sempre fui autista e antissocial. Tem um amigo meu de muitos anos que fala "Ret, tu é o cara mais autista que foi mais social que eu já vi na vida", porque eu não tenho nada de social. Aí eu estou sempre bebendo, fica mais fácil usar droga por causa disso, mas eu acho que é fundamental tu manter teu lado antissocial, eu faço questão de preservar isso. Senão você fica muito no barulho irmão, e o barulho é a continuação do que já tá aí.

Foto: Matias Maxx

Afinal tu se vê como um cara do rap ou do funk?
O rap que eu ouvia, que me influenciou, era "Rap das Armas", "Rap do Silva", "Rap da Favela", lá falava tudo. Não vem me dizer que o rap veio do hip hop... Minha referência é outra. O que eu mais ouvi de hip hop na minha vida foi MV Bill, Racionais MC's e Gabriel Pensador, os caras mais politizados. Eu acho que não consigo mais escrever sobre isso porque pra mim isso já se esgotou, esses caras são os melhores nisso, sacou? Eu não sei fazer crítica social melhor que esses caras. De racismo eu não vou falar porque eu sou branco, não tem nem como um branco falar de questão racial, porque ele é branco mano, não tem como. Então me deixa falar do que eu posso falar. Respeita a minha arte, minha música, minha composição, minha forma de escrever, minha vida, minha área, Esse povo do rap é muito chato, dá vontade de ficar só no funk. Acaba que em muitos lugares eu sou visto como um funkeiro que canta rap. No funk sempre me recebem bem, na maior leveza, e em todos os lugares de rap me recebem mal, sinto uma energia já ruim, principalmente da nova geração. Minha cultura, aprendam a respeitar isso. Eu posso ser mais eu com os caras do funk do que com os caras do rap.

E como você administra hoje em dia com o julgamento dos fãs chegando no seu celular, no tweet, comentário...
Tem de saber ignorar e acho que eles entendem. Você tem de fazer tua arte, é isso que eu tenho de lembrar. Você tem que apresentar sua arte e acabou, senão você fica pensando que é uma celebridade, porque é uma pessoal social, e a consequência de você ter virado famoso acaba virando a causa. Você acaba numa de "sou famoso, famosos"... Famoso por que? Pra quem? Por quem?

Por isso que eu sempre faço questão de lembrar que eu sou autista e antissocial, eu sempre ouvi isso e sempre me trataram assim. Eu era caladão, caladão mané. Falo pra caralho na rimas, mas sempre fui mais contemplativo do que participativo. O que o povo vê é o meu lado extrovertido, mas eu sempre fui mais introvertido e até hoje sou. Mas eu me esforço; vem alguém falar comigo, na hora eu coloco pra fora meu lado extrovertido, e tudo isso me ajudou a ser uma pessoa menos antissocial mesmo, até acho que foi bom pra mim. Eu era uma pessoa até meio perigosa (risos), silêncio demais. Meu irmão sempre foi o contrário.

É a história de todo rapper: participou da rua, mas sempre foi o cara que todo mundo da rua falava "tu não nasceu pra isso". Sempre me falaram isso. Foi a mesma história com Jay-Z, com Tupac, com o Notorious... O rapper é introvertido, mas se torna extrovertido porque todo mundo fala que ele é, e ele acaba indo nessa. É importante lembrar das singularidades. Eu não consigo ficar lançando uma porrada de som e uma porrada de participação. Eu até tento. É igual clipe: não me dou bem, não sou ator. Por mais que eu esteja representando uma persona no palco, isso não quer dizer que eu seja ator, tá ligado?

"Sou branco, bonitinho, carinha de playboy. Eu entendo, aceito e até curto né? Tem que curtir, irmão."

Você não gosta de se ver nos clipes?
Não cara, é sempre uma parada meio estranha. (risos)

A parada é fazer clipe em que tu não aparece!
É uma solução!

Foto: Matias Maxx

Foda que a galera quer te ver né? A mulherada quer te ver! (risos)
É! Tem isso também, o fato de eu ser branco, bonitinho, carinha de playboy. Eu entendo, aceito e até curto né? Tem que curtir, irmão. Claro que eu me aproveito disso também, sem culpa também. Não vou ficar reclamando que eu nasci assim.

Naquele dia no morro, teve uma mina que ficou cercando a van, batendo na porta até a gente chegar na pista. E tu nem tava na van! A gente falava pra ela e ela não acreditava.
Histeria total! Cara, um lance que é legal pra tu voltar pra realidade é quando você vê um post no Facebook e uma mina falando mal de tu, e tu entra lá e tu vê que uns anos antes ela tava falando contigo como se fosse tua fã máxima, a número um. Aí passam dois anos e ela não é mais, porque sei lá, apareceram uns outros maluquinhos mais interessantes do momento. É uma histeria meio falsa, então hoje eu vejo isso diferente. Eu sei que tem algumas ali que vão entender e re-entender no futuro que as letras mudaram ela e etc. Mas entendo também que a maioria talvez vai esquecer também. Então é engraçado, mas eu busco separar isso, o que é difícil pra caralho. É importante, mas parece que não, quando tu mostra tua arte pra dez pessoas e uma critica. Quando tu mostra pra um milhão, cem mil vão falar que não gostaram. E cem mil pessoas falando mal de tu, acaba te afetando, sacou? É aquilo: tu é autista, tu faz arte, não esquece que tu tá pintando um quadro, não pensa que tu é celebridade, esquece essa porra de celebridade, pinta teu quadro, ganha teu dinheiro o máximo que tu puder. Eu vejo assim, me deixa em paz pra pintar meu quadro.

Tento separar ao máximo os derivados e consequências histéricas, porque eu vou continuar. Daqui dez anos eu vou estar vivo, então preciso saber me proteger, tá ligado? 2016 foi o melhor ano, até nas projeções de show e contabilidade, foi um ano que eu não lancei CD, mas eu explorei o Revel, de 2015, fiz dois shows no Circo Voador cheios, graças a Deus. Em 2017 pretendo lançar clipe talvez, mas não lançar CD. No máximo um single. Tem muita gente lançando muita coisa, tá ligado? Às vezes eu penso em me afastar, deixar o barco correr lá que eu quero estar em outra corrida. Se ficar entrando nessa de quantidade, eu vou estar me ferindo, então prefiro evitar. Estou sempre observando o mercado e pá, mas não posso ficar me ferindo. Eu acredito na verdade da minha parada ali. É real e é isso que me mantém, e não a consequência das minas histéricas. Umas minas novas que às vezes nem entendem o que eu tou falando. Ela não sabe o que é "carrega a glória e a dor de viver do meu jeito", tá ligado? O bandido sabe, ele sabe o que que é. Aí eu valorizo mais, os caras mais velhos que ouvem as paradas.

E como é trocar ideia com esses seus fãs do crime?
Cara, muitas dessas pessoas conseguem com poucas palavras demonstrar que as minhas palavras afetaram elas profundamente. Eu sempre tive isso de gostar de ser ídolo de uma galera porque eu sempre fui idólatra também, sempre gostei de idolatrar. Sempre coloquei os caras lá em cima, então isso me fez querer ser um pouco isso pra galera. Tudo que eles me falaram eu consigo captar a profundidade com a qual eu cheguei neles, porque eu tenho isso com outros como Renato Russo, Cazuza, o Mano Brown, o Chorão. Em forma melódica, em forma verbal, melodia e palavra são coisas muito poderosas. Soma a isso a sua estratégia de saber jogar e vender, e isso é um poder de fato. Isso influencia a vida das pessoas. Tem gente que saiu de emprego, que terminou com a mulher, conheço gente que surtou porque ouviu Filipe Ret, tá ligado? Quando gera uma crise na pessoa é algo super interessante, por mais que tenha sido algo ruim, foi momentâneo. Eu já vivi essa crise também, eu sei como é tu achar que não vai sair, já tive minhas sessões psiquiátricas também, eu sei como é que é isso. Eu já passei por esse antes e depois, então gerar um antes e depois pra uma pessoa, assassinar a pessoa e renascê-la é uma habilidade. Ao mesmo tempo, não vejo isso como uma responsa, mas sim como uma arte. Eu estou aqui pra pintar meu quadro. Era essa é a intenção do quadro, te matar, e se ele não te fez nada, é porque tu também não viu, então pra você ele não tem nada pra dizer. Eu sempre gostei de desenhar, vejo tudo como um quadro.

E aquelas fotos com lança perfume?
Ah, eu tava doidão num show, fui tirar foto com o Guimê se não me engano, tava com o bagulho na mão e tirei, a pose que tu faz com um baseado mas era um lança.

Pois é, hoje em dia é super normal sair na foto com um baseado, mas aí tu sai com um lança e vagabundo "óóóó´"...
A galera é hipócrita, mano. Eu sou aquele que acha que todas as drogas devem ser vendidas na farmácia, ponto! Não vejo Rivotril como superior ou inferior à cocaína, não vejo maconha como superior ou inferior a Rivotril; pra mim é tudo a mesma coisa. É substância que tu usa pra alterar. Talvez tenha um glamour a mais a cocaína e a maconha porque elas tão no meio não tradicional, mas pra mim é substância, só que uma tá mais estilosa aqui dentro do copo. Eu acho que os artistas sempre são os responsáveis por glamourizar essas drogas. James Dean com o cigarro, Bob Marley com a maconha. O Bob Marley então ele glamourizou todo o pensamento da esquerda, do dread, da maconha, o baseado na mão. Toda essa vibe de trap, de dread, anel de ouro e um baseado. Imagem é uma coisa muito forte também. Tava te falando do poder do verbo, da melodia, o poder de saber vender isso e o poder de saber vender a imagem também. Às vezes a menininha tá me ouvindo porque me achou bonitinho, anos depois ela vai reouvir e falar "Caralho! Agora faz total sentido, faz sentido até hoje pra mim". Ou não, mas é bom trazer mais gente. Quanto mais gente, maior a peneira de que realmente vai ouvir e entender.

"Preciso ser feliz? Nem isso."

E ver tua foto na boca de fumo, como foi essa experiência.
Quase todo mês alguém me manda uma foto de endola. Eu achava interessante no início, mas hoje eu já não acho tão maneiro porque eu não quero ficar sendo garoto propaganda de tráfico. Mas acaba sendo o que é, num momento eu fui essa pessoa aí, os caras se aproveitaram disso, mas eu não acho mais isso legal, não quero influenciar ninguém a usar droga. Cada cabeça é uma cabeça, tem gente que vai beber e vai matar os outros na rua, outro que vai fumar e vai ficar maluco, outro vai cheirar e se viciar no primeiro teco. Cada cabeça é um universo, e eu falo muito disso nas minhas músicas, você depende só de você tá ligado? Então seja você, mantenha sua integridade, seu individualismo artístico, estético. Como eu falo no rap: "Evito depender até da felicidade", então evito depender de qualquer substância também. Talvez o que eu seja mais dependente é o álcool. Mas evito depender até da felicidade pra seguir. Preciso ser feliz? Nem isso. Mas isso das dolas mostra que o som chegou no povo, né? Num primeiro momento achei maneiro, depois não mais, não quero influenciar ninguém,

Alguns MCs de funk nascidos em favela às vezes tem limitações de tocar em outros morros por conta de facções. Você passa por isso?
Não cara, a gente toca em morros de todas as facções que tem aqui no Rio, não tem essa. O Estado não vai lá, então quem que manda naquela porra? Não existe lugar sem poder, sempre vai ter um poder vigente. Se o Estado não chega, quem domina é quem tem arma, força, quem é violento. E esses lugares no Rio são lugares populosos pra caramba, não posso deixar de ir. Ali também é cidade, também tem internet, televisão, a comunicação chega pra todo mundo, vai deixar eles de fora? É uma contradição dolorosa do Rio essa. Isso até hoje é uma questão pra mim.

"Ah falar de dinheiro é cafona, é brega…" É cafona o caralho! Todo mundo precisa de dinheiro. A gente tá todo dia sendo vaidoso, agora eu não posso falar de vaidade? Isso é um tabu, é uma hipocrisia fudida eu não poder falar de vaidade, de ouro, de dinheiro, de tiração de onda, enquanto todo mundo quer dinheiro e todo mundo quer tirar onda. Cada época é sua época. O Roberto Carlos não explorou a porra do amor? O Tim Maia não explorou a porra da dor de corno? Os caras não exploraram engajamento político? Então eu não posso explorar a vaidade humana porque? Sacou irmão? Eu posso mano, isso é minha arte. Deixa eu pintar, cara!

As pessoas ficam nesse julgamento, tentando me pegar, como se eu tivesse fazendo uma coisa errada, como se quisessem me pegar numa contradição. É claro que as minhas letras são super contraditórias, somos todos contraditórios, onde você quer me pegar na contradição? Eu estou expondo todas elas, sem hipocrisia. Tou ensinando o filho de muita gente a ser homem, falando de dinheiro pra mudar a vida deles. Já vi pai falar pra mim "Hoje eu estou aqui com meu filho e muita coisa que eu queria falar pra ele você disse através do seu som", então isso pra mim é impagável. É genial! Porra, vai tomar no cu esse povo que acha que falar de dinheiro é cafona, é brega, é ostentação. Não é ostentação, é realidade. 2017 e vocês ainda tão com esse pensamento? Todo mundo no Instagram expondo uma vida muito maior do que a que tem, e eu não posso explorar essa vaidade? Eu sou artista, irmão. Essa é uma parada que me deixa bolado. Eu vejo que a galera da favela tem muito menos hipocrisia em relação a isso, quer é dinheiro mesmo, tiração de onda. Eu sei que tem que trabalhar, eu sei que tem coisa errada na política, você tem que ter o universo todo, tem um monte de artista que vai mais pra um lado, então vai me condenar por que eu vim mais pra este outro lado?

E como você se sente sendo o segundo rapper a estampar uma coleção da seda Raw?
Minha mãe ficou bolada, isso que ela nem sabe da endola (risos). Mas eu disse pra ela que isso é uma consagração pra um rapper. Os maiores são associados à maconha; o hip hop é muito associado a cultura da maconha. Assim como Wiz Khalifa e o Snoop Dogg, aqui no Rio a gente tem o Marcelo D2, e agora tem Filipe Ret. Foi uma honra pra mim fazer essa colab, até porque eu sempre comprei a seda Raw. O hip hop permite isso, de se vender, e o que eu tou fazendo é rap, é jogo, é atitude. Isso mostra pra molecada também que a gente tá trabalhando, que a gente está aberto a fazer negócios, publicidade. Isso também é jogo e atitude, faz parte da cultura, do processo. Me sinto feliz de ser um dos nomes consagrados entre maconheiros.

Próximos eventos:

14/7: Rio @ Hip Hop Rio
com Gabriel O Pensador, Black Alien e Planet Hemp
https://www.facebook.com/event...

15/7: São Sebastião (DF) @ Parque de Exposições

15/7: Brasília (DF) @ Bamboa Brasil

18/7: Pré lançamento da Raw @ La Cucaracha
Sessão de autógrafos
https://www.facebook.com/event...

21/7: Rio @ Quadra da Mangueira

25/7: Pré lançamento da Raw @ Fênix Tabacaria
Sessão de autógrafos
Mercadão de Madureira

29/7: São Vicente (SP) @ Marina Paradise

4/8: Maceió (AL) @ Armazém Uzina

5/8: Fortaleza (CE) @ Clube 360

11/8: Governador Valadares (MG) @ Monalisa Jump

12/8: Pará de Minas (MG) @ Disco Girus

13/8: Ribeirão das Neves (MG) @ Clube Minas Gerais

26/8: Niterói (RJ) @ Clube Combinado 5 de Julho

1/9: Queimados (RJ) @ Queimados Futebol Clube

2/9: Magé (RJ)

6/9: João Pessoa (PB)

7/9: Campina Grande (PB)

8/9: Vitória (ES)

9/9: Rio de Janeiro (RJ) @ Nova Iguaçú - Vintage Hall

9/9: Campo Grande (RJ) @ Fazenda Z Music

16/9: Santa Cruz (RJ) @ Social Show

23/9: Nova Friburgo (RJ) @ Imperatriz de Olaria