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Saúde

O Instagram que relembra pessoas que morreram de AIDS é de cortar o coração

"Lembro do momento exato em que a respiração difícil dele parou. Nada vai doer tanto assim de novo, vai?”

por Jeff Leavell; Traduzido por Marina Schnoor
01 Março 2019, 10:00am

Todas as imagens cortesia do The AIDS Memorial.

Cresci vendo alguns dos amigos mais próximos da minha mãe morrerem de AIDS. Fui com ela aos enterros, segurando sua mão enquanto ela e os amigos choravam com a impossibilidade de perder mais alguém.

Ela me disse que aqueles homens eram corajosos e fortes. Que viveram suas vidas ao máximo até o fim.

“Eles não são pervertidos ou desviados, a única coisa errada com eles é que eles foram esquecidos por seu país e pelas pessoas que deveriam cuidar deles e amá-los”, ela me disse. “Não importa quão doente eles ficaram, como a doença foi devorando cada um: eles são heróis.”

Recentemente eu estava sentado num café em Berlim, passando pela conta do Instagram The AIDS Memorial, criada como um espaço para pessoas que perderam entes queridos para a AIDS contarem as histórias daqueles que não estão mais entre nós. Olhando as fotos, senti como se o mundo estivesse desmoronando ao meu redor. Fiquei sobrecarregado com perda e devastação, e tive que ir ao banheiro pra ninguém me ver chorar.

Mas também há algo bonito nessas histórias: amor e amizade, família, uma recusa em esquecer. Um lugar para lembrar não só aqueles que morreram vítima de uma terrível praga, mas que foram humanos que riram e amaram, que já estiveram vivos e cheios de esperança.

David Bolt conta a história de seu parceiro, Felix, na foto no topo da matéria:

“Aqui meu Felix estava em Fire Island em 1972 fantasiado de Carmen Miranda, o segundo a partir da esquerda. Felix se mudou de Nova York um pouco depois dessa foto para viver abertamente e livre em São Francisco, onde ele encontrou aceitação e amor além de qualquer medida. Essa foto retrata um final de semana em Fire Island, onde Felix e seus amigos foram para escapar do calor, da intolerância e da opressão em NYC no começo dos anos 1970. Todas as lindas almas nessa foto se foram, incluindo meu doce, maravilhoso, incomparável e único Felix. Conheci Felix em 1982 na Parada Gay de São Francisco. Fiquei imediatamente encantado com sua inteligência, charme e alegria. Ele me ensinou, me vestiu e me reinventou no homem que sou hoje com seu amor, afeição e devoção. Ficamos juntos de 1983 até ano passado, quando Felix perdeu sua luta de 20 anos contra o HIV. Esses últimos meses têm sido os dias e semanas mais difíceis da minha vida. Tenho um buraco fundo no meu coração. Às vezes finjo que Felix está viajando e vai voltar, e me sinto bem temporariamente, mas a realidade da perda sempre volta. Choro e estou confuso. Tudo parece de cabeça para baixo. Na maior parte do tempo não sei o que fazer. Felix era meu mundo.”

A young girl with a man in a suit.

Briana Buck conta a história do Tio Nick, e como ele a fez se sentir a pessoa mais especial do mundo num dia em que largou tudo para dirigir 120 quilômetros e assar biscoitos com ela quando ela era criança. “Não importava o que acontecesse, ele sempre me fazia sentir especial, como se eu fosse a filha que ele nunca teve”, ela escreve. “Quando ele morreu, fiquei devastada. Fico muito feliz que ele tenha se mudado para Vermont para passar tempo com a gente em seus últimos dias. Apesar de ter sido difícil ver ele decaindo, pelo menos pudemos mostrar o quanto o amávamos.”

A young man sitting on grass.

Steve Sagaser escreve sobre seu parceiro Sergio Anguiano. Os dois se conheceram em 1991 enquanto estudavam na UC Berkeley.

“Como parceiro dele, a experiência daqueles dois anos e meio foi devastadora e assustadora”, Steve escreve. “Eu não tive outros amigos passando por essa experiência. Sergio tinha 21 anos em 1993 quando morreu – no nosso apartamento em Berkeley, nos meus braços.

“Foi muito doloroso vê-lo lutar por sua vida sabendo que outros achavam que ele merecia morrer. Saber disso era excruciante. Levou anos, literalmente, de ativismo heroico para fazer o governo valorizar nossas vidas também – só então a justiça finalmente chegou, mas não a tempo de salvar o Sergio.”

É fácil esquecer, numa era de PrEp e TASP (Tratamento como Prevenção), que apenas 28 anos atrás o vírus varreu grandes seguimentos de várias comunidades marginalizadas dos EUA. As comunidades afro-americana e latina, a comunidade trans, pessoas pobres e sem-teto, além daquelas sofrendo com abuso de substância e questões de saúde mental, e algumas das pessoas mais lindas e talentosas da comunidade LGBTQ.

Um dos meus melhores amigos, Ken, é soropositivo desde 1991. Ele é um dos que tiveram “sorte”. Ele nunca ficou doente, ele sobreviveu. Mas sobreviver significou que ele teve que assistir aqueles que ele amava morrerem.

Alguns meses atrás, estávamos na casa dele em Echo Park Hills, o horizonte de LA brilhando fora da grande janela da casa. Ele estava me contando a história de seu parceiro, Mikey. “Sabíamos que tinha algo errado com o Mikey, mas estávamos com muito medo”, ele disse. “Éramos jovens e achávamos que tínhamos todo tempo do mundo. Só ficamos juntos alguns anos, mas eu acreditava, talvez ainda acredito, que compartilharia o resto da minha vida com o Mikey.

“Mikey não queria fazer o exame mas o obriguei. Eu disse a ele que era melhor saber que não saber. Ele morreu alguns meses depois. Ele ficou doente muito rápido. Sempre digo que tenho sorte porque nos meses antes dele morrer, pude estar do lado dele, ajudar a cuidar dele, amá-lo. Significa muito pra mim que ele sabia que não estava sozinho. Ele escreveu um bilhete muito lindo que só pude ler depois que ele morreu, me dizendo que fui o único amor verdadeiro dele, nesta vida e na próxima. Até hoje, ainda sinto aquele amor.”

Ken começou a chorar. Ele me mostrou um pequeno altar que tinha em seu escritório, com uma foto de Mikey. “Naqueles últimos momentos, pude estar com ele, segurando suas mãos enquanto ele morria”, ele disse. “Lembro do momento exato em que a respiração difícil dele parou, o momento em que ele foi de vivo para morto. Nada vai doer tanto assim de novo, vai?”

José Anibal Fonseca (11 de outubro de 1956 – 19 de janeiro de 2001) era o irmão mais velho da minha mãe. Na foto ele está com a minha tia, sua esposa Pat.

José era um de nove filhos. 'Sua avó tinha todos esses filhos e ainda me acolheu quando precisei de um lugar para ficar', minha tia Pat me contou. 'José era como sua mãe, sempre rindo e contando piadas. Fiquei apaixonada por ele imediatamente.' Ela me contou muita coisa sobre meu tio José.

Não o conheci bem. Não conheci nenhum homem da nossa família bem. Encontrei segurança e afirmação nas muitas tias e mulheres que frequentavam minha casa quando eu era criança.

Não sei quais eram os sonhos de José. Eu nem sabia que o aniversário dele tinha sido alguns dias atrás. Minha tia me contou. Enquanto eu ficava mais velho, José e eu só nos cumprimentávamos. Não ríamos. Não contávamos piadas. Muitas vezes ele desaparecia, como minha mãe. Ele tinha um vício.

Quando José e eu passamos mais tempo juntos, na mesma sala, foi muito depois dele se separar da minha tia. No final dos anos 1990, ele começou a perder muito peso. Sabíamos o que estava acontecendo, mas minha família ainda estava sofrendo com a morte da minha tia Bianca de AIDS alguns anos antes.

Assisti meu próprio pai deteriorar durante sua batalha com o HIV. Eu sabia exatamente o que estava testemunhando. Ninguém disse uma palavra. Vendo agora, acho que nossa família não tinha as palavras para falar dessa perda.

Quando José morreu de complicações de AIDS em 2001, não teve funeral. Pelo menos não me lembro. O nome dele raramente é mencionado na família. Então hoje, eu digo o nome dele:

JOSÉ ANIBAL FONSECA.” – por Louie A. Ortiz-Fonseca @lou_rok

Em 1988 eu era um estudante na Sarah Lawrence College, morando num apartamento na Court Street em Brooklyn Heights. Era agosto, e Nova York estava sofrendo com uma onda de calor. Estava muito quente para ficar em casa, então peguei o trem até East Village e andei até o Crow Bar. Pedi uma cerveja e flertei com um garoto fofo de cabelo enrolado preto, olhos verdes e pele pálida. Depois de alguns minutos, o segui até a dark room. Nos beijamos e aí, de joelhos eu o chupei.

Lá fora, nós dois rimos. Tínhamos ido ao bar para escapar do calor, não para fazer sexo.

“É sempre assim”, ele me disse, com um sotaque irlandês. Ele me disse que seu nome era Aron e ele era de Dublin. Um estudante na NYU. “A gente podia ter um encontro de verdade”, falou. Ele estava sorrindo. Toda vez que penso nele, lembro daquele sorriso: parecia que ele estava sempre rindo. Feliz.

Nos encontramos na noite seguinte na frente do dormitório dele. A noite estava quente e úmida, nossas camisetas molhadas de suor. Aron queria comprar uma pizza e levar para a Ponte de Brooklyn, para fazer um piquenique.

Nos sentamos na ponte, comendo pizza e bebendo uísque, as luzes da cidade brilhando como uma visão do futuro, compartilhamos as histórias das nossas vidas e quem queríamos ser.

Aron seria veterinário. Eu seria um escritor.

Cruzamos a ponte para o Promenade e nos beijamos num dos bancos. Passamos a noite no telhado do prédio do meu apartamento, transando, conversando e fingindo que havia estrelas no céu superiluminado de Nova York.

No segundo encontro fomos ao Central Park. Aron nunca tinha estado lá. Eu tinha uma longa história procurando transas no parque e disse a ele que seria seu guia. Depois andamos do parque até West Village. Comemos falafel e Aron me disse que nosso terceiro encontro seria no Harlem, num restaurante de comida do Sul de que ele tinha ouvido falar.

“Ah? Um terceiro encontro?”

O colega de quarto dele estava viajando, então passamos a noite no dormitório dele. Na manhã seguinte, tive que ir embora logo cedo para encontrar meu pai.

Liguei para o Aron algumas vezes no mês seguinte, mas ele nunca atendeu. Nunca me ligou de volta. Meses depois, um amigo em comum disse que Aron tinha se matado. Algumas semanas antes de morrer, ele tinha descoberto que tinha AIDS.

Ainda penso nele. Em quem ele poderia ter se tornado. Em quem ele poderia ser hoje. Ele tinha os olhos mais bonitos, a risada mais impactante.

#PatrickKelly (24 de setembro de 1954 – 1 de janeiro de 1990) era um estilista americano que morreu de AIDS em Paris. Ele tinha 35 anos.

Nessa foto Kelly está com a grande Bette Davis (1908 – 1989) que ele conheceu por meio de alguém de sua equipe. Davis, que Kelly chamava carinhosamente de 'Ms. D' continuou devotada às roupas dele até sua morte em 1989. Ela usou um vestido de Kelly como convidada do David Letterman em 1987.

Menos de três meses depois que Davis faleceu, Kelly morreu no Hotel Dieu, um hospital perto da Catedral de Notre Dame. Originalmente, a causa da morte foi divulgada como leucemia e um tumor cerebral, mas agora sabemos que foi AIDS.

Nascido em Vicksburg, Mississippi, Kelly estudou arte na @jacksonstateu e depois frequentou a @parsonschoolofdesign. Enquanto morava em Atlanta aos 18 anos, Kelly vendida roupas recicladas e trabalhou como vitrinista na @ysl.

Em 1988, o presidente da @ysl #Pierre Bergé (1930 – 2017) patrocinou Kelly para que ele abrisse a casa de moda feminina Patrick Kelly Paris.

Mais tarde, Kelly se tornou o primeiro americano e pessoa negra a ser admitido como membro do Chambre syndicale du prêt-à-porter des couturiers et des créateurs de mode.”

Meu exame deu positivo em 2013. O mundo tinha mudado. Isso não significava mais uma sentença de morte. Mas ainda tive medo. Naquele momento, quando ouvi as palavras serem ditas, que meu exame deu positivo, me senti sem esperança, a vida de repente tinha uma nova profundidade, percebi que, mesmo que não fosse de HIV, eventualmente eu ia morrer.

Quando esses sentimentos de medo me atingem, e ainda atingem, penso em homens como Tio Nick, Felix, Sergio, Mikey e Aron, todos homens que sei que morreram dessa doença, e me lembro: tenho sorte. Estou cercado de amor. Estou saudável. Minha vida, mesmo aos 50 anos, mesmo com HIV, está diante de mim cheia de possibilidades.

Então faço tudo que posso para viver com o máximo de amor possível. Em homenagem a eles. Em homenagem a todos que morreram.

Sou grato ao The AIDS Memorial, a todo mundo que contou histórias de amor e perda, a quem mantém os mortos vivos. Eles merecem isso de nós.

Eles merecem nunca serem esquecidos.

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