comportamento

Falamos sobre crush na Praia dos Crush em Fortaleza

O point, localizado na Praia de Iracema, foi batizado como o epicentro de paquera dos jovens da capital cearense.

por Marie Declercq
26 Junho 2018, 10:00am

Foto por Tarcísio Feijó/VICE.

"Você que é jovem precisa passar a tarde na Praia dos Crush", disse o motorista de táxi que me emprestou o isqueiro assim que aterrissei em Fortaleza, capital do Ceará. Segundo ele, os jovens cearenses se reúnem religiosamente nos fins da tarde, especialmente na sexta-feira e sábado, para escutar música, beber e paquerar. "Tem uns que fumam erva lá também, mas você que tem cabeça boa não vai cair nessa, né?" ele me aconselhou, antes de sair para uma corrida.

A Praia dos Crush, segundo os próprios moradores de Fortaleza, surgiu de repente como um point da molecada para curtir. Na verdade, ela é apenas um ponto da Praia de Iracema entre o pier e a ponte metalizada onde o pessoal senta para ver o por-do-sol. O local também está próximo ao Dragão do Mar, um centro cultural que sempre tem show ou festas e também de barzinhos mais badalados. Para mim que sou paulista que mal vê um marzinho ao longo do ano, era um paraíso.

Já mais tranquila com o final da tarde, mas sofrendo do calor perverso de Fortaleza, fui de roupa e tudo na praia junto com o fotógrafo Tarcísio Feijó para trocar ideia com o pessoal sobre crush. Na praia dos Crush.

Marcos Antônio, Meiriane Sousa e Jacson Alvez. Foto por Tarcísio Feijó/VICE.

Marcos Antônio, 24 anos, Meiriane Sousa, 33 e Jacson Alvez de 29 estavam dividindo uma toalha de praia e uma garrafa de vinho quando eu os abordei. A primeira pergunta foi se eles estavam solteiros. Marcos olhou para Meiriane, deu um sorrisinho e disse "É complicado".

Entre um gole e outro de vinho, os jovens discutiram um pouco se o estado de espírito do cearense é a sedução infinita.

VICE: É verdade que em Fortaleza a paquera rola fácil?
Meiriane:
A Praia dos Crush surgiu atualmente, não faz nem tanto tempo. Moro aqui desde muito tempo e a Praia dos Crushs tá com mais ou menos nem um ano de existência. E tipo assim, às vezes até eu mesmo fico espantada. Porque eu chego e realmente é crush mesmo, porque tu chega, tu senta aqui, uma mulher chega e senta sem o namorado, já era. Se o namorado não chega, então... já era.


Marcos: Depende do local, do ambiente. Se for numa festa, se for aqui também, é bem mais fácil. Depende bastante do lugar, varia. Praias, as festas e os reggaes, essas coisas, são os principais lugares para isso.


Jacson: Não tenho nem o que reclamar da minha cidade. Apesar da violência, apesar de tudo o que acontece ao redor aqui, a gente procura os melhores ambientes. A praia de Iracema praia de Iracema é um deles. O jovem vem pra cá, vê um por do Sol, vê a galera, todo mundo conversando, trocando ideia. A gente vê que o jovem não é só droga, bebida, aquelas coisas de violência não. Jovem também é a liberdade, paz, amor, é como dizia nos anos 1970, só paz e amor.


Meiriane: Mas para quem está sozinho aqui é massa. Fortaleza a noite é massa, o reggae...

O lance também é saber dançar direito, né?
Jacson: Se você não dança, é uma vara enterrada na areia. Você não vai pra canto nenhum, a maré bate, bate e enterra mais você.


Marcos: Igual a galera que fala na gíria daqui que o reggaeiro é aquele que sabe, é um pé de valsa.


Meiriane: Só que os caras são muito chegão. Chegam chegando. Chegam pelo papo, pela pegada também, pela conversa. As mulheres também querem mas nem sempre é só isso, entendeu? A gente sente falta de outras coisas, carinho, romance, atenção é mais importante.

Jacson. Foto por Tarcísio Feijó/VICE.

Cearense apaixonado e comprometido é fiel?
Meiriane:
São, são. Quando se apaixonam são.


Jacson: Quando se gostam mesmo se tornam Maria Bonita e Lampião.

E o ciúme?
Marcos:
Se mexer com a mulher do Lampião, é faca. Se mexer com a Maria Bonita, é faca.

Como vocês chamam a talaricagem aqui?
Marcos: A gente chama de boca de prata.


Meiriane: Aqui é meio complicado isso aí, dá morte.

Pedro, sua crush e Suzana. Foto por Tarcísio Feijó/VICE.

Aproveitando o por-do-sol, o trio de amigos Pedro Silveira, 27, sua peguete gringa (que ficou tímida e não quis se identificar) e Suzana Sales de 26 anos (de cabelo comprido) falaram sobre os probleminhas de xavecar numa cidade relativamente pequena como Fortaleza em comparações a outras capitais.

VICE: Pegação aqui na cidade tá em alta ou tá ruim?
Suzana: Aqui em Fortaleza? Olha, o pessoal se conhece, todo mundo se conhece demais, aqui é muito pequeno. Tu vai prum canto assim, já encontra o teu ex, amigo do teu ex, paquera. Mas assim, como acontece? Chega, chama pra sair, chama para uma cerveja, chama para ir pra praia.


Pedro: Cara, eu não entendo muito, isso é termo novo pra mim, eu fui descobrir dias desses o que significa "crush". Ultimamente eu não estou muito paquerador. Na real, está todo mundo na mesma, é uma parada universal. Está todo mundo se comportando na mesma viagem. Tem uma galera que está diferente. O xaveco já está virando uma conversa mais civilizada, galera antigamente chegava numa viagem muito louca, tipo, não queria trocar ideia, só chegava assim, e tal.

Rebeca, discretassa. Foto por Tarcísio Feijó/VICE.

A Rebeca Inácio, 21 anos, estava com uma amiga xavecando dois garotos meio perdidões na praia. Ela ficou um pouco tímida com a ideia da nossa entrevista e topou falar com a condição da gente não mostrar o rosto dela.

VICE: Tá fácil aqui então pra dar uns pega?
Rebeca: Paquerar aqui é muito fácil. É só se olhar e "aí, vamo fechar" e já era.

Eita, me explica por que é tão fácil?
Porque a galera daqui é todo é muito safada. Fortalezenses são quentes.

Aqui é seu point do rolo então?
Não, nesse local não. Mas é porque aqui já está muito manjado, é sempre as mesmas pessoas. Já peguei tudinho, não tem mais ninguém para paquerar não.

Os caras são muito machistas?
Alguns, mas até que está melhorando muito aqui. Mas rola ainda, machismo está em todo canto.

Milena e Raquel. Foto por Tarcísio Feijó/VICE.

Milena Martins Perdigão, 20, e Raquel Bernado, 22 toparam de fazer a entrevista, mas pediram pra relevar algumas coisas porque elas não estavam muito sóbrias. (Elas foram ótimas)

VICE: Tem alguma gíria de Fortaleza pra "xaveco"?
Milena:
Aqui no Ceará as pessoas falam "queixando". Isso é bem cearense. "Ah, tava queixando uma menina". Mas isso é mais do flerte verbal. Da chegada, sabe?

Entendi, entendi. E me diz aí: é verdade que fortalezense gosta de paquera?
Milena:
Eu acho que a gente está passando por fases diferentes e essa fase da nossa idade agora, casando muito bem com que Fortaleza está vivendo culturalmente. Da resistência e respeitar os artistas locais. A gente está descobrindo a nossa cultura, acho que é muito isso.


Raquel: Eu namoro, então assim, o xaveco não chega pra mim, é mais ao redor. As pessoas vão mais me dando liberdade do chegando com o xaveco frontalmente.

Praia de Iracema. Foto por Tarcísio Feijó/VICE.

Os caras pegam muito pesado na hora do flerte? Rola algum assédio?
Raquel: Isso melhorou muito com os debates que estão tendo, e tudo mais, mas a gente vê muito caso de puxão de cabelo, puxão de braço, principalmente no Carnaval. Eu acho que a nossa reação é muito mais forte do que era há algum tempo atrás. Eles continuam no mesmo nível, mas agora acho que eles estão se policiando, porque a gente está muito mais atenta.

Qual é o melhor rolê para arranjar uns crush?
Raquel: Vir pra cá e também colar no Dragão do Mar.
Milena: Lá [o centro cultural Dragão do Mar] é o lugar, até quando não está tendo nada, o Dragão é palco de todos os romances da Malhação Fortaleza. (risos)
Raquel: Lá é o Gigabyte da Malhação.

Luyk e Gabriela. Foto por Tarcísio Feijó/VICE.

A Gabriela e o Luyk Pinheiro, de 19 e e 21 anos, estavam quase indo embora depois do por-do-sol, mas toparam um papo rapidinho com a gente.

VICE: Vocês são namorados?
Gabriela:
Não, nós somos irmãos!

Ops, foi mal. Você já tem um crush para esse fim de semana?
Gabriela:
Tenho, conheci ele faz pouco tempo, mas ele não está aqui. Ele está trabalhando.

Fortaleza é a cidade oficial da paquera, afinal de contas?
Gabriela:
Na verdade, é muito fácil porque tem vários caras e eles chegam em você. Basta você se sentar e é incrível, chega cara do nada, às vezes só para conversar, às vezes para dar em cima, é muito bom aqui.

Por que aqui dá tão certo para xaveco?
Gabriela:
Cerveja barata e a facilidade de conseguir tudo por aqui. realmente, é um point de gente mais nova.
Luyk: Venho mais pra cá quando quero desestressar, ficar tranquilo, tomar banho de mar. Teve umas três vezes que a gente veio pra cá e deu certo as três. Mas, tem vezes que venho pra cá com a intenção de ficar tranquilo. Mas quando rola é aquilo... uma flertadinha e quando dá certo, dá certo.

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