wu tang clan

O Wu-Tang Clan também é dos ravers

Os reis do rap de Nova York subiram no maior palco da cena techno em Detroit para mostrar a sua enorme influência na música eletrônica.

por Max Mertens; Traduzido por Thiago “Índio” Silva
13 Junho 2018, 10:00am

Foto: Stephen Pham

Responsável pelo Movement Festival deste ano, a produtora de Detroit Paxahau instalou um outdoor no topo do Russell Industrial Center, antiga fábrica visível para viajantes que passam pela rodovia I-75. “DETROIT É O BERÇO DO TECHNO”, dizia o outdoor, tudo em caixa alta mesmo e o logo do evento de três dias bem no canto direito. Um fato de conhecimento geral para quem é da região, mas que sempre deve ser mencionado para os milhares de fãs de música eletrônica em peregrinação à cidade pra curtir o feriadão e o festival. O hip hop nasceu em Nova York, Chicago tem o house, já as sementes do techno foram plantadas em Detroit pelo Trio de Belleville — Juan Atkins, Derrick May e Kevin Saunderson — no começo dos anos 80. Claro que dali por diante, a coisa tomou o mundo.

Criado em 2000 e batizado à época como Detroit Electronic Music Festival, o Movement mudou de nome diversas vezes (e de donos também), mas seus princípios meio que se mantiveram os mesmos ao longo desse tempo. Com o passar dos anos, o público presente no Hart Plaza deu uma rejuvenescida, graças à presença de artistas de EDM e a casa de show em nada se assemelha às roller discos, boates gays e espaços underground onde se dão os shows paralelos e afters do evento principal. Mesmo assim, sua edição de 2018 parecia ter de tudo para todos, com o público enfrentando temperaturas altas para poder ver apresentações de pioneiros do house e techno como o próprio Kevin Saunderson (curador de alguns dos shows de domingo do festival), Laurent Garnier, Nina Kraviz e Tiga, bem como nomes mais novos como Avalon Emerson e Mija.

Em tese, contar com a presença do super-grupo nova-iorquino de hip hop Wu-Tang Clan tocando seu clássico disco de estreia de 1993 chamado Enter the Wu-Tang (36 Chambers) na íntegra poderia parecer meio esquisito para um festival tão ligado em música eletrônica, mas está longe de ser a primeira vez que o evento dá espaço para o rap. Edições anteriores contaram com gente como Public Enemy, Snoop Dogg (se apresentando como DJ Snoopadelic), Juicy J, Earl Sweatshirt, o herói local Danny Brown, dentre outros. Este ano tivemos verdadeiros arquitetos do gênero como DJ Premier — que distribuiu salves em meio ao seu set para artistas que já se foram como Adam Yauch dos Beastie Boys, Nate Dogg e seu parceiro de Gang Starr, Guru — sem esquecer Too $hort. O festival também abriu as portas para artistas influenciados pelo legado do rap, como o produtor de Michigan Shigeto e o experimentalismo dos canadenses BADBADNOTGOOD, que inclusive gravou um disco com Ghostface Killah, do Wu-Tang Clan, em 2015. Até mesmo a “Matriarca da House Music”, a DJ e produtora Stacey “Hotwaxx” Hale botou “Bodak Yellow” pra rolar, faixa que ganhou mais punch com a presença de um baterista real e foi recebida com carinho pela galera que chegou mais cedo.

Foto: Aaron Eschenburg

Por mais que 36 Chambers bata pouco mais de uma hora de duração — que não parece lá tanto assim comparado com os projetos ambiciosos que vemos hoje, criados sob medida para serviços de streaming — sua narrativa afiada e produção cheia de personalidade acabaram por fornecer novas bases para o hip hop, colocando o nome do Wu-Tang na história do gênero. Gravado no Firehouse Studio, em Nova York com um orçamento baixíssimo, todo o disco foi produzido, mixado, arranjado e programado por RZA, usando equipamento emprestado de amigos ou comprado de segunda mão. De filmes de kung-fu a hits da Stax e Motown, e até mesmo Thelonious Monk: não havia limites para o co-fundador do grupo, que diminuía a velocidade de samples para chegar no ritmo desejado ou os acelerava para criar um efeito desconcertante. É fácil traçar paralelos sobre como o cara se utilizou de sonoridades funk, gospel R&B e mais e a abordagem dos DJs sempre em busca de discos e produtores de todos os tipos.

Um caso bem conhecido é o de como o bluesman de Chicago Syl Johnson — cuja canção “Different Strokes” de 1968 foi sampleada em “Shame On a Nigga” — recebeu dinheiro o suficiente para comprar uma casa com os royalties recebidos do Wu-Tang. Desde então, produtores de música eletrônica tem emprestado alguns elementos do grupo. Quatro anos após RZA samplear “Is It Because I’m Black” de Johnson em “Hollow Bones” no disco The W de 2000, o sabidamente recluso produtor lendário de House de Detroit Moodymann usaria a mesma faixa na tranquilona “I’m Doing Fine” de seu disco Black Mahogani. Outro exemplo mais direto seria o dos pioneiros da eletrônica britânica, The Prodigy, com a acelerada “Breathe”, de 1996, que conta com o som de espadas presente em “Da Mystery of Chessboxin’”.

Foto: Joshua Hanford

Mas parte do que fez o grupo encaixar tão bem naquele que é o maior palco do techno é como sua música — e em especial a forma como RZA produz — ecoou pela música eletrônica com o passar do tempo. Há uma espécie de despojamento, uma escassez sombria na sonoridade de 36 Chambers que pode ser ouvida em materiais de techno mais diretos. “Era algo novo e incrível, os graves eram diferentes. Sempre escuto muitos discos com bastante grave”, comentou Carl Craig, influenciador da cena de Detroit e co-criador do DEMF, em entrevista ao TIDAL em 2017.

“Era um daqueles discos que toda vez que o ouvia, acabava ficando semanas sem conseguir criar nada porque pirava demais no que os caras tinham feito. Era quase uma lavagem cerebral”. A energia caótica e natureza lo-fi do grupo influenciaram ainda o veterano produtor britânico Kevin Martin — cuja sonoridade livre de gêneros sob a alcunha The Bug pulsa com energia punk semelhante. “Eles tinham seu próprio Sid Vicious no papel de Ol’ Dirty Bastard, seu Howard Devoto em GZA e Genesis P-Orridge em RZA”, disse Martin certa vez à Self-Titled, comentando ainda que a mistura que RZA fazia de “lo-fi, samples crocantes, artes marciais e melodias esquisitas” haviam lhe “fodido a cabeça”.

O grupo nunca se aventurou nas pistas — com exceção da péssima coletânea de 2009 Wu-Tang Meets the Indie Culture Vol. 2: Enter the Dubstep, em que produtores de dubstep péssimo simplesmente cagaram o material do grupo — mas sabem muito bem que compartilham uma história com a cena. “Há certamente um denominador comum entre os dois”, disse RZA em entrevista recente à Detroit Free Press, citando pilares dos anos 80 como baterias eletrônicas Roland e faixas como “Planet Rock” de Afrika Bambaataa como enorme influência nos dois gêneros. “São quase que primos, de certa forma e é isso que é legal — a música eletrônica deu ao indivíduo o poder de criar sem uma banda e o hip-hop surgiu deste mesmo fenômeno”. Certamente o pioneiro do electro-rap de Los Angeles, The Egyptian Lover — que tocou em uma festa do Movement organizada pela Soul Clap uns dias antes, diante de um público pirando em 808s por diversos minutos, concordaria com essa declaração.

Foto: Jacob Mulka

Apesar de que alguns frequentadores do festival possam ter torcido o nariz, assim que o sol se pôs naquele domingo, as camisetas do Wu-Tang em meio ao público se equipararam em número às estampas “DETROIT HUSTLES HARDER” e tabela periódica do techno na multidão. O grupo de Staten Island tem aparecido bastante na mídia em 2018, por mais que a maioria das manchetes surjam em torno de seu disco único com a participação de Cher comprado pelo vilão das farmacêuticas Martin Shkreli em 2015 por supostos 2 milhões de dólares. Ao longo do show de 90 minutos, onde tocaram ainda outros sucessos do grupo e algumas faixas solo, nenhum dos nove integrantes (e seu DJ Mathematics) falou do criminoso condenado, parecendo estar operando em modo nostalgia. Se havia algo de ruim entre U-God — que não participou do dispensável último disco da banda The Saga Continues por contra de tretas judiciais e críticas a RZA por ser controlador publicadas em seu livro autobiográfico lançado em 2018 intitulado Raw: My Journey Into the Wu-Tang — e seus parceiros, nada disso surgiu enquanto o grupo dançava e jogava champanhe na galera da frente ou se alternava em versos do finado Ol’ Dirty Bastard. Certamente o cachê deve ter compensado qualquer climinha pesado que poderia se instaurar.

Eles podem estar mais calmos se compararmos com a época em que tomavam as ruas de Nova York de assalto, mas a química entre os integrantes não perdeu nada em potência.

Ao ver o Wu-Tang quebrar geral com hinos atemporais como “Can It All Be So Simple”, “C.R.E.A.M.”, “Protect Ya Neck” e “Triumph”, seria impossível não se sentir revigorado (talvez pela quarta ou quinta vez), não importasse quantas horas de dança já tivessem se passado. Em determinado momento eles levaram ao palco uma cantora de soul de Nova Jersey, agora realocada em Detroit, chamada Candi Lindsay, também conhecida como Blue Raspberry, antes de mandarem um salve pra Motown, pra house music, Eminem e sua galera do D12. Não consegui deixar de notar a variedade do público ali presente, bem maior do que seu típico festival de verão. Vi ali ravers velhos e jovens, punks, entusiastas do #realhiphop, e provando a veracidade de uma citação do finado ODB, ao menos uma criança nos ombros dos pais. Talvez a maior semelhança entre a música do Wu-Tang Clan e o techno seja sua universalidade — não importa onde for no mundo, encontrará fãs daquilo, por mais que precise de um lembrete de onde aquilo veio.

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