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Como o filme “O Bandido da Luz Vermelha” se tornou uma referência no cinema

Jô Soares, Cacá Diegues e Júlio Bressane comentam o legado da obra que completa 50 anos em 2018.

por Guilherme Henrique
12 Junho 2018, 10:00am

Rogério Sganzerla estava mais perto dos vinte do que dos trinta quando fez seu primeiro longa-metragem. Misturou as influências de Jean-Luc Godard, Orson Welles, Glauber Rocha e da Poesia Concreta para dizer como o cinema no Brasil deveria ser feito a partir de então. “A síntese da alma do brasileiro é a intuição”, comentou em uma das entrevistas que deu ao longo da vida. No caso dele, intuição e genialidade.

“Meu filme é um far-west do Terceiro Mundo”, diz a frase que inicia o manifesto de “O Bandido da Luz Vermelha”, escrito por Sganzerla em 1968, ano de estreia da película. “Fiz um filme-soma; um far-west mas também musical, documentário, policial, comédia (ou chanchada?) e ficção científica”, prossegue o texto. “O filme do Rogério ignorava conceitos, em parte pela criatividade e em parte pela falta de recursos, o que obrigava Sganzerla a se reinventar diariamente”, argumenta o jornalista, ator e escritor Jô Soares, protagonista em “A Mulher de Todos” (1970), também de Sganzerla, com o personagem Doktor Plirtz.

Para além da vivacidade e do tom apocalíptico, “O Bandido…” inova sem olhar no retrovisor: a locução cafona, o letreiro luminoso com manchetes sensacionalistas, os sons estridentes e as músicas entrecortadas. “Filmes como esse não nasceram para ser explicados, mas para ser interpretados. Eu não tenho ideia de como encontrar algo que explique todas as confluências de citações e influências dessa obra”, comenta o cineasta e amigo Julio Bressane, autor de Matou a Família e Foi ao Cinema (1969), Miramar (1997), entre outros.

Crédito: Reprodução

Para retratar a história do criminoso João Acácio Pereira da Rocha, Sganzerla preferiu o deboche à violência. Popular e sofisticado se chocam a todo momento. “Arte moderna… É o que eu sempre digo: coisa de depravado! Lixo!”, diz o delegado Cabeção, interpretado por Luiz Linhares, ao ver um dos quadros pendurados na casa onde o bandido acabara de passar. “Era o caráter da obra dele. Popular e sofisticado, algo que entre nós não existia”, confessa Bressane.

O espanto causado por “O Bandido…” em 1968 ainda é o mesmo para quem o assiste pela primeira vez. “O Terceiro Mundo vai explodir”, vocifera um dos personagens. “A solução do Brasil é o extermínio, o extermínio total. Eu sou poeta, eu vejo!”. Essas e outras citações são jogadas ao público sem qualquer aviso de possível crise existencial posterior. “Eu queria mesmo era fazer um filme mágico e cafajeste, cujos personagens fossem sublimes e boçais, onde a estupidez revelasse as leis secretas da alma e do corpo subdesenvolvido. Quis fazer um painel sobre a sociedade delirante, ameaçada por um criminoso solitário”, revela o manifesto em outro momento.

Crédito: Reprodução/ YouTube

A sociedade delirante à que se refere Sganzerla estava a poucos meses de perder mais um retalho da esburacada colcha de direitos sociais cerceados com a chegada do regime militar, em 1964. Poucos meses depois do lançamento da obra, o AI-5 seria instituído pela ditadura, em 1968. “Era impossível viver sob aquele regime sem sofrermos alguma consequência dele. Não acho que a ditadura militar tenha sido um alvo do filme, mas é certamente na insatisfação com ela que nasce a violência intrínseca do Bandido da Luz Vermelha”, lembra o cineasta Cacá Diegues, precursor do Cinema Novo e autor de obras como “Cinco Vezes Favela (1962)” e “Bye Bye Brasil (1979)”.

Se até aquele período o Cinema Novo tentou dialogar com a sociedade utilizando as reflexões poéticas e existencialistas de seus personagens, como o jornalista Paulo Martins, de Terra em Transe (1967), em “O Bandido da Luz Vermelha” a tônica está na bestialidade do ladrão que tenta se matar com óleo diesel e um borrifador de venenos, no político que deseja a miséria do povo para ter o que mostrar ao estrangeiro, no amor esfacelado e traído e na incompetência de uma polícia tragicômica.

“Não há dúvida que Sganzerla e o Bandido representaram um rompimento pra frente e pouco igualado no cinema de hoje”

“Sganzerla deu prosseguimento às experiências do Cinema Novo, trazendo de volta à insatisfação que marcou nossos primeiros filmes. Depois do ‘Bandido da Luz Vermelha’, era difícil permanecer na boa consciência para a qual podíamos estar indo. Em vez de um cinema queixoso, ele fez um cinema inconformado”, ressalta Diegues. “O cinema dele nasce num momento em que a distância entre cultura erudita e popular, entre a academia e o pop, já está diminuída. Ele acabou de igualá-las”, completa.

Rogério Sganzerla morreu em 2004, aos 57 anos. Ainda assim, “O Bandido da Luz Vermelha”, que venceu o Festival de Brasília, em 1968, nas categorias de melhor filme, roteiro, figurino e montagem, segue como sua principal obra. Os encontros estéticos e técnicos propostos ali não encontraram diálogo na obra do próprio autor. “Não há dúvida que Sganzerla e o Bandido representaram um rompimento pra frente e pouco igualado no cinema de hoje”, assegura Diegues. “O Rogério tinha algo que é muito raro: ele era frequentado por um gênio. O gênio chegava e ele se entregava”, finaliza Bressane.

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