Matéria sobre manifestação dos skatistas publicada na Folha em 24 de junho de 1988. (Reprodução)

Histórias de quando era proibido andar de skate em SP

Os figurões da velha guarda Álvaro Porquê?, Rui Muleque, Jorge Kuge, Ratones e Luciano Kid contam suas memórias de quando andar no carrinho era caso de polícia.

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abr 13 2018, 11:00am

Matéria sobre manifestação dos skatistas publicada na Folha em 24 de junho de 1988. (Reprodução)

O chão liso, coberto e de dimensões amplas da marquise do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, já era pico perfeito para a prática do skate nos anos 1980. Uma pena que, bem nessa época, quando o skate brasileiro vivia o seu ápice de popularidade, um infeliz episódio mostrou como pode ser perigosa a delegação de poder. O então prefeito da cidade, Jânio Quadros, proibiu que se andasse de skate não só no parque, onde ficava a sede da Prefeitura, mas em toda a cidade. O motivo, dos mais banais, atrasou o lado de toda uma galera amante do carrinho: Jânio baniu o esporte hoje olímpico em 19 de maio de 88 irritado com skatistas andando próximos à janela de seu gabinete.

“O próprio Jânio Quadros, da janela de seu gabinete, onde tinha uma rampinha, aquelas de jump, que a gente colocou na parede do Ibirapuera, disse que ia proibir o skate”, relembra Álvaro Porquê?, skater das antigas.

Ele hoje conta com humor. “Três amigos e eu estávamos andando na parede. Aí eu olhei assim, pra janelinha do gabinete, e vi ele apontando pra mim", diz. "O Jânio tinha acabado de criar a Guarda Municipal. Os guardas vieram e confiscaram a minha rampa e os skates de todo mundo. Meu pai era advogado, e voltou lá com a gente para resgatar os skates e a rampa, pois aquilo era contra a lei. O prefeito então se enfezou e decidiu tornar lei.” Revoltados, os skatistas organizaram uma marcha sobre rodas no dia 23 de junho, com direito a faixas e megafone, com a presença de cerca de 200 participantes.

A marcha partia do metrô Paraíso com destino ao interior do Parque do Ibirapuera. Lá, os skatistas entregariam ao prefeito uma carta com mais de 6 mil assinaturas formalizando o pedido de revogação da proibição, bem como a construção de uma pista no local ou em outra área pública. A pequena massa, no entanto, foi barrada ao encontrar os portões fechados. “Isso foi uma afronta para nós skatistas”, relembra Rui Muleque.

“Resolvemos nos reunir. O programa Grito da Rua encabeçando o movimento, e saímos em passeata da Av. Henrique Schaumann até o Parque do Ibiraquera. Foi muito massa, toda aquela galera de skate fechando uma das principais avenidas de São Paulo em forma de protesto. Tínhamos certeza de que ele voltaria atrás e liberaria o parque para o skate", conta Muleque. "O tiro saiu pela culatra”.

Texto-legenda na capa da Folha de S. Paulo noticia a manifestação - 24 de junho de 1988 (Reprodução)

Jânio Quadros não dialogava com skatistas. Muito pelo contrário: em vez de liberar a prática ou construir uma pista, decidiu proibir o skate em todas as ruas da cidade. Um memorando enviado ao secretário municipal dos Transportes, o coronel reformado da PM Geraldo Penteado, solicitava a detenção de, segundo matéria da Folha de S. Paulo, “todos aqueles que praticarem esse esporte, no leito das ruas e nos logradouros públicos”.

“Da noite pro dia você já não podia mais andar de skate em nenhum lugar da cidade”, conta Muleque. “Eu e o Beto Or Die andávamos todo dia no Centro de São Paulo. Eu me sentia um criminoso, porque tinha que me esconder da polícia. Colava adesivo com os dizeres ‘Skate Não É Crime’ nos picos de skate, as delegacias com salas lotadas de skate até o teto. Era cômico, para não dizer trágico”.

O skatista Jorge Kuge acrescenta que, numa das das reuniões da ASSUAPI (Associação de Usuários e Amigos do Parque do Ibirapuera), ele e amigos apresentaram um projeto de pista de skate. O documento ficou tramitando por anos e acabou sendo arquivado. "A cidade de São Paulo levou anos para ter espaços públicos para a prática", diz Kuge. "A pista de São Bernardo do Campo era a única opção de skatepark pública do estado, inaugurada 14 de fevereiro de 1982”.

Chamada de capa da Folha sobre a proibição do skate. Edição de 25 de junho de 1988. (Reprodução)

Casos de polícia

Mais tarde, em 15 de agosto de 1982, o juiz titular da Vara Central de Menores, Valdir Augusto de Carvalho, exigiu: “Empenho no sentido de coibir a utilização de skate por menores, nas situações em que tal prática venha implicar riscos à integridade própria ou à de terceiros”.

Bastou isso para que o skate virasse caso de polícia. Tornaram-se comuns os conflitos e as perseguições nas ruas entre skatistas e a Guarda Municipal. É pertinente lembrar que o veto ao skate de Jânio Quadros foi o que teve mais cobertura, mas, entre 1975 e 79, o skate já havia sido proibido em São Paulo pelo fato do prefeito Olavo Egídio Setúbal considerar perigosa a prática nas ladeiras, modalidade popular do período.

Na opinião de Luciano Kid, o primeiro campeão brasileiro de street profissional, a perseguição ao skate pelas autoridades era um ato contra a cultura underground. “O que aconteceu na época foi simplesmente um ato político. Com toda a influência que o skate tinha na cultura, na moda, música e comportamento, atraiu uma grande massa de jovens sedentos por algo que desce motivação a eles num país tão escasso de recursos e diversão. Isto assustou a classe política da época”, analisa ele.

“Proibiram o skate por pura repressão moralista. Mas todo movimento jovem com boa finalidade acaba vencendo a repressão e até se unindo contra os poderosos. Hoje temos aí o espelho de tudo aquilo pelo que lutei”, conclui.

Na coluna à direita da página, notícia sobre a proibição do skate em São Paulo, na Folha. (Reprodução)

A origem do "Skate não é crime"

Em 88, uma feroz campanha foi iniciada pela revista Yeah!, que na capa da edição de número 10 lançou a frase em letras graúdas: “Andar de Skate Não É Crime”. O título fora traduzido de uma movimentação anterior que rolou nos anos 1970 nos Estados Unidos. “Os skatistas passaram a andar mais no bairro ou nas poucas skateparks da época, ou até mesmo ir para o interior, como Atibaia, que tinha pista, ou São Bernardo”, detalha o skatista e ilustrador Everaldo Marques, o Ratones, fundador do site Skate das Antigas. “Vale ressaltar que o skate no Ibirapuera já existia há muito antes, desde os anos 70, com os Ibiraboys, galera local da marquise”.

Ratones relata que eram costumeiros os casos de truculência na abordagem aos jovens nas ruas. “Foram muitas histórias de repressão", diz. "Vários amigos meus chegaram a ter seus skates confiscados pela polícia, obrigando o comparecimento dos pais à delegacia. Fui abordado várias vezes. Skatista, naquele momento, era visto como baderneiro, arruaceiro. Estávamos incomodando”.

Foi necessário a chegada de uma prefeita de 53 anos, nordestina, defensora da reforma agrária, marxista, solteira e tudo o mais imprevisível ao senso comum dos especialistas em política, para a revogação da primitiva Lei 25.871. Quando Erundina venceu Jânio em 15 de novembro de 88, ela já havia se comprometido com a causa dos skatistas. Um grupo de jovens a procurou pedindo apoio antes mesmo das eleições municipais. “Esta é uma reivindicação natural da juventude, uma disputa de espaço que tem sentido”, declarou ela à época, dando a sua palavra de que legalizaria o skate na maior cidade do país.

Erundina tenta andar de skate em 1990. (Arquivo Skate das Antigas)

Logo na primeira semana de mandato, ela não só liberou o skate como deu permissão aos ambulantes retornarem ao Centro. Erundina era tão boa praça que chegou até a tentar subir em cima de um skate, como mostra uma imagem clicada em 90, na reabertura do parque aos skatistas. “A prefeita que ama o skate”, deu na Folha da Tarde. “Acho que, por causa dessa minha cara de avó, acabei criando um vínculo muito forte com a juventude e as crianças. Então, os skatistas me pediram para liberar o Ibirapuera. Muita gente não gostou, mas eles adoraram. A partir daí começou o nosso amor com os skatistas da cidade”, declarou ela ao veículo.

“A Erundina conseguiu um bom número de votos dos skatistas”, elogia Ratones. Porém, critica: “Ela poderia ter feito algo a mais pelo skate, mas ficou somente na liberação. As marcas de skate comemoraram, só que por pouco tempo. No começo dos anos 90, houve uma reforma econômica que desestabilizou o mercado e a maioria das marcas fecharam suas portas”.

Ele se refere a uma medida do então presidente Fernando Collor, caso abordado especificamente no documentário Dirty Money (2010). “O mercado brasileiro de skate sofreu uma queda imensa, empresários foram para outros investimentos, e skatistas pararam ou tiveram que arranjar um trabalho paralelo a fim de manter o seu skate”.

Álvaro Porquê? dando um grind na transição do Museu da Aeronáutica, no Ibirapuera. (Arquivo pessoal do skatista)

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