Quem quer ser presidente

Goulart Filho: em memória do pai, a promessa de reformas de base

​Na série de apresentação dos presidenciáveis para 2018, a VICE conta a trajetória de João Vicente Goulart, candidato do PPL.​

por Fernando Cesarotti; ilustrado por Cassio Tisseo
17 Setembro 2018, 2:59pm

Ex-governadores, ex-senadores, ex-deputados, ex-ministros. Quase todos os presidenciáveis que concorrem nas eleições deste ano já privaram de alguma proximidade com o poder, mas nenhum deles foi mais íntimo de poder do que João Vicente Goulart, o candidato do PPL que, há 54 anos, foi obrigado a se exilar no Uruguai junto com o pai, João Goulart, o vice deposto pelo golpe militar que deixou o País quase três décadas sem eleições presidenciais.

“Não recordo aquela noite, mas de manhã já havia umas poucas malas arrumadas, carros e motoristas à espera na porta e uma agitação fora do comum, quase correria, para sairmos direto para o aeroporto. Lembro-me de que não foi possível levar alguns dos brinquedos que queríamos, como sempre fazíamos nas viagens ao Rio, a Porto Alegre ou a São Borja. Levávamos tudo o que queríamos, mas nessa viagem, não. Parecia uma viagem diferente. E seria diferente para sempre. (...) Ao sairmos da Granja do Torto, segundo minha mãe, estávamos deixando para trás pertences pessoais que nunca foram devolvidos – tais como quadros, lembranças, joias de minha mãe, que naquele momento não dispunha das chaves do cofre, bem como os carros particulares, dela e de meu pai, além de documentos privados e públicos. Era como se estivéssemos dando uma rápida saída para ir ao supermercado. Só que sem retorno”, escreve João Vicente logo no primeiro capítulo de seu livro Jango e Eu - Memorias de um Exilio sem Volta, publicado no ano passado, em que relata a trajetória do pai desde o golpe até sua morte, em 1976, na Inglaterra.

Jango, o pai, foi personagem fundamental na política brasileira do século 20. Embora fosse um rico proprietário de terras e criador de gado no Rio Grande do Sul, era visto como “comunista” por defender pautas como a reforma agrária e a nacionalização de empresas. Foi ministro do Trabalho de Getúlio Vargas e apontado como um de seus sucessores políticos, mas estava fora do governo quando Getúlio se suicidou, em 1954. No ano seguinte, foi eleito vice-presidente na chapa de Juscelino Kubitschek, que prometia modernizar o Brasil e fazê-lo se desenvolver “50 anos em 5” – os dois saíram juntos por uma coligação PSD-PTB, os dois partidos criados e abençoados por Getúlio logo após o Estado Novo, o PSD mais moderado em suas propostas progressistas e o PTB voltado à defesa dos trabalhadores.

Foi nessa época que nasceu João Vicente, primogênito do casal Jango e Maria Thereza, considerada então uma das mulheres mais belas do Brasil. Na eleição seguinte, em 1960, Jango saiu novamente candidato a vice. Juscelino, que havia acabado de inaugurar Brasília, indicou o marechal Henrique Lott, mas, apesar dos bons índices de aprovação do presidente, o discurso populista anticorrupção de Jânio Quadros, com direito ao “Varre Varre Vassourinha”, levou a melhor. Como a votação de vice era separada, Jango se elegeu, formando uma complicada parceria que durou bem pouco.

Em agosto de 1961, Goulart estava em viagem institucional à China quando Jânio apresentou sua carta de renúncia à Presidência, alegando “forças ocultas” que o impediam de governar. O episódio nunca ficou completamente esclarecido: há quem diga que Quadros queria pressionar o Congresso para governar com mais poderes, e “trucou” com a carta, esperando que os parlamentares pedissem sua permanência; e há quem defenda que foi apenas mais um ato tresloucado de um político estranho. O fato é que a renúncia foi aceita, Jânio deixou Brasília e estabeleceu-se uma confusão, com parte do Congresso e das Forças Armadas rejeitando a posse de Jango – ainda mais que ele, visto como esquerdista, estava na China.

Veio do Rio Grande do Sul, a terra natal de Goulart, o grande apelo: a “cadeia da legalidade”, liderada pelo então governador Leonel Brizola, casado com Neuza, irmã do vice-presidente, exigia o respeito à Constituição por meio de programas de rádio transmitidos por Brizola dos porões do palácio do governo gaúcho. A promessa era inclusive de pegar em armas para defender a posse de Jango. Houve ameaças de bombardeio ao palácio, que não se cumpriram.

No fim, como aconteceu várias vezes na história do Brasil, uma negociata determinou a adoção do parlamentarismo, com os poderes divididos entre o presidente João Goulart e o primeiro-ministro, Tancredo Neves, outro ex-ministro do governo Vargas, mas ligado a grupos mais conservadores. A situação se manteve até 1963, quando um plebiscito determinou o fim do parlamentarismo. Mas Jango teve pouca tranquilidade para governar e impor sua agenda que previa “reformas de base”, como a reforma agrária e a urbana, modificações no sistema tributário para taxar os mais ricos e limitação da remessa de lucros ao exterior por empresas estrangeiras. Reafirmou as promessas no famoso comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964, onde criou a Superintendência para a Reforma Agrária (Supra), que deixava terras em todo o país sujeitas à desapropriação.

O golpe foi uma questão de tempo, e Jango estava no Rio na madrugada de 1º de abril, quando a quartelada irrompeu. A família só se juntou no Rio Grande do Sul, e de lá foram para o Uruguai, onde permaneceram até 1973, quando os militares também assumiram o poder no país vizinho e Jango achou melhor a deixar a América do Sul em direção à Europa. Enquanto os pais se estabeleceram em Paris, o filho foi para Londres. João Vicente e sua esposa, Stella, foram estudar no Reino Unido e lá tiveram o primeiro filho, Christopher, que nasceu em 1976, dois meses antes da morte de Jango.

O ex-presidente se reunia constantemente com exilados na Europa, fazia denúncias sobre o regime militar e se preparava para voltar ao Brasil. Estava na Argentina quando morreu, em 6 de dezembro de 1976, oficialmente vitimado por um ataque cardíaco. Voltou ao Brasil somente para ser sepultado na São Borja natal. Em 2013, o corpo foi submetido a uma exumação para a verificação de denúncias de que Jango teria sido envenenado num conluio entre militares brasileiros, uruguaios e argentinos. O resultado foi inconclusivo.

João Vicente se estabeleceu então no Brasil e, com a redemocratização e o fim do bipartidarismo, tentou com o tio, Leonel Brizola, reconquistar a sigla PTB da era varguista, mas acabaram derrotados por Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio. Fundaram então o PDT, partido pelo qual Brizola se elegeu governador do Rio de Janeiro, em 1982, e que liderou até o fim da vida. João Vicente elegeu-se deputado estadual no Rio Grande do Sul, mas ocupou o cargo por apenas um mandato. Só voltou a ocupar cargos públicos no Rio: foi presidente do Iterj (Instituto de Terras do Rio de Janeiro) na gestão de Marcello Alencar (PSDB) e subsecretário da Agricultura no governo Anthony Garotinho, então no PDT.

Deixou a legenda em 2017, num imbróglio envolvendo o apoio do PDT ao governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB), que se recusou a autorizar a construção de um memorial dedicado ao pai. Filiou-se então ao PPL, legenda criada em 2009 e herdeira histórica do MR-8, um dos movimentos de resistência à ditadura militar.

Em sua campanha presidencial, Goulart Filho, como se inscreveu no TSE, reaviva o discurso do pai em nome das reformas de base – em entrevista à Folha, defendeu que grande parte dos projetos de Jango, inclusive as promessas que aceleraram sua derrubada, ainda não foram realizados. Promete também dobrar o salário mínimo nos quatro anos de mandato presidencial. No último Datafolha, não atingiu 1% das intenções de voto.

João Vicente Fontella Goulart
Formação: Bacharel em Filosofia pela PUC-RS.
Idade: 61
Patrimônio: R$ 8.591.035,79
Trajetória (partidos): PDT-PPL
Vice: Léo da Silva Alves (PPL)

Acompanhe as trajetórias de todos os presidenciáveis na série Quem quer ser presidente . Novos perfis toda segunda, quarta e sexta.

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