reportagem

Por que você deveria respirar e debater com um racista

Especialistas, incluindo um ex-supremacista branco, nos contaram o que você pode fazer para tentar mudar as (terríveis) opiniões de alguém.

por Manisha Krishnan; Traduzido por Marina Schnoor
18 Agosto 2017, 3:43pm

Arte por Noel Ransome

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Canadá .

Horas depois que seu filho, James Alex Fields de 20 anos, supostamente atropelou uma multidão de manifestantes antifas em Charlottesville no último sábado (12), matando uma garota, Samantha Blomm disse aos repórteres que "tentava ficar fora das visões políticas dele".

"Não falo com ele sobre suas visões políticas, então não entendia sobre o que era o protesto", ela disse à Associated Press, referindo-se à marcha Unite the Right organizada por nacionalistas brancos e neonazis. "Ele mencionou all bright? O que é isso?"

Quando os jornalistas a corrigiram e descreveram a alt-right como "organizações supremacistas brancas ultraconservadoras", Bloom respondeu: "Eu não sabia que era uma coisa de supremacistas brancos, eu sabia que tinha algo a ver com Trump. Trump não é um supremacista".

Mais tarde, notícias revelaram que Fields já tinha expressado publicamente admiração por Hitler no colégio. A manifestante morta no atentado, Heather Heyer, era uma assistente jurídica de 32 anos que lutava por igualdade.

Enquanto isso, na esteira de outros ataques horríveis, o pai de Peter Tefft — um dos supremacistas brancos fotografados na marcha — escreveu uma carta aberta renegando o filho e expressando remorso por sua própria falta de ação.

"Foi o silêncio de pessoas boas que permitiu que o nazismo crescesse da primeira vez, e é o silêncio de pessoas boas que está permitindo que isso volte agora" — Pierce Tefft

"Ficamos em silêncio até hoje, mas agora vemos que isso foi um erro. Foi o silêncio de pessoas boas que permitiu que o nazismo crescesse da primeira vez, e é o silêncio de pessoas boas que está permitindo que isso volte agora", escreveu Pierce Tefft.

Quando tragédias como Charlottesville acontecem, é natural que as pessoas reflitam sobre o que poderiam ou deveriam ter feito. Enquanto a maioria (espero) não tem pessoas na sua vida dispostas a pegar uma tocha, gritar abertamente "Judeus não vão nos substituir!" e defender os confederados, já observamos racismo casual ou descarado, às vezes nos nossos próprios círculos sociais e famílias. E muitas vezes deixamos de confrontar isso.

Mesmo já tendo ouvido pedidos para contrariam familiares e amigos racistas — para desafiar as visões intolerantes das pessoas — como fazer isso de um jeito eficiente em vez de simplesmente hostil?

Essa é uma questão difícil para mim. Ano passado, cortei laços com um amigo e um parente depois de entrar numa discussão explosiva sobre raça. Minha tendência, pela natureza do meu trabalho e da minha personalidade, é confrontar racistas de maneira agressiva.

Uma matéria publicada pela Vox em 2016 dizia que chamar um racista de "racista" não ajuda quando se trata de educá-lo. O texto cita um estudo de Stanford/Berkeley sobre transfobia, que descobriu que ter conversas curtas e francas pedindo que a pessoa se coloque no lugar de um trans era a maneira mais eficiente de ganhar simpatia. A matéria também dizia que chamar uma pessoa de racista pode fazer ela se agarrar ainda mais a suas crenças problemáticas.

Akwasi Owusu-Bempah, professor-assistente de sociologia da Universidade de Toronto, tem essas discussões o tempo todo. Ele disse à VICE que entre ser criado numa família racialmente mista na zona rural de Ontário e pesquisar relações de raça, ele aprendeu a colocar suas emoções de lado quando necessário.

"Fico extremamente nervoso com as coisas que leio e escrevo? Claro", ele disse. Mas, "quando tenho essas discussões sobre raça e desigualdade social, tento tê-las no estado menos emocionalmente carregado possível."

Owusu-Bempah reitera as descobertas do estudo mencionado acima.

"Acho que nessas situações em que é preciso confrontar alguém, xingar a pessoa provavelmente só vai piorar as coisas. Quando somos confrontados sobre nossas crenças de maneira agressiva, geralmente tendemos a fincar o pé na nossa posição", disse o professor. Isso não quer dizer que não devemos denunciar racismo pelo que ele é; pelo contrário, ele reforçou que responsabilidade é especialmente importante em lugares como o Canadá, que acreditam no mito de que vivemos numa utopia pós-racial, que somos melhores que os EUA.

"Ainda há muita gente que não acha que racismo é um problema nessas sociedades."

Apesar de acreditar que está "certo", Owusu-Bempah disse que tenta pelo menos entreter as ideias de pessoas com visões opostas as dele quando envolvido num diálogo. E mesmo que a possibilidade de mudar a mente da outra pessoa possa não ser realista, ele disse que o objetivo é apenas "abrir os olhos dela para uma realidade diferente".

No final de semana passado, a ativista contra assédio sexual Julie Lalonde tuitou sobre os desafios de falar com pessoas brancas pobres sobre ideias como supremacia branca e privilégio branco. Ela disse à VICE que é "de longe" a pessoa com mais educação formal de sua família da zona rural de Ontário.

"Meus parentes moram num estacionamento de trailers e têm ensino médio na melhor das hipóteses", ela disse. "Sempre é delicado para mim, porque me mudei para uma cidade grande e tive uma educação privilegiada."

No entanto, ela aponta que não vai deixar seus familiares "caipiras" dizerem o que quiserem, mas que tenta conversar no mesmo nível deles. Isso significa não bombardeá-los com linguagem elitista ou os deixar ressentidos.

"Você tem que ir devagar", Lalonde disse, descrevendo uma parente que é "tranquila sobre 95% das questões, mas tem visões bastante intensas sobre indígenas".

Essa parente apoia Lalonde em seu trabalho com assédio sexual, pelo qual ela sente empatia. Então, em resposta a comentários racistas, Lalonde diz coisas como: "Quando diz coisas assim, você está criando uma cultura que não valoriza essas mulheres e depois fica horrorizada quando elas são assassinadas".

Lalonde disse que passou boa parte de um churrasco em família desafiando um tio, simpatizante do Movimento de Direitos dos Homens, que se recusava a acreditar em coisas como desigualdade de salário entre homens e mulheres e que achava que mulheres mentem sobre estupro.

"Ficamos umas três horas debatendo... fiz muitas perguntas. Eventualmente ele acabou embaraçado em suas próprias contradições."

Em alguns casos, você precisa dar um ultimato à pessoa ou cortar suas perdas.

Lalonde disse a um amigo que estava "até o pescoço lendo o Breitbart e a Rebel Media", que ele não era mais bem-vindo à casa dela se continuasse repetindo ofensas islamofóbicas. Ela disse que ele não falou mais nisso, mas não sabe se ele apenas se censura quando está perto dela.

Quando se trata dos profundamente doutrinados — como nazistas de verdade — ter algumas conversas francas provavelmente não vai fazê-los mudar de ideia.

Brad Galloway é um ex-nacionalista branco. O morador de Vancouver de 37 anos foi membro do Volksfront quando tinha 20 e poucos, uma organização extinta que queria fazer uma sociedade segregada apenas para brancos.

Mesmo agora, com Galloway fazendo discursos públicos e um trabalho de abordagem para combater o extremismo branco, ele parece desconfortável entrando em detalhes sobre a ideologia racista do grupo a que já foi afiliado.

"Aquele tipo de grupo era baseado numa ideia de uma sociedade separada, não tanto em racismo", ele disse. Mas quando pressionado, ele admitiu que a sociedade idealizada seria de pessoas brancas de descendência europeia.

"É racismo, mas não num nível KKK, não falávamos em matar pessoas."

Galloway disse que se voltou para o Volksfront para encontrar camaradagem, e que não acreditava nos aspectos mais racistas da organização. Mesmo dizendo que diálogo intervencionista "pode ter ajudado" a mudar sua mente na época, o grande ponto de guinada foi quando ele teve um filho.

"Você não pode ensinar esse tipo de coisa para uma criança", ele disse, apontando que estava irritado com a negatividade constante que anda lado a lado de, bom, odiar pessoas. "Você não pode viver com essa coisa de 'Odeio tudo isso' pra sempre."

Mas Galloway enfatiza que levou anos para processar e superar esse tipo de pensamento. E que a pessoa precisa estar muito disposta a passar por isso.

"A pessoa precisa ter essa sensação de urgência em superar quaisquer que sejam suas crenças ou ideologias negativas." Hoje ele trabalha com jovens que podem se ver na mesma situação em que ele já esteve, e disse que tenta ouvir e ajudá-los a encontrar algo positivo em que investir.

É importante notar que fomentar esse tipo de conversa dá trabalho. É pesado em termos de comprometer seu tempo e energia mental e emocional. Por isso o ônus de tentar fazer uma ponte entre essa divisão não deve ficar apenas sobre os ombros de pessoas não-brancas. Os brancos também precisam intervir.

"Não teríamos chegado até aqui se as pessoas fossem completamente incapazes de mudar de ideia."

Lalonde disse que como mulher branca, ela sente que as pessoas acham que podem fazer comentários racistas perto dela. Elas supõem que ela não vai se importar. Mas deixar apenas para não-brancos confrontar esses incidentes "significa que a pessoa sendo oprimida tem a responsabilidade de resolver a confusão", ela disse. Isso é evitar a responsabilidade.

E mais, em questões de raça, pessoas brancas têm mais chance de alcançar outros brancos porque não são vistas como agindo em interesse próprio. (Pela mesma razão, homens devem ser mais ativos em confrontar o machismo.)

E por mais desconfortável que isso possa ser, confrontar amigos e familiares é provavelmente o melhor jeito de ter um impacto real, porque já existe um relacionamento. Você está confrontando um comportamento escroto deles, sem necessariamente atacá-los como pessoa.

Sim, esse não é um problema com uma solução fácil, mas a ideia de simplesmente desistir é incrivelmente desmoralizante.

"É muito deprimente achar que você não pode mudar a mente das pessoas quando se trata de racismo, homofobia ou misoginia", disse Lalonde. "Não teríamos chegado até aqui se as pessoas fossem completamente incapazes de mudar de ideia."

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