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Conheça a InfoPreta, a assistência técnica para mulheres negras de baixa renda

Batemos um papo com Buh D'Angelo, a fundadora da empresa que luta por prestar serviços tecnológicos de qualidade a um preço justo.​

por Bruno Costa
18 Novembro 2016, 3:30pm

Cercada por fios, cabos, HDs, máquinas, mais máquinas, drones, impressora digital e centenas de aparatos tecnológicos, a sede da recém-reformulada InfoPreta, dentro do espaço colaborativo Mirante LAB, em São Paulo, funciona a todo vapor.

Há um ano, a empresa se destaca por prestar serviços de assistência técnica e social para mulheres negras e de baixa renda, mas foi só nos últimos meses, graças à extensa campanha nas redes sociais de sua fundadora, Buh D'Angelo, uma guarulhense negra de 22 anos, que o negócio ganhou maior atenção.

"Sou da área de hardware da indústria, fui para a área de software e, mesmo assim, é uma área escassa de emprego, principalmente para a pessoa negra, principalmente mulher", diz Buh, no escritório localizado no centro da capital paulista. "E eu não sou nada padrão, sou uma pessoa bem diferentinha. E aí nunca me contrataram."

Hiperativa, multitarefa e autodidata, Buh conta que montou a própria empresa depois de trabalhar cinco anos na assistência técnica para indústria e domicílios criada por ela, a K ED. O novo rumo, diz, se deu devido ao entendimento sobre como a mulher negra e pobre é tratada. Buh quis dar novos ares e chances àqueles que têm mais dificuldades a aproveitar as exíguas oportunidades ofertadas.


Crédito: Pétala Lopes/Coletivo Amapoa/VICE

A InfoPreta, afirma sua idealizadora, surgiu para falar de tecnologia com a mulher negra de igual para igual. Sem prevalecer a linguagem técnica da área e sem desmerecer o conhecimento leigo de quem pede salvação imediata para recuperar um computador. A função é simples: prestar um serviço de qualidade e cobrar um preço justo.

Por dia, são atendidos entre 10 a 15 clientes, de toda região metropolitana de São Paulo e além de clientes de outro estados, que entram em contato via site ou página do Facebook delas. Eles agendam um horário para o equipamento ser analisado e depois o preço e prazo de entrega fica a critério da necessidade do reparo. Muitas vezes Buh consegue restaurar e entregar de imediato.

A relação convidativa entre a InfoPreta e os clientes deu origem ao canal da InfoPreta no Youtube e no Facebook, uma extensão digital para explicar os mais comuns bugs e falhas dos eletrônicos e sistemas operacionais. Em um dos vídeos, Buh diz que encontrou um pedaço generoso de plástico bolha dentro de um notebook depois de reparo feito na Santa Ifigênia, centro de eletrônicos e pirataria de São Paulo. Até então, a cliente não sabia o porquê que o computador esquentava tanto.


Crédito: Pétala Lopes/Coletivo Amapoa/VICE

E não é só de consertos e dicas online que o espaço vive. Além do atendimento ao público, muitas clientes retornam para baterem um papo, trocam receitas, fazem parcerias, novas amizades, dão dicas de remédios. "Rola até cafetão oferecendo imóvel", confessa Buh.

A fundadora do InfoPreta admite que, mesmo quebrando todos os padrões e superando todo dia os preconceitos, algumas clientes ainda demonstram desconfiança por serem atendidas por uma negra. "Nada mudou e nada está melhor. As pessoas continuam subjugando e os negros lutam para sobreviver. Se você pessoa negra não luta, ninguém vai te ajudar. Possibilidade não leva comida na mesa."

Fora os serviços comerciais, a InfoPreta mantém projetos que beneficiam as mulheres negras e estudantes da comunidade carente da Grande São Paulo. A campanha Notes Solidários, por exemplo, distribui notebooks repaginados aos estudantes negros e de baixa renda do ensino superior. Cada computador é dado conforme a necessidade e demanda do curso do aluno. Outra ação é a Mães do ENEM, em que a InfoPreta prepara as estudantes para o Exame Nacional do Ensino Médio, oferece creche aos filhos das estudantes no dia de aplicação do exame e dá um notebook a quem passar no exame.


Crédito: Pétala Lopes/Coletivo Amapoa/VICE

Além das clientes e outros condôminos do histórico Mirante do Vale, Buh trabalha rodeada das estagiárias que mantém dupla jornada, a sócia Fernanda Lira, o DJ e colaborador Michael Nicassio e os criadores do Mirante Lab, que são os apaixonados por drones e inclusive apareceram aqui no Motherboard na corrida que rolou em São Paulo recentemente. Contudo, a InfoPreta está de mudança, e seu novo espaço ficará no próprio Mirante, só que em andares acima ou abaixo do atual 30º andar.

Mesmo sem parar de fazer os reparos e consertos, nos despedimos e Buh fez questão de deixar a porta aberta e o convite para voltar sempre que precisar. Nem que seja para tomar um chá e comer um pedaço de bolo. Saímos convictos de que a InfoPreta cumpre um papel muito além da simples assistência técnica. É uma luta constante para abraçar as minas e manos, negros e brancos, pobre e ricos e mostrar que a informação e o acesso são direitos de todos.

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