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Identidade

O governo populista da Polônia declarou guerra à comunidade LGBTQ

“Pessoas que parecem o estereótipo queer ou gay estão sendo atacadas nas ruas, quase todo dia.”

por Tim Hume; Traduzido por Marina Schnoor
02 Setembro 2019, 12:47pm

Pessoas se reuniram para mostrar apoio à comunidade LGBT e solidariedade à marcha pelos direitos LGBT que foi atacada por extremistas na cidade de Bialystok. Palácio da Cultura e Ciência em Varsóvia, Polônia, 27 de julho de 2019. Demonstrações semelhantes de solidariedade foram realizados em outras cidades polonesas. (Foto AP / Czarek Sokolowski

Tinha drag queens e bandeiras de arco-íris, danças e gritos de “Ame todo mundo”. Mas a primeira Parada do Orgulho Gay na cidade polonesa de Bialystok em julho acabou sendo mais um pogrom que uma festa.

Milhares de espectadores que se aglomeraram na rota da parada em 20 de julho não eram aliados LGBTQ, mas um grupo hostil de hooligans, ultranacionalistas e católicos linha-dura que se juntaram para mostrar aos participantes da festa que eles não eram bem-vindos.

Em menor número, cerca de um para quatro, os mil participantes da parada foram atacados e aterrorizados, receberam ameaças de morte, foram atingidos com fogos de artifício, pedras e garrafas, algumas cheias de urina. Um grupo de homens foi filmado batendo e chutando um adolescente de cabelo verde, gritando “Sai daqui, pedófilo”.

“Nunca tive tanto medo na vida”, disse Jakub Przybysz, estudante de medicina de 26 anos que foi atingido no cotovelo por um paralelepípedo. “Nunca experimentei ódio homofóbico nessa escala antes.”

A violência que Przybysz e seus colegas experimentaram naquele dia foi resultado de uma onda sem precedentes de homofobia que está varrendo a Polônia este ano, gerada pelo governo nacionalista do país e apoiada por facções intolerantes da Igreja Católica.

“Vi olhos aterrorizados, lágrimas, medo, desespero”, disse Przybysz. “Levei várias semanas para lidar com esse trauma. Ainda estou trabalhando nisso, como muitos dos meus amigos.”

Grupos de defesa de direitos gays, políticos de oposição e o comissariado de direitos humanos independente do país disseram que o Lei e Justiça – o partido populista de direita que governa a Polônia desde 2015 – tornou atacar a comunidade LGBTQ uma parte central de sua plataforma antes das eleições parlamentares em outubro, retratando os direitos gays como uma ideologia perigosa e alienígena que ameaça a tradicional família católica polonesa.

“Tem uma grande campanha política acontecendo, e fomos escolhidos como bode expiatório pelo partido da situação”, disse Ola Kaczorek, presidente do Amor Não Exclui, um grupo ativista por igualdade de casamento.

Poland LGBTQ rights
A polícia usa gás lacrimogêneo contra um grupo de homens que estava tetando bloquear a primeira parada LGBT na cidade de Bialystok, Polônia, em 20 de julho de 2019. (AP Photo)

A tentativa cínica de ganhar votos conservadores teve um impacto real muito além dos salões do governo, dizem ativistas, com a retórica de ódio estimulando fanáticos a ameaçar, assediar e atacar LGBTQ com uma sensação de impunidade. Violência homofóbica não é considerado crime de ódio na Polônia, significando que a polícia não registra dados de ataques contra LGBTQ. Mas grupos de ativistas dizem que estão observando um pico nos relatos de violência e intimidação, alimentando sentimentos de insegurança nas minorias sexuais da Polônia.

“Pessoas que parecem o esteriótipo queer ou gay estão sendo atacadas nas ruas, quase todo dia”, disse Kaczorek. “Em lugares como Bialystok ou Lublin, as pessoas não se sentem seguras.”

“O governo despertou o ódio que já estava aqui”, ela disse.

Uma “praga do arco-íris”

Direitos LGBTQ eram tradicionalmente uma questão periférica na Polônia católica e conservadora. Mas com o partido Lei e Justiça fazendo uma campanha contra a suposta ameaça da “ideologia” LGBTQ, esses direitos se tornaram tema de um debate público fervoroso.

“O Lei e Justiça está retratando ativistas LGBT como uma ameaça aos valores tradicionais poloneses”, disse Robert Biedron, o primeiro parlamentar abertamente gay da Polônia, que agora é parte do Parlamento Europeu, a VICE News.

Os comentários estão vindo de todos os níveis do Lei e Justiça, que é acusado de abastecer uma onda perigosa de nacionalismo nos últimos anos.

(O partido não respondeu aos pedidos da VICE News de comentários.)

O líder do Lei e Justiça, Jaroslaw Kaczynski, abordou o tópico pela primeira vez numa convenção em Varsóvia em fevereiro, descrevendo os pedidos de mais direitos LGBTQ como um “grande perigo” e “um ataque conduzido da pior maneira possível, porque é basicamente um ataque contra as crianças”.

Poland LGBTQ rights
Jaroslaw Kaczynski, chefe do partido da situação da Polônia, numa entrevista coletiva em Varsóvia em 8 de agosto de 2019. (AP Photo/Czarek Sokolowski)

Desde então, Kaczynski e seus colegas vêm lançando um ataque após o outro. Em abril, ele disse que “movimentos LGBT e de gênero ameaçam nossa identidade, nossa nação, ameaçam o estado polonês”; no começo do mês passado, ele condenou paradas de orgulho LGBTQ como um “teatro itinerante” pensado para provocar e causar danos.

O partido também tem um poderoso aliado: a Igreja Católica. No começo de agosto, Marek Jędraszewski, arcebispo de Cracóvia, disse numa homilia que o país está sob ameaça de uma “praga do arco-íris”.

Governos de direita locais também se juntaram à guerra cultural do Lei e Justiça, com mais de 30 administrações declarando seus distritos como “livres de LGBTQ”.

O governo tem usado a mídia estatal para levar sua agenda homofóbica ao ar, tornando isso uma parte inescapável do diálogo nacional.

“Essa é uma batalha injusta, porque a comunidade LGBT+ tem que encarar não só o partido da situação como a Igreja Católica, e o poder da televisão pública”, disse Mateusz Sulwiński, porta-voz do Stonewall Poland, a VICE News. “Quase todo dia tem uma matéria sobre sermos doentes, depravados e que queremos corromper as crianças.”

Uma publicação pró-governo, a revista conservadora Gazeta Polska, até distribuiu adesivos “zona livre de LGBT” com sua edição do mês passado, fazendo a embaixadora americana na Polônia, Georgette Mosbacher, alertar que os adesivos promoviam o ódio e a intolerância.

“Quase todo dia tem uma matéria sobre sermos doentes, depravados e que queremos corromper as crianças.”

As tentativas de provocar uma guerra cultural contra os direitos LGBTQ parece ser uma peça-chave para conseguir os votos dos conservadores na eleições parlamentares de 13 de outubro.

“Isso está ligado principalmente as eleições”, disse Adam Bodnar, comissário de direitos humanos da Polônia.

Para o governo, a comunidade LGBTQ representa um alvo fácil num país onde as atitudes para relacionamentos do mesmo sexo estão bem atrás de países mais liberais do Ocidente.

Ativistas dizem que mesmo que o status da comunidade LGBTQ na Polônia tenha melhorado nos últimos 10 ou 15 anos, particularmente em áreas mais cosmopolitas, atitudes homofóbicas predominam em muitas partes do país. Casamento gay continua ilegal e parcerias entre pessoas do mesmo sexo não são legalmente reconhecidas. Essa realidade rendeu a Polônia a segunda pior posição entre os 28 estados da União Europeia em se tratando de igualdade e tolerância, segundo a organização de direitos gays Rainbow Europe.

Nesse ambiente, segundo Bodnar, a agitação do governo em questões LGBTQ foi calculada para agradar a base conservadora do partido. Atiçar a guerra cultural contra direitos LGBTQ também é uma distração para problemas mais desafiadores do partido da situação – como acesso a saúde pública ou educação – e criou uma armadilha para políticos de oposição que apoiam os direitos gays mas não querem ser definidos apenas por essa questão.

Velha tática, novo alvo

Bodnar e outros dizem que enquanto o nível da retórica homofóbica é sem precedentes na política polonesa, o uso do Lei e Justiça de uma minoria marginalizada como bode expiatório vem direto da cartilha política deles.

“É a mesma tática que foi usada contra refugiados, só que com um bode expiatório diferente.”

Em 2015, no auge da crise de migração na Europa, o Lei e Justiça foi eleito nas costas de uma plataforma estridente anti-imigração, se posicionando como os defensores mais firmes da Polônia contra uma onda de imigração muçulmana – que seria culpa de políticos liberais da Europa Ocidental.

A retórica demonizante do partido – Kaczynski disse que refugiados do Oriente Médio trariam “parasitas” e doenças para o país – acabou desencadeando uma onda de nacionalismo xenofóbico, impactando principalmente a pequena população muçulmana polonesa, estimada em apenas 40 mil pessoas num país com 38 milhões de habitantes.

Mas isso rendeu um grande sucesso para o Lei e Justiça, mandando o então partido de oposição para o governo com a maioria das cadeiras, a primeira vez desde a queda do Comunismo que um partido polonês conseguiu fazer isso.

“É a mesma tática que foi usada contra refugiados, só que com um bode expiatório diferente”, disse Kaczorek do Amor Não Exclui. A diferença agora, ela acrescentou, é que enquanto quase não há refugiados na Polônia – o Lei e Justiça se recusou a aceitar sua cota de refugiados proposta num acordo da UE – pessoas LGBTQ são uma minoria visível em toda cidade do país.

O mais preocupante, disseram observadores, é que a estratégia parece estar funcionando. O Lei e Justiça deve continuar no poder, com um mandato para consolidar ainda mais seu projeto de remodelar a sociedade polonesa à sua imagem nacionalista e intolerante. E muitos ativistas temem que quando a campanha acabar, o gênio da homofobia não possa ser simplesmente colocado na lâmpada de novo.

“Não vamos desistir de lutar pelos nossos direitos só porque algumas pessoas dizem que não temos o direito de viver neste país.”

Mas enquanto os ataques contra a comunidade LGBTQ empoderaram os intolerantes da Polônia, eles também estão trazendo aliados, fazendo com que os poloneses liberais demonstrem sua solidariedade. A comunidade prometeu não se curvar a intimidações; enquanto paradas do orgulho gay eram uma raridade fora de cidades grandes como Varsóvia, Cracóvia e Poznań, este ano contou com um número recorde de cerca de 30 paradas sendo realizadas por todo o país.

“Não acho que o Lei e Justiça vai perder essas eleições, mas vamos continuar com nossos planos mesmo assim”, disse Kaczorek.

“Vamos fazer o melhor possível para mostrar ao poloneses quem realmente somos, e que não somos uma ameaça. Não vamos desistir de lutar pelos nossos direitos só porque algumas pessoas dizem que não temos o direito de viver neste país.”

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Tradução do inglês por Marina Schnoor.