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A Amazônia já foi uma história de sucesso humano. E pode ser de novo

Por milênios, práticas indígenas melhoraram a biodiversidade, fertilidade e a capacidade de captação de carbono da região mais biodiversa da Terra.

por Becky Ferreira; Traduzido por Marina Schnoor
10 Setembro 2019, 5:16pm

Uma área de floresta queimada em Altamira. Imagem: JOAO LAET/AFP/Getty Images.

Uma temporada de queimadas intensas causadas por humanos na Floresta Amazônica destruiu milhares de quilômetros quadrados de mata, escureceu os céus de São Paulo, e desencadeou preocupação internacional sobre o destino da paisagem mais biodiversa do planeta.

Milhares de incêndios florestais foram iniciados deliberadamente por humanos na Amazônia nos últimos meses, tornando a destruição da floresta num fenômeno puramente antropogênico instigado pelo regime de extrema-direita do presidente Jair Bolsonaro. Para alguns, isso pode fazer parecer que a presença de pessoas na Amazônia está inexoravelmente ligada à ruína da floresta. Mas esse ponto de vista negligencia o passado mais profundo, e muito humano, da floresta. Para restaurar a Amazônia para o futuro, será essencial olhar para esse passado, e o papel persistente da humanidade nele, como um guia.

Nos últimos anos, cientistas acumularam muitas evidências demonstrando que a Amazônia foi moldada pelas pessoas muito antes dos colonizadores europeus colocarem os pés no continente. Povos indígenas, que chegaram na floresta tropical há pelos menos 10 mil anos, alteraram a paisagem ecológica do bioma numa escala em grande parte não reconhecida, a transformando num importante purificador de ar para a atmosfera da Terra.

“Há tempos a Amazônia é entendida como um espaço 'natural' ocupado principalmente por floresta virgem”, disse Helena Pinto Lima, pesquisadora e curadora de arqueologia do Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém, por e-mail. “Esse mito de uma floresta imaculada tem cegado muita gente para o que cada vez mais está se mostrando ser uma paisagem cultural.”

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Imagem de satélite das queimadas em 20 de agosto 2019. Imagem: NASA

Em contraste com a devastação moderna da floresta, populações antigas criaram uma Amazônia mais biodiversa e fértil ao longo de incontáveis gerações. Arqueólogos mal começaram a desembaraçar os mistérios dessa complexa civilização pré-colombiana, mas evidências recentes sugerem que a Amazônia era povoada por muitos milhões de pessoas antes da chegada dos Europeus.

Populações indígenas amazônicas foram dizimadas por doenças e genocídio na esteira da colonização europeia, além de horríveis surtos de violência nos séculos subsequentes. Algumas populações estão começando a se recuperar nas últimas décadas, e cerca de um milhão de indígenas vivem na Amazônia legal hoje. Alguns grupos têm milhares de pessoas, como os Guajajaras ou Ticunas, mas também há comunidades de apenas 100 indivíduos, segundo o Instituto Socioambiental, um centro de direitos e pesquisa indígenas em São Paulo.

Algumas tribos continuam isoladas e sem contato na floresta. Mesmo aquelas que estabeleceram uma forte conexão social com comunidades não-indígenas muitas vezes continuam as práticas tradicionais de seus ancestrais. Enquanto a floresta certamente existia quando os primeiros povos indígenas se assentaram nela, muita da exuberante vida selvagem e poderes de captação de carbono da Amazônia são um resultado direto dessas tradições, que incluem domesticação de plantas, queimadas controladas e enriquecimento do solo.

“O que estamos vendo com a Amazônia não é uma questão de 'cultura versus natureza', mas sim uma disputa entre dois modos diferentes de ocupação humana”, disse Gabriel Soares, doutorando em antropologia no Museu Nacional do Brasil no Rio de Janeiro.

“Um produziu, ao longo de milhares de anos, esse bioma extremamente diverso que contribuiu imensamente e de muitas maneiras para a habitabilidade do planeta”, ele continuou. “O outro, que causa os incêndios que estamos vendo, podem ter um impacto negativo gigantesco no planeta como um todo.”

Cientistas têm reconstruído parte da história antropogênica antiga da floresta pesquisando espécies de plantas locais em milhares de sítios arqueológicos. Um estudo de 2017 publicado na Science descobriu que plantas domesticadas por populações indígenas – como a castanha-do-pará, a inajá e o cacaueiro – eram cinco vezes mais abundantes perto desse antigos assentamentos.

“Quanto mais perto de um sítio arqueológico, mais chances há de que terreno tenha uma alta abundância e riqueza de árvores e palmeiras frutíferas”, disse Charles Clement, um biólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia em Manaus.

Muitas plantações preferidas das populações indígenas são particularmente aptas para sugar carbono da atmosfera. Um estudo estimava que a árvore da castanha-do-pará, que pode atingir 48 metros de altura e viver mil anos, contém 1,3% do carbono da floresta em si.

As implicações desse processo de domesticação transcendem gerações e se desenrolaram por milhares de anos, criando um bioma que estoca carbono que é um baluarte essencial dos esforços para mitigar a crise climática. Castanha-do-pará, palmeiras e outras plantações ajudaram a nutrir a biodiversidade sem paralelos da Amazônia, enquanto as frutas e nozes abriram novos nichos para espécies de vida selvagem nativas.

“A Floresta Amazônica pode ser considerada um patrimônio natural e cultural da humanidade de importância global, porque a floresta tem um legado de suas interações com os humanos e muitas outras espécies”, disse Carolina Levis, ecologista da Universidade Federal de Santa Catarina em Florianópolis.

Um exemplo importante do impacto de povos indígenas na Amazônia é a terra preta, um tipo de solo criado por milênios de habitação humana, que em parte é um subproduto de biomassa queimada. Quando depositada junto com composto, adubo, lama e biomassa morta gerada por antigos assentamentos, a mistura carbonizada enriquecia o solo amazônico com nutrientes.

Levis enfatiza que há uma grande diferença entre as técnicas modernas de “desmatamento e queimada” que estão dizimando a Amazônia e as práticas de queimada controlada usadas por populações indígenas para gerenciar o ambiente da floresta e produzir terra preta.

“Precisamos diferenciar uso ilegal de fogo para abrir espaço para agronegócio e outras atividades agrícolas de larga escala do fogo controlado tradicional para atividades diversas locais”, ela explicou. “Temos muito a aprender com sociedades indígenas que desenvolveram práticas tão sofisticadas de gerenciamento de fogo sem causar um desmatamento em larga escala.”

Métodos indígenas tendem a envolver criar pequenos fogos a partir de biomassa de plantas que são cobertos com terra ou palha e rotacionados em diferentes partes do terreno a cada temporada. Essa abordagem não só reduz o risco de incêndio descontrolado, ela também captura metade da biomassa de carbono no solo, o que evita a liberação de gases-estufa. Um estudo de 2006 sugeria que até 12% das emissões de carbono causadas por humanos poderiam ser compensadas trocando a técnica de “desmatar e queimar” pela técnica antiga.

Terra preta, além de beneficiar o clima, também é considerada um dos solos mais ricos da Terra, e beneficiam agricultores até hoje.

“Hoje as pessoas procuram por esse tipo de solo para a agricultura”, disse Eduardo Góes Neves, arqueólogo da Universidade de São Paulo, por telefone. “Ele é muito produtivo e tem algo que é muito interessante para os trópicos – ele é estável. Ele não se esgota, não perde nutrientes.”

Esse é um exemplo impressionante de tradições locais produzindo benefícios globais. Infelizmente, muitos dos sítios antigos que mostram sinais fortes de influência indígena estão localizados no sul da Amazônia, que agora está passando por um tipo muito diferente de transformação antropogênica: rápido desmatamento e grandes incêndios.

“As queimadas na Amazônia agora estão precisamente nas áreas que têm florestas muito antropogênicas”, apontou Clement.

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Mapas dos incêndios florestais, 15-22 de agosto de 2019. Imagem: Joshua Stevens/NASA

A maioria das queimadas foram iniciadas para limpar espaço para fazendas, criação de gado e outras formas de extração de recursos. Enquanto esse processo se repete todo ano na Amazônia, a temporada de 2019 tem sido particularmente intensa porque Bolsonaro se recusa a aplicar leis de proteção ambiental. Como resultado, o desmatamento acelerou a temporada de queimada, o que exacerbou o desastre resultante.

“Durante a campanha de Bolsonaro e os primeiros sete meses de sua administração, ele deixou claro que esse tipo de atividade ilegal é aceitável na Amazônia”, disse Clement.

O mais trágico, essa devastação coloca uma ameaça existencial para as mesmas culturas indígenas cujas práticas tradicionais enriqueceram tanto a floresta.

Esses riscos para as vidas, terras e sustento indígena não são inesperados, considerando que Bolsonaro fez uma campanha abertamente hostil aos direitos das comunidades que moram na floresta.

“Bolsonaro tem uma reputação horrível no mundo e merece isso, porque ele é uma pessoa horrível”, disse Neves. “Se tem alguma coisa boa nisso tudo, é nos mostrar que quando caras como ele tomam o poder, esse é o mundo em que vamos viver. Não há nada relacionado com construção, compaixão ou pensar no futuro. Só destruição.”

Críticas a Bolsonaro, tanto dentro como fora do Brasil, colocaram uma pressão desconfortável sobre a administração dele. Bolsonaro ficou tão indignado com a resposta negativa que mencionou uma história, sem provas, de que ONGs estariam por trás das queimadas.

Esse tipo de ação joga com teorias da conspiração paranoicas que distorcem os motivos por trás de parcerias entre organizações de conservação e grupos indígenas. A tentativa de enlamear as águas com desinformação foi refletida por uma apresentação do governo vazada que argumentava pela construção imediata de megaprojetos, como rodovias e pontes, para contornar esforços internacionais de proteção da Amazônia.

Na verdade, grupos de conservação muitas vezes defendem o empoderamento de povos indígenas – não só no Brasil, mas no mundo – porque há um grande corpo de evidências ligando práticas indígenas a resultados melhores de conservação.

“Investindo em comunidades indígenas para desenvolver seus próprios planos de gerenciamento de recursos naturais é vital para mitigar esse caos na maior floresta tropical da Terra”, disse Alex Antram, gerente de conservação da Rainforest Trust, uma organização americana que protege mais de 23 milhões de acres de floresta tropical no mundo todo.

Essas parcerias são complicadas pelo sistema de gerenciamento caótico na Floresta Amazônica, que é cheio de grilagem e esquemas de especulação de terras. Quando combinadas, todas essas forças colocam as comunidades amazônicas em perigo, não só pelas queimadas, mas com ataques físicos e assassinatos.

“Por causa da política atual, houve um aumento da violência, especialmente em fronteiras de expansão de agricultura e extrativismo”, disse Lima.

Muitos povos indígenas, e grupos que os apoiam, esperam que o foco internacional nas queimadas na Amazônia renovem os esforços para proteger a demarcação de territórios indígenas. Preservar a Amazônia também depende de leis ambientais mais fortes e implementação de terras indígenas e gerenciamento florestal em larga escala.

“Dizemos não para a mineração nas nossas terras, não ao desmatamento”, disse O-É Kaiapo Paiakan, membro de um grupo indígena do Xingu, num vídeo recentemente postado pelo Instituto Socioambiental. “Chega de invasões e desrespeito. Chega de pesticidas nos nossos rios e comida. Chega de queimadas criminosas na floresta. Estamos com vocês, pela Amazônia.”

Neves tinha acabado de voltar da Amazônia quando nos falamos, e viu os efeitos chocantes do desmatamento e queimadas de perto. No entanto, ele também se sente encorajado por como o desastre está juntando os brasileiros para apoiar a preservação natural e cultural da floresta.

“Vi muita destruição e fogo, principalmente no sudoeste da Amazônia, mas também vi muita gente fazendo coisas maravilhosas como agroflorestas, ou povos indígenas se tornando politicamente mais fortes e fazendo suas vozes serem ouvidas”, apontou Neves.

“Povos indígenas são as pessoas que podem nos mostrar o caminho para ter essa floresta maravilhosa de volta”, ele disse. “Acredito que há esperança.”

Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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