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Homofóbicos Bateram em um Jovem no Centro de Curitiba Depois dos Protestos do Dia 15 de Março

Os três agressores são ligados à torcida organizada do Coritiba e foram liberados pela polícia no mesmo dia após à agressão.

A vítima G.B. após ser agredido por três membros de uma torcida organizada do Coritiba.

O domingo do dia 15 de março foi uma data bastante esquisita, para dizer o mínimo. A capital do Paraná abrigou um dos maiores protestos da direita no Brasil, reunindo cerca de 80 mil manifestantes, além de também ter rolado o jogo do Coritiba contra o J. Malucelli, no qual, segundo a página oficial no Facebook da torcida organizada Império Alviverde, alguns torcedores foram impedidos de entrar sem aviso prévio com camisetas do time.

Nesse cenário de tensão, um piquenique LGBTT foi organizado no Museu Oscar Niemeyer para celebrar a visibilidade da comunidade na capital paranaense, reunindo algumas dezenas de pessoas, que foram lá para curtir. Infelizmente, o encontro acabou na delegacia após o jovem G.B. e seus amigos serem atacados por um grupo de aproximadamente seis pessoas, com motivações explicitamente homofóbicas, na Avenida Cândido de Abreu, próximo ao Fórum Civil.

"Estava com três amigos, e acabamos passando pelo grupo, que, pela localização, estava saindo do protesto que aconteceu no Centro. Na hora [em] que passamos pelo grupo, nos deram tapas e chutes na cabeça e disseram pra gente 'criar vergonha na cara'. Na hora [em] que um deles veio dar um tapa em mim, segurei a mão dele e partiram para cima", explica G.B., que, por medo de ser reconhecido pelos agressores, pediu a preservação da sua identidade.

O jovem saiu com escoriações feias no rosto e está ainda com um belo dum olho roxo. Segundo ele, foram três homens que bateram nele. A briga acabou no 8º Distrito Policial (que estava funcionando de plantão no dia). Dois agressores foram levados até a distrital, mas o terceiro fugiu. Entretanto, o terceiro agressor foi identificado e denunciado posteriormente por conta de postagens dos outros amigos que participaram da agressão, se vangloriando de terem ficado com a mão inchada após bater no jovem.

"Através do que ele postou na página dos outros agressores que foram presos, ele foi denunciado. E [ele] já tinha envolvimento com outras agressões", explica G.B. Os agressores encaminhados à delegacia foram soltos no mesmo dia por conta do delegado de plantão, que alegou não os ter podido prender porque homofobia não é tipificada na legislação criminal. Na saída da delegacia, o irmão da vítima ouviu as provocações de alguns amigos dos agressores, apontados como membros da torcida organizada do Coritiba, afirmando que "tem de matar esses viadinhos".

G.B. frisa que, apesar de ainda estar obviamente em choque no dia da agressão, se lembra de algumas pessoas terem afirmado que os agressores portavam tatuagens de tema nazista. Embora essa informação não tenha sido confirmada pela polícia de Curitiba, ela nos relembra que, possivelmente, ainda pode haver ligações bastante preocupantes entre simpatizantes neonazistas e a torcida organizada "coxa branca" do Coritiba.

De acordo com a reportagem da revista LadoA, editorial voltado ao público gay de Curitiba, os próprios agressores chegaram a zombar da polícia quando perguntados sobre suas tatuagens. "Lembrando aqui uma das pérolas policiais do rolê de ontem... 'Aê, rapaz, essas tatuagens aê: isso é de gangue, né, não??!?!?!?!' 'Ô, senhor... lógico que não, só corro pelo certo, cada uma delas aqui tem uma história'."

Com a condição de não revelar o nome dos agressores, G.B. liberou para a VICE o Facebook dos envolvidos. Embora seja clara a paixão pelo futebol e pela organizada do time, não há nenhum tipo de envolvimento aparente deles com o nazismo. O agressor que postou a foto da mão inchada, após certamente perceber a cagada, desativou o perfil na rede social. Um dos envolvidos já tinha passagem na polícia pela invasão no estádio Couto Pereira em 2009, onde 14 envolvidos, entre eles o líder da organizada Reimackler Alan Graboski, foram indiciados.

A Secretaria de Segurança Pública do Paraná até se mostrou disposta a prestar declarações sobre a agressão no domingo, porém se absteve de dizer que o caso estava sendo cuidado pelo 3º Distrito Policial. Ao ligar para o distrito, não obtivemos resposta sobre o andamento do inquérito policial.

O G.B. termina nossa conversa falando que ele não era a única vítima de agressão por homofobia no dia, o que traz à tona o espectro de ódio e violência preocupante que perpetuam o estigma do Estado do Paraná como um lugar bastante difícil para os LGBTTs.

Segundo o relatório do Grupo Gay da Bahia, o Sul e Sudeste do Brasil, entre 2013 e 2014, representam 35% dos crimes de homicídio por motivação homofóbica. O Paraná figura como 8º lugar no ranking de vítimas de homofobia e também como o Estado onde mais há crimes de ódio da região Sul. Dos diversos casos, o ataque ao cabeleireiro Cláudio dentro de um ônibus e também as constantes mortes de travestis que acontecem na cidade são alguns dos vários exemplos da situação preocupante na região.

Márcio Marins, ativista e coordenador da ONG Dom da Terra, prestou auxílio posterior à vítima; ao ser procurado, não hesitou em, antes de conceder uma entrevista, procurar confirmar a veracidade da revista. "Hoje em dia, todo cuidado é pouco; [em] outra semana, teve um caso de uma travesti queimada, outra agressão contra um gay, e também tivemos a notícia de uma travesti que foi estrangulada", explica Márcio. "Já recebemos ameaças. E, às vezes, liga alguém desconhecido pedindo informações como jornalista para, posteriormente, usar isso para ameaças", revela o ativista.

O caso de G.B. também foi comunicado às autoridades superiores. "Entramos, até agora, em contato com a Comissão de Direitos Humanos da OAB e [o] Ministério Público do Paraná", conta Marins.