Quem quer ser presidente

Marina Silva: a evangélica que busca o desenvolvimento sustentável

Na série de apresentação dos presidenciáveis para 2018, a VICE conta a trajetória de Marina Silva, da Rede.

por Fernando Cesarotti
21 Setembro 2018, 10:00am

Ela poderia ter morrido vítima das doenças tropicais que ainda assolam os moradores da Amazônia. Poderia estar retirando borracha de seringueiras no meio da floresta. Poderia ter virado freira. A aparência frágil engana: dentro de um corpo miúdo, Marina Silva conta uma história improvável, de alguém que superou incontáveis batalhas e agora se apresenta pela terceira vez diante do desafio de chegar à Presidência da República e comandar o Brasil.

Marina nasceu em Rio Branco, capital do Acre, então apenas um território federal. E não na zona urbana, mas num seringal chamado Bagaço. Lá, desde cedo acompanhou os pais na atividade de retirar o látex das seringueiras, mas sofria com a fragilidade da saúde: teve malária cinco vezes, além de leishmaniose e uma hepatite, que a levou a se mudar para o centro de Rio Branco em busca de tratamento.

Na cidade, aproveitou para realizar o sonho infantil de virar freira. Primeiro, matriculou-se no Mobral, o instituto criado pelo regime militar para a alfabetização de jovens e adultos. Depois, entrou no pré-noviciado. E foi lá que, indiretamente, sua vida política começou: na igreja, viu, num certo dia, um cartaz convidando para um curso de formação sindical que seria ministrado por um padre, chamado Clodovis Boff, e um seringueiro, Chico Mendes.

Clodovis é o irmão mais comportado de Leonardo Boff, o idealizador da Teologia da Libertação, uma tentativa de aproximar a religião católica dos pobres. Leonardo Boff acabaria sendo censurado pela Igreja por seus escritos e se afastaria do sacerdócio na década de 90. Clodovis, que então acompanhava as ideias do irmão, renegaria a Teologia da Libertação num texto escrito em 2007 em que endossava a visão do cardeal Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, nas críticas a essa linha religiosa. O texto foi imediatamente rebatido por Leonardo, que fora condenado ao “silêncio obsequioso” justamente por Ratzinger.

Chico Mendes começava a se firmar entre os seringueiros como um líder, reivindicando melhores condições de trabalho e proteção à Floresta Amazônica. Tornou-se mundialmente conhecido nos anos 80 e foi assassinado em 1988 com tiros de escopeta no peito, num crime que chocou o planeta, dias depois de denunciar na imprensa que vinha sendo ameaçado de morte.

Influenciada pelas ideias de Chico e Boff, Marina deixou o convento e passou a dedicar-se à luta política e social, ao mesmo tempo em que trabalhava como empregada doméstica para pagar as contas. Formou-se em História, trabalhou como professora, filiou-se ao PT e participou da fundação da regional acreana da CUT (Central Única dos Trabalhadores), em 1984 – era vice-coordenadora, abaixo apenas de Chico Mendes na hierarquia.

Sua primeira eleição foi em 1986. Candidatou-se a deputada federal e foi a quinta mais votada no Estado, mas o PT não atingiu o quociente eleitoral e ela ficou fora da Constituinte. Dois anos depois, elegeu-se vereadora em Rio Branco com a maior votação da cidade e em 1990 foi eleita deputada estadual – no primeiro ano de mandato, precisou se afastar para tratar uma nova doença, causada por contaminação por metais pesados durante o tratamento da leishmaniose. Em 1994, elegeu-se a mais jovem senadora do Brasil, aos 36 anos.

No Senado, tornou-se conhecida nacionalmente pela defesa da causa do meio ambiente. Era o principal nome do PT na área. Reeleita em 2002, foi a escolha óbvia do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva para o Ministério do Meio Ambiente – e aí começou o período de inferno astral que a levou a deixar o partido.

O governo Lula apostou numa agenda desenvolvimentista, que pregava a realização de grandes obras, algumas delas com forte impacto ambiental, como a transposição do Rio São Francisco e a construção de usinas hidrelétricas. Acusada de travar algumas obras em função da demora do IBAMA para conceder licenças ambientais, Marina deixou o governo e o PT em 2008, lamentando que o governo petista não conseguisse pensar em desenvolvimento sustentável. Ficaram conhecidas suas disputas internas com a poderosa ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, que se tornaria a escolhida de Lula para sucedê-lo, principalmente em relação à construção da Usina de Belo Monte.

Filiou-se então ao PV e disputou pelo partido pela primeira vez a eleição à Presidência em 2010. Recebeu 19.636.359 votos, terminou em terceiro lugar e se firmou como uma espécie de “terceira via” na oposição entre PT e PSDB. Mas apresentou, também, uma característica que adversários têm usado para miná-la desde então: Marina, segundo eles, se esconde entre os períodos eleitorais, deixando de opinar em assuntos relevantes e perdendo espaço na mídia. Em 2011, deixou o PV para envolver-se na criação de um novo partido, a Rede Sustentabilidade, construído sob seus princípios de que é possível conciliar o desenvolvimento da economia com o respeito à natureza.

Mas Marina teve dificuldades para registrar o partido junto à Justiça Eleitoral. Em 2014, às vésperas da eleição, acertou-se com o então governador de Pernambuco, Eduardo Campos, líder do PSB, para ser candidata a vice em sua chapa. Campos, aliado de Lula, negociara para ser vice de Dilma em 2014, mas queria a garantia de receber o apoio do PT nas eleições de 2018. Sem sentir firmeza, antecipou a ideia de se candidatar e se juntou a Marina, que aceitou ser sua vice e se filiou de forma emergencial ao PSB.

A história deu um de seus famosos giros na manhã de 13 de agosto, quando o avião em que Campos viajava caiu em Santos, no litoral paulista. Marina assumiu a candidatura e disparou na liderança das pesquisas, virando alvo das campanhas de Dilma Rousseff e, em menor escala, de Aécio Neves (PSDB). Terminou novamente em terceiro, aumentando sua votação em quase 15%: foram 22.154.707 votos. No segundo turno, deu um apoio quase constrangido a Aécio, que seria derrotado por Dilma.

No ano seguinte, Marina deixou o PSB e enfim conseguiu registrar a Rede, que ganhou a adesão inicial de diversos políticos de esquerda descontentes em suas legendas, como Heloisa Helena e Randolfe Rodrigues, do PSOL, Alessandro Molon, do PT, Alfredo Sirkis e Ricardo Young, do PV. De forma discreta, apoiou o impeachment de Dilma, defendendo com mais rigor a cassação da chapa Dilma-Michel Temer por crime eleitoral – eles foram absolvidos pelo TSE, em votação feita um ano após o afastamento da presidenta.

Em sua campanha atual, Marina mantém a bandeira do desenvolvimento sustentável e a postura de ser uma “terceira via”, o que lhe rende críticas dos dois lados – na direita, é chamada de “melancia”, “verde por fora e vermelha por dentro”, por sua origem ligada ao PT e ao movimento sindical; a esquerda a acusa de “traição” por ter relação próxima com banqueiros e empresários e por adotar algumas ideias conservadoras, como ser contra o direito ao aborto. Seu plano de governo, de forma genérica, defende um Brasil “justo, ético, próspero e sustentável”, e promete restaurar a confiança dos brasileiros na política. No Datafolha desta quarta-feira, Marina aparece com 7% das intenções de voto.

Maria Osmarina Marina da Silva Vaz de Lima
Formação: Licenciatura em História pela Universidade Federal do Acre
Idade: 60
Patrimônio: R$ 118.835,13
Trajetória (partidos): PT-PV-PSB-Rede
Vice: Eduardo Jorge (PV)

Acompanhe as trajetórias de todos os presidenciáveis na série Quem quer ser presidente . Novos perfis toda segunda, quarta e sexta.

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