Quem quer ser presidente

Haddad: o poste que tenta se eleger entre as sombras e as luzes de Lula

Na série de apresentação dos presidenciáveis para 2018, a VICE conta a trajetória de Fernando Haddad, candidato do PT.

por Fernando Cesarotti; ilustrado por Cassio Tisseo
14 Setembro 2018, 10:00am

“Fernando Haddad é a aposta de Lula para vencer a eleição”. Esta frase não é exatamente nova. Foi cunhada no começo de 2012, quando Haddad deixou o cargo de ministro da Educação para se candidatar à prefeitura de São Paulo. E se repete agora, quando o advogado de 55 anos assume a vaga de candidato do PT a menos de um mês da eleição, tentando vincular sua imagem ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para sair da posição de quase desconhecido e repetir a história de seis anos atrás, quando terminou vencedor.

A história tem traços similares, mas há pelo menos duas diferenças em potencial. A primeira é o tempo: Haddad teve mais de seis meses para se tornar conhecido do eleitorado paulistano até derrotar José Serra no segundo turno e ganhar as eleições municipais. Saltou de 3% da intenções, em pesquisa do Datafolha em março, para 55,5% dos votos, ou exatos 3.387.720 eleitores. A vitória fez valer de novo o ditado de que a popularidade do Lula era tão grande que ele seria capaz de eleger até “um poste” — repetindo o feito de 2010, quando Dilma Rousseff se elegeu presidente na primeira eleição que disputou na vida.

E é aí que entra a segunda diferença: Lula em 2012 estava no auge de sua popularidade; seu governo tinha recém acabado e ele ainda despertara a comoção popular ao se descobrir vítima de um câncer na laringe, meses antes. Desta vez, o ex-presidente está preso em Curitiba, condenado por lavagem de dinheiro pela Operação Lava-Jato, teve sua candidatura impugnada por ser incluído na lei da Ficha Limpa e nem sequer pode aparecer e fazer campanha ao lado de seu candidato. Ainda assim, Lula tinha altos índices de intenção de voto enquanto ainda estava nas pesquisas, e a aposta do PT é que a associação entre o ex-presidente e o ex-ministro podem impulsionar a campanha até a vitória.



Haddad é um paulistano da gema, filho de um libanês chamado Khalil, que emigrara de seu país em 1947, com uma brasileira também filha de libaneses. A família tinha uma vida relativamente confortável, que permitiu ao jovem Fernando cursar o então colegial no tradicional Colégio Bandeirantes e se capacitar para a centenária Faculdade de Direito da USP, situada no Largo São Francisco. A vida não foi tão fácil, porém: ele diz que dividia o tempo entre as aulas, os estudos e o trabalho na loja de tecidos do pai, na Rua 25 de Março, tradicional ponto do comércio popular na capital paulista, a apenas 15 minutos a pé da faculdade. Foi lá, entre uma aula e outra, que Haddad se envolveu pela primeira vez com política, conseguindo inclusive se eleger presidente do famoso Centro Acadêmico XI de Agosto.

Também nessa época, aproximou-se das ideias de esquerda e filiou-se ao PT, mas apenas em 2001 ocupou seu primeiro cargo público, como chefe de gabinete da Secretaria de Finanças e Desenvolvimento Econômico da cidade, liderada pelo economista João Sayad. A essa altura, já tinha mestrado em Economia e doutorado em Filosofia, sempre pela USP, onde já dava aulas. Também chegou a trabalhar como analista financeiro no Unibanco.

Quando Lula assumiu a Presidência, em 2003, vários quadros do partido em todo o país foram deslocados para o governo federal, e Haddad foi um deles. Começou como assessor do Ministério do Planejamento, liderado por Guido Mantega, e no ano seguinte assumiu o cargo de secretário-executivo do Ministério da Educação. Em 2005, com o estouro no escândalo do Mensalão, Lula mudou Tarso Genro para o ministério da Justiça e efetivou Haddad como ministro.

Os quase sete anos no MEC são o grande cartão de visitas de Haddad para a campanha presidencial. Em sua gestão foi criado o Prouni, que oferece bolsas de estudo para estudantes de baixa renda em faculdades privadas — o que aumentou o número de universitários no país, mas provocou críticas à esquerda, com a contestação de que o dinheiro poderia ser melhor aplicado em escolas públicas, e à direita, que questionou o nível de ensino aplicado pelas instituições premiadas com pagamentos feitos pelo Estado. Haddad responde que, em sua gestão, também aumentou o número de universidades federais — foram 14 novas instituições, e 100 novos campi em todo o país. E alega também que o dinheiro do Prouni na verdade era uma isenção de impostos que já não eram pagos pelas faculdades.

Outra marca vendida por Haddad é o aumento no investimento em educação, rebatida pelos críticos com o fato de que o país continua patinando em índices de avaliação internacionais, como o Pisa. Também em seu tempo de ministro, o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) se consolidou como porta de acesso às universidades federais — mas foi alvo de uma tentativa de fraude, em 2009, que provocou o adiamento da prova e causou um prejuízo estimado em R$ 34 milhões.

O fato é que a gestão de Haddad no ministério foi bem avaliada no PT a ponto de ele ser mantido no cargo com a saída de Lula e a posse de Dilma, em 2011, e seu nome passou a ser então cogitado para a prefeitura. A escolha gerou uma fratura no partido, com o descontentamento da ex-prefeita Marta Suplicy, então senadora e que queria voltar ao cargo — mas Haddad, com a bênção do ex-presidente, acabou sendo o indicado. O descontentamento de Marta culminaria, anos depois, com sua saída do partido e seu apoio ao impeachment de Dilma Rousseff.

Na campanha, Haddad se deixou fotografar com Lula e o ex-prefeito e ex-governador Paulo Maluf, para consolidar o apoio de seu partido, o PP, que renderia preciosos minutos de tempo de TV, fundamental para tornar o ex-ministro conhecido. O assunto gerou polêmica a ponto de provocar a ruptura da chapa com a outra ex-prefeita, Luiza Erundina, então no PSB, que seria vice de Haddad — o cargo ficou com Nadia Campeão, do PC do B. Eleito, Haddad enfrentou sua primeira crise em junho de 2013, quando anunciou o aumento da passagem de ônibus, de R$ 3 para R$ 3,20. Ele revogou o aumento dias depois, mas o mote “não é só pelos 20 centavos” colou e culminou na onda de manifestações que ficariam conhecidas como “Jornadas de Junho”.

Sua avaliação na prefeitura melhorou, mas a campanha da reeleição foi abalada por críticas de que a gestão fazia pouco pelos moradores da periferia. Também não ajudou o fato de o antipetismo estar no auge, e Haddad acabou derrotado pelo tucano João Dória no primeiro turno, com apenas 967.190 votos, pouco mais de metade dos 1.776.317 que haviam votado nele no primeiro turno em 2012.

Na atual campanha, o ex-prefeito terá que enfrentar um paradoxo: precisa colar sua imagem à do ex-presidente para se tornar conhecido dos eleitores lulistas fora de São Paulo e mostrar que merece a confiança deles, ao mesmo tempo em que se dissociar um pouco de Lula pode evitar que o ódio ao PT possa prejudicá-lo. Sua proposta básica é repetir o que chama de “coisas boas” dos governos petistas, prometendo a queda do desemprego e o retorno de políticas assistências prejudicadas nos últimos anos. Por enquanto, o desafio é crescer para chegar ao segundo turno. No Datafolha da última segunda-feira, Haddad aparece com 9% das intenções de voto.

Fernando Haddad
Formação: Bacharel em Direito pela USP (Universidade de São Paulo)
Idade: 55
Patrimônio: R$ 428.451,09
Trajetória (partidos): PT
Vice: Manuela D’Ávila (PC do B)

Acompanhe as trajetórias de todos os presidenciáveis na série Quem quer ser presidente. Novos perfis toda segunda, quarta e sexta.

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