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Como seitas usam o YouTube para recrutar seguidores

Não é só conveniência: o site de vídeos do Google é a única fonte de renda de diversos grupos de teóricos da conspiração.

por Mack Lamoureux; Traduzido por Ananda Pieratti
21 Agosto 2017, 10:00am

Foto via Youtube e captura de tela do filme Ghoulies II.

Esse artigo foi publicado originalmente na VICE Canadá.

No dia 15 de julho deste ano, o corpo de Steven Mineo, morto com um tiro, foi encontrado em seu apartamento.

Segundo sua namorada, Barbara Rogers, Mineo estava sentado em posição de lótus no chão de seu apartamento, localizado no estado da Pensilvânia, quando ela apertou o gatilho de sua Glock. Rogers também disse à polícia que seu namorado queria morrer.

Os dois supostamente teriam se filiado, anos antes, a uma seita fundada por Sherry Shriner, uma teórica da conspiração que prega suas ideias na internet. A presença digital de Shriner inclui um site, um podcast e um canal no YouTube. Entre seus ensinamentos está a crença de que um grupo chamado a Nova Ordem Mundial — liderado por reptilianos e alienígenas — planeja dominar o mundo.

Em seu depoimento à polícia, Rogers disse que Mineo queria morrer por causa de um desentendimento com Shriner e seus seguidores. Segundo ela, o conflito teve início quando Shriner viu uma foto de Rogers comendo carne crua. Ao ver essa imagem, Shriner acusou Rogers de ser um reptiliano e excomungou os dois de sua seita. Nos três meses seguintes, os dois foram perseguidos pelos seguidores de Shriner. O assédio só teve fim quando Rogers matou Mineo — morte que, segundo Shriner, teria sido orquestrada pela OTAN.

A página inicial do site de Sherry Shriner.

Em seu site, Shriner publica longos tratados com títulos como "As Futuras Invasões dos Gafanhotos Alienígenas Gigantes"e "Como Alienígenas Sondam, Manipulam e Controlam a Humanidade". Embora a base da seita de Shriner esteja localizada em Ohio, nos EUA, seus vídeos são usados para recrutar fiéis do mundo inteiro. Seu canal do YouTube tem mais de 6.000 inscritos e, juntos, seus vídeos acumulam mais de um milhão de visualizações.

Esse fenômeno não se limita à Shriner. Hoje muitas seitas usam as redes sociais — em particular o YouTube — como centros de recrutamento.

"As pessoas não entendem que uma seita pode ser completamente virtual", diz Rick Ross, fundador e diretor executivo do Cult Education Institute , uma organização sem fins lucrativos. "Os recrutadores dessas seitas aliciam suas vítimas pela internet — pelo Skype — e nunca pessoalmente".

"Esse fenômeno está ficando cada vez mais comum, quase corriqueiro".

Filie-se sem sair de casa

Ao longo dos anos, se tornou cada vez mais difícil definir o que é uma seita. A definição mais completa foi proposta em um artigo de 1981, no qual o Dr. Robert Lifton, psicólogo conhecido por sua teoria da doutrinação, escreve que, independentemente de sua ideologia, uma "seita destrutiva" possui três características definidoras: um líder autoritário ou sábio; a existência de programas de lavagem cerebral que suprimem o pensamento crítico; e a exploração de seus membros.

Steve Hassan, fundador do Freedom of Mind Resource Center e profissional da área de saúde mental com especialização no auxílio a integrantes de seitas, afirma que, a cada dia, mais práticas de exploração comuns a seitas são adaptadas para a internet. "As novas gerações cresceram na internet. Ela é um campo de recrutamento muito fértil", disse Hassan à VICE. "Atualmente, é mais provável que esses jovens sejam aliciados nas redes sociais do que pessoalmente."

A página principal da Rael TV, o canal do YouTube do Raelianismo, uma seita particularmente conhecida. Imagem obtida via captura de tela.

Seitas de grande relevância como o Raelianismo, The Brethen, A Igreja da Unificação e a Família Internacional usam o YouTube para espalhar suas crenças. O Raelianismo — seita fundada nos anos 70 que defende que humanos foram criados por alienígenas — coordena páginas como a Rael TV e a Rael Academy, onde internautas curiosos podem aprender mais sobre os preceitos da seita. Alguns dos vídeos publicados nesses canais foram vistos mais de centenas de milhões de vezes.

Para cada um desses grupos consagrados, existem dezenas de outros menores, como o Divine Truth, o Trumpet Call of God e o grupo liderado por Shriner.

Alguns vídeos usam versões distorcidas de religiões relevantes para angariar seguidores, enquanto outras oferecem uma "verdade" mais secular. Muitos encorajam os seguidores a se isolarem, mantendo contato apenas com outros membros — mas sempre enviando doações para o líder do grupo. Alguns outros, mais diretos, recomendam que os seguidores larguem suas vidas e vão morar na sede da seita. Embora as táticas de recrutamento de cada seita variem, todas compartilham uma mesma característica: o recrutamento acontece online, no conforto da sua própria casa.

"É assustador", diz Ross. "Seu filho pode estar no quarto, mexendo no celular, quando na verdade ele está participando de uma seita sob seu teto. Enquanto você assiste Netflix, seu filho está lá, interagindo com membros e líderes de uma seita".

Imagem retirada de um vídeo postado recentemente por Doug Perry.

O YouTube é a única fonte de renda de muitos desses grupos. Uma suposta seita conhecida como Irmandade dos Mártires — cujos principais interesses incluem, entre outras coisas, a demonologia — é comandada por Doug Perry, que até o momento conta com 15.000 seguidores no YouTube e 1.300 vídeos publicados. Todos os vídeos mostram Perry falando para a câmera sobre sua religião de forma tão passional quanto um pastor prega um culto.

Dois especialistas entrevistados para essa matéria afirmaram que, do ponto de vista técnico, o ISIS é o melhor exemplo de como uma seita pode usar a internet para angariar seguidores. O grupo radical islâmico controla uma rede de propaganda digital extremamente sofisticada. Essa propaganda explica porque muitos jovens se auto-radicalizam e cometem ataques terroristas sem nunca encontrar outros membros do grupo.

Embora o YouTube seja a plataforma de escolha da maioria das seitas, elas lançam mão de todas as ferramentas disponíveis para estender seu alcance, afirma Ross. O uso das mídias sociais, associado ao fato de que essas plataformas permitem que seus usuários se isolem em uma bolha, torna a questão ainda mais preocupante.

"As pessoas podem se fechar dentro desse universo alternativo, escolhendo quem elas aceitam no Facebook, quem elas seguem no Twitter, quem elas assistem no YouTube", diz Ross.

"Eu estudo isso há muito tempo, e sei como as pessoas podem se afastar da realidade. Elas passam a viver em um universo alternativo que está sempre se reafirmando. E hoje isso pode ser feito com mais facilidade e de forma mais eficiente".

A história de uma ex-Fiel

Marisa O'Connor tinha pouco mais de 20 anos quando conheceu o Freedomain Radio (FDR) e os ensinamentos do pseudo-filósofo canadense Stefan Molyneux.

Tudo começou quando um de seus amigos lhe indicou os vídeos de um homem careca e de sotaque agradável que falava sobre anarquismo. O'Connor, que se interessava pelo assunto, decidiu dar uma chance para os vídeos. Os longos monólogos de Molyneux, ditados por ele diretamente para a câmera, seduziram ela logo de cara.

"Tudo começou com ele falando sobre anarquismo, depois criticando religiões e dizendo que todos os problemas do mundo eram culpa de 'pais ruins'", disse O'Connor à VICE.

Depois de ouvir Molyneux repetindo isso por horas e horas, O'Connor se convenceu de que seus pais, pessoas abusivas e manipulativas, não a amavam. Junto com essa revelação, O'Connor descobriu a solução para aqueles que tinham tido essa mesma epifania: o deFOOing , termo criado por Molyneux para designar o ato de se afastar totalmente de seus familiares.

"Molyneux dizia que se muitas pessoas fizessem isso — se elas fizessem esse sacrifício — o mundo entenderia que os pais precisam tratar seus filhos melhor", conta O'Connor. "Eu acreditava que estava ajudando, que eu fazia parte dessa missão de proteger as crianças."

Talvez você já tenha ouvido falar de Molyneux, ou quem sabe visto seu rosto. Nos últimos anos, ele ganhou popularidade como uma figura pró-Trump — seu trabalho foi citado recentemente em uma matéria do New York Times sobre como o YouTube roubou o espaço antes ocupado por programas de rádio conservadores. Em seu canal do YouTube, atualmente com 650.000 inscritos, Molyneux entrevista figuras públicas de relevância. Juntos, seus vídeos foram vistos mais de 185 milhões de vezes — além disso, seu site oferece um serviço de assinatura com planos de até U$500.

Há quase uma década, especialistas e ex-membros afirma que o Freedomain Radio (FDR) é, para todos os efeitos, uma seita. A prova seria o deFOOing, que na prática resulta em auto-isolamento e devoção cega a Molyneux. O Cult Information Centre, instituição que há 30 anos oferece auxílio a vítimas de seitas e suas famílias, chegou a definir o Freedomain Radio como uma seita. O caráter manipulativo do site já chamou a atenção de veículos jornalísticos como o The Guardian e o Daily Beast . Steve Hassan é um dos especialistas que criticaram Molyneux. Em seu site, Freedom of the Mind, Hassan afirma que o FDR usa técnicas de controle comportamental — entre elas fazer com que seus seguidores temam o mundo real e excomungar aqueles que criticam Molyneux ou o grupo — para controlar seus integrantes.

Molyneux, que já negou ativamente que o FDR seja uma seita, não respondeu às perguntas da VICE.

Stefan Molyneux entrevistando o famoso e cético Dr. Michael Shermer no início de 2017. Imagem obtida via captura de tela.

Segundo Hassan, seu primeiro cliente foi um membro do FDR que havia sido "recrutado em seu próprio apartamento" depois de passar "horas e horas ouvindo podcasts e assistindo a vídeos". Hassan afirma que os vídeos sobre política e as entrevistas são a porta de entrada para o deFOOing. Hassan também diz que as pessoas consomem o conteúdo produzido por Molyneux porque ele é carismático, fala sobre temas polêmicos e passa a imagem de um homem que sabe o que está falando.

"Pessoas como ele colocam uma informação sem fundamento a cada três fatos verdadeiros e, a mente, com seus saltos lógicos, repete sim, sim, sim, sim. Mesmo que o último dado não seja correto, na nossa cabeça ele representa, no mínimo, um ponto de interrogação", disse Hassan.

Em 2008, convencida de que sua família era abusiva, O'Connor cortou relações com todos seus familiares, se distanciando também de amigos que questionavam suas ações — segundo ela, Molyneux havia a convencido de que eles eram covardes. Depois de um ano, essa "imersão nesse outro mundo" deixou sua vida profissional tão tensa que ela foi demitida.

Uma imagem do site defoo.org, que expõe membros do "círculo íntimo" de Molyneux que vieram a se afastar do guru.

Dali em diante ela se isolou completamente, interagindo apenas com outros membros do FDR através de fóruns ou pelo Skype. Mesmo com pouco dinheiro, ela continuava a assinar o serviço de assinatura premium de Molyneux, desembolsando por volta de US$50 por mês. Molyneux tornou-se o centro de sua vida — ele era seu herói, seu mestre.

"Quando eu estava isolada, meu mundo era o FDR. Eu voltava para casa, ouvia o podcast com algum colega e depois a gente conversava sobre o podcast e ligava para outros membros do grupo", conta O'Connor.

Durante esse longo período de isolamento, O'Connor diz que Molyneux "era dono da palavra e da verdade. Ele me falava o que pensar". No entanto, após entrar no chamado "círculo íntimo" de Molyneux e ver a verdade por trás do movimento, O'Connor começou a se afastar. Apesar dos muitos motivos, ela conta que a gota d'água foi quando uma de suas amigas abandonou o FDR. O'Connor esperava que a vida de sua amiga ruísse após ela abandonar o movimento — algo que Molyneux repetia sempre. Mas isso não aconteceu: sua amiga, contrariando todas suas crenças, estava a cada dia melhor.

Em 2012, após quatros anos de isolamento, O'Connor entrou em contato com sua família, dando fim a seu exílio. Ela também começou a criticar Molyneux nos fóruns do FDR, o que rapidamente culminou em sua expulsão dessa parte do grupo. O'Connor diz que no momento sua vida é muito boa, e que embora ela esteja disposta a falar sobre sua experiência — ela já apareceu em um documentário do canal Showtime sobre o FDR —, ela demorou cinco anos para reorganizar sua vida, o que faz com que ela seja mais cuidadosa com as informações que ela consome.

"Se tem algo que aprendi com tudo isso, é que existem muitos grupos como esse por aí", disse O'Connor. "Isso me preocupa... Isso é tão assustador, porque vemos a internet como uma fonte incrível de informação, mas acho que temos que entender que muito dessa informação é ruim".

O'Connor acrescentou que, embora o deFOOing não seja mais a principal preocupação de Molyneux, muitos seguidores ainda seguem a prática. Molyneux não abandonou sua retórica combativa; em um vídeo publicado recentemente, ele pede doações para seus seguidores, argumentando que a "grande briga" contra a mídia para qual ele vem "se preparando há trinta anos" está próxima.

'Auto-policiamento'

A história de O'Connor é apenas mais uma entre muitas, assim como o FDR é mais um entre muitos grupos espalhando suas ideias pela internet. Quando questionado sobre uma possível solução para esse problema, Ross disse à VICE que, em sua opinião, a resposta estaria nas mãos das própria plataformas.

"Creio que as redes sociais tem de se auto-policiar", afirma ele. "Não estou dizendo que é preciso desrespeitar a liberdade de expressão, mas quando um grupo é abertamente violento ou está envolvido em fraudes, enganando pessoas e sendo visivelmente abusivo, acho que o YouTube, o Facebook, o Twitter e o Linked In deveriam fazer alguma coisa".

Um vídeo no qual Sherry Shriner afirma que Justin Bieber planeja implantar microchips satânicos em seus fãs. Imagem obtida via captura de tela.

Embora a maior parte do conteúdo do YouTube não esteja, de forma alguma, relacionada a atividades do tipo, alguns vídeos extremamente acessíveis estão. Recentemente, o YouTube anunciou que irá fiscalizar vídeos "controversos"— em boa parte um código para vídeos de grupos terroristas — com mais rigor do que nunca. Isso inclui aplicar políticas mais rígidas e trabalhar com especialistas e grupos anti-extremistas. As novas políticas incluem uma medida que enfureceu muitos: alguns vídeos classificados como "controversos", sem no entanto infringir os termos do site, serão condenados a uma espécie de limbo, onde eles não serão recomendados ou monetizados.

Hoyt Richards, sobrevivente de uma seita que hoje auxilia aqueles que desejam seguir seu exemplo, diz que um dos maiores impasses para aqueles que lutam contra esses grupos é a falta de entendimento do que é uma seita e de quem pode ser cooptado. Ao narrar sua experiência, Richards disse à VICE que ele estava "convencido de que o grupo não era uma seita pelo simples fato de que eu fazia parte dele. O maior problema é que as pessoas não entendem o que é uma seita". O'Connor concorda. "Sinceramente, as pessoas que eu conheci eram muito inteligentes, e parece que é mais difícil para elas deixar esse mundo", disse ela.

Desde a popularização das mídias digitais, Ross ajudou dezenas de pessoas que se juntaram a seitas pela internet. Uma dessas pessoas foi um homem com educação superior, considerado extremamente inteligente por aqueles que o cercavam. O emprego desse homem exigia que ele trabalhasse de casa, passando horas a fio no computador. Ele estava passando por um momento difícil — seu melhor amigo havia morrido — quando descobriu os vídeos de um grupo chamado Israelitas Unidos em Cristo.

"Ele basicamente deixou o cérebro marinando no canal deles até começar a nadar no chorume", conta Ross. "Só aí ele foi para uma reunião, mas quando ele chegou lá ele já havia sido completamente seduzido por esses vídeos. Ele entrou lá já convertido".

Ross, que trabalha como especialista em "desprogramação" (terapia voltada para ex-integrantes de seitas) desde 1986, afirma ter atendido mais de 500 pacientes. Isso não significa que sua experiência no ramo não seja controversa. A participação de Ross no desmantelamento de uma seita em Waco, no Texas — onde um cerco fracassado causou o incêndio da sede do grupo Ramo Davidiano, resultando na morte de 76 pessoas — foi muito criticado por outros especialistas. Em 1995, Ross foi processado por Jason Scott, um seguidor de uma seita pentecostal que Ross teria tentado "desprogramar". O resultado da ação civil rendeu Scott milhões — Ross também sofreu acusações criminais, mas foi absolvido pelo júri. O processo faliu a Cult Awareness Network, que funcionava desde 1978.

Apesar da internet permitir que esses grupos funcionem e continuem a aliciar pessoas, ela também pode ser uma rota de fuga. É possível encontrar muitas informações sobre seitas na internet — O Cult Education Institute possui um banco de dados gratuito com informações sobre seitas, além de um serviço de auxílio para pessoas com parentes aliciados por esses grupos.

Além disso, o mundo digital também oferece uma rede de apoio para aqueles que estão retornando ao mundo real depois de anos seguindo uma seita. Existem fóruns e grupos de apoio para ex-integrantes, alguns dos quais voltados para seitas específicas. O FDR Liberated é um deles: o site oferece apoio para aqueles que desejam renegar os ensinamentos de Molyneux.

"O FDR Liberated foi incrível — eles me ajudaram muito", disse O'Connor à VICE. "Eu não sei o que faria sem eles... O fórum foi especialmente importante para mim durante os momentos difíceis. Era só lá que eu podia falar sobre essas coisas".

Hassan diz que líderes de seitas e charlatões sempre farão o que for necessário para sanar sua sede de dinheiro e poder.

"Pessoas que acreditam serem donas da verdade usam qualquer plataforma — às vezes até criando suas próprias — para encontrar seguidores fiéis. Esses movimentos estão sempre evoluindo, eles não são estáticos", afirma Hassan.

"Em três anos, os movimentos que estão aparecendo hoje migrarão para novos aplicativos, onde as coisas funcionarão de outra forma."

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