Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Este antropólogo afirma que a hipsterização não gentrificou SP

Após anos de estudo na Vila Buarque, Maurício de Alcântara concluiu que a invasão de modernos não provocou tantas mudanças sociais quanto se pensa.

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18 Março 2019, 1:47pm

Foto: Larissa Zaidan/ VICE

A Vila Buarque nasceu na virada do século dezenove para o vinte quando a elite cafeeira paulistana começou a sair do centro antigo de São Paulo e a se instalar no então bairro de palacetes Higienópolis. Para os comércios e serviços, preferiu-se erguer uma região satélite, que também funcionaria como uma barreira simbólica entre Higienópolis e o centro, não mais tão desejado como antes. Assim surgia a Vila Buarque, bairro na região central da cidade, que sempre atraiu muitos arquitetos, cientistas sociais, além de outros intelectuais e académicos, por sediar instituições de ensino como o Mackenzie, uma parte da Faculdade de Arquitetura da USP, e a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Foi há cerca de cinco anos, no entanto, que a região começou a se apinhar de lojinhas de design, cafés e restaurantes de ares cosmopolitas com oferta de produtos artesanais, de design, orgânicos e afins. O cientista social Maurício Fernandes de Alcântara, 34, frequentou todos (ou quase). Mas ele não estava passeando.

Membro do Grupo de Estudos de Antropologia da Cidade (Geac) da USP, desde 2016 Maurício vem circulando pelo bairro, tomando cafés e batendo muitos papos com moradores, frequentadores e empreendedores locais para sua pesquisa de mestrado sobre a hipsterização da Vila Buarque. Nesta conversa com VICE, ele vai mudar sua concepção de hipster apenas como um cara barbudo, com óculos de aro grosso e camisa xadrez. O estereótipo pode até ser verdadeiro, mas é raso. A hipsterização está imbricada em uma série de fenômenos sociais contemporâneos que passam pela explosão da internet, crise do trabalho, progressismo político, gentrificação (ou não) e, claro, cerveja artesanal. Pegue seu café coado e acompanhe.

VICE: Como se define um hipster?
Maurício Fernandes de Alcântara: É uma pegadinha essa palavra, não existe uma só definição. O termo surgiu nos anos 1940 nos EUA. Era um apelido que se dava para as pessoas brancas que eram aficcionadas por jazz e imitavam os trejeitos, as formas de se vestir e de falar dos músicos negros do jazz. Desde então hipster já era ironizado, talvez porque tinha essa coisa da perfomance visual, corporal, era forçar a barra para ser uma coisa, se mostrar. Depois a palavra sumiu e voltou no final dos anos 1990 com várias camadas de significado. No mais imediato estamos falando de jovens urbanos com dinheiro, que vivem em áreas centrais, e se preocupam com moda, não necessariamente vestuário, mas tendências em geral. Tem uma coisa de estar à frente, o before it was cool [antes de virar modinha]. Essa é a primeira camada, a do estereótipo, que se vê no senso comum, na imprensa, blogs e redes sociais. Existia um tumblr chamado Look at this fucking hipster só para ironizá-los. Tinha a foto do cara com o bigodão, barba, tatuagens, óculos de aro grosso, uma roupa com desenhos divertidos sentado em um café ouvindo uma vitrola com um fone de ouvido gigante. Depois começaram a surgir estudos e definições um pouco menos jocosas. Porque é isso, hipster é uma coisa meio jocosa. Sempre foi uma categoria acusatória: "ah, você é o maior hipster”. Dificilmente alguém se autodenomina como hipster e assume isso como identidade.

Quais seriam as concepções mais sociológicas?
De forma abrangente, hipsters são jovens adultos (entre 25 e 40 anos), majoritariamente brancos, com poder aquisitivo elevado, alta escolaridade, capital cultural e sensibilidade a tendências globais de moda, comportamento e consumo. Muitos estão vinculados a áreas profissionais tidas como criativas (comunicação, tecnologia, arquitetura e artes) e valorizam características da região central, como a diversidade e a infraestrutura de serviços públicos. Possuem estilos de vida e modos de consumo que operam um distanciamento proposital do que é mainstream, privilegiando locais pequenos e discretos, voltados a um público reduzido, e cujos produtos são associados a exclusividade: artesanais, orgânicos, veganos, autorais…Mas cada vez menos uso o adjetivo hipster, falo mais em hipsterização, pois estou interessado no fenômeno que está acontecendo na cidade.

E como é essa relação com as cidades?
Nos EUA, mais especificamente, essa é uma geração que passa por uma virada de papéis e funções dentro da cidade. Seus pais e avós saíram do centro urbano para morar em casas com gramado em condomínios no subúrbio, muito homogêneos economicamente, racialmente e culturalmente em relação a seus habitantes, em um momento em que a urbe tinha uma função mais industrial. Quando essas cidades, como Nova York, passam a ser o centro de comando de multinacionais e do mercado financeiro tem-se uma demanda por serviços como consultorias, escritórios de advocacia, agências de publicidade, produtores de cinema, relações públicas, um monte de profissionais altamente especializados, que demandam um nível educacional elevado. E quem vai assumir esses cargos são os filhos dessas gerações que foram para o subúrbio e começam a voltar para o centro das grandes cidades para trabalhar. Em um momento em que a massa operária vai diminuindo e perdendo poder econômico, esses caras chegam na cidade ganhando muito, querendo morar num bairro legal, com bares, baladas, teatros, cinemas e restaurantes interessantes. Isso acontece quando a internet explode e passa-se a ter muito mais acesso à informação e circulação de repertórios de gostos, estéticas e emblemas.


Em São Paulo, como se observa isso?
Onde mais se concentra esse fenômeno que chamo de hipsterização é nos bairros de Santa Cecília, Vila Buarque e República, na região central, talvez também em Pinheiros, na zona Oeste, mas com um perfil diferente. Fiz minha pesquisa na Vila Buarque, onde, de 2013 para cá, começaram a surgir diversas lojas de design, de publicações independentes, plantas, cafés, bares e restaurantes. Em 2016 fiz um primeiro mapa desses lugares, eram cerca de 30 estabelecimentos. Em 2017 surgiram quase 20 comércios dentro dessa cena e, em 2018, foram 26. Existe uma subjetividade na criação desse mapa, mas usei basicamente três atributos: perfil dos frequentadores, dos produtos e do ambiente. Os produtos oferecidos, no geral, acentuam no discurso de venda terem um diferencial, seja porque é orgânico, artesanal, exclusivo daquele lugar. O ambiente tem uma série de traços que a internet ajuda a circular. Quando você olha as referências no Pinterest, por exemplo, vê os cafés na Noruega, nos EUA, Japão ou na Vila Buarque compartilhando de alguns códigos visuais e materiais. Com isso, o bairro começa a atrair um determinado perfil de pessoas interessadas em morar, frequentar os lugares ou abrir negócios. Existe uma intensificação desse processo, que muitas vezes é lido como gentrificação.

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Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Os hipsters são gentrificadores?
O termo gentrificação foi proposto em 1964 por Ruth Glass [socióloga britânica] para as transformações observadas em bairros operários de Londres que passavam a atrair classes mais elevadas. Já nos anos 1970 e 1980 o termo começa a ser muito disputado. Tem uma perspectiva teórica conhecida como humanista/culturalista que afirma que o que produz gentrificação são as pessoas que chegam em um bairro mais degradado e demandam um tipo de moradia histórica, que remetam à "autenticidade" do bairro, com infraestrutura ao seu redor, comércio que condiz com seu estilo de vida. É a ideia dos pioneiros, que seriam artistas, estudantes descolados, hipsters, essa galera que chega porque o bairro é interessante, mais acessível do que outros da cidade e culturalmente diverso. Essa cena atrai o mercado e os preços sobem gradativamente, até a expulsão dos moradores antigos. É um processo usado para explicar o caso do SoHo de Nova York, por exemplo. Tem outra linha, marxista-estruturalista, que diz que as pessoas fazendo isso é só reflexo do capital. São as construtoras que começam a investir grana em uma região, normalmente quando o Estado dá o aval para determinadas obras, e isso produz a gentrificação. Estou trabalhando com a definição de dois autores (Mark Davidson e Loretta Lees) que traçaram quatro denominadores comuns de ambas as teorias para se considerar que um lugar está gentrificando: reinvestimento de capital; melhoria social e de infraestrutura dos lugares devido à chegada de grupos de alta renda; mudança da paisagem; e deslocamento direto ou indireto de pessoas de menor renda em função da chegada de outros de maior renda.

Os hipsters seriam os pioneiros como foram os artistas para o Soho de Nova York?
A definição dos pioneiros da gentrificação e a do hipster é muito parecida. Jovens profissionais da classe criativa, que não são os mais ricos da cidade, mas têm alto capital cultural e social, e são atraídos pelas áreas centrais em função de sua diversidade social e cultural. Por isso muita gente associa a figura do hipster com a gentrificação. A questão é que esse processo depende de uma série de fatores. Não é uma receita determinista. Mas a palavra gentrificação está parecendo uma profecia que se autocumpre, como afirma [o geógrafo grego] Thomas Maloutas, quase o destino da cidade. Apareceram os hipsters, acabou, agora vai gentrificar. Mas não, vamos entender o contexto de cada lugar. Quem são as pessoas a quem essa identidade é atribuída, por que estão naquele bairro? Os gentrificadores normalmente só chegam depois que a região foi "domesticada", acabou a sujeira, a violência, a questão dos moradores de rua, quando acaba a heterogeneidade. Existe uma predominância de discurso quando se fala hipsterização, parece que são aqueles agentes do mal, que chegam e encarecem tudo, expulsam todo mundo, mas quando você observa, muitas vezes essas pessoas se interessam pelos bairros centrais justamente porque são mais acessíveis.

Afinal, a Vila Buarque está ou não passando por um processo de gentrificação?
Se pegarmos os quatro denominadores comuns teóricos, não. Investimento de capital de construtoras: há alguns prédios novos, mas não tem tanta área passível de ser construída no bairro, que já é adensado. Outro ponto, a infraestrutura do bairro sempre foi bem consolidada. A mudança na paisagem urbana é sutil, já que não há tantas construções recentes e os novos comércios são pequenos e discretos. Quando pesquiso as fachadas desses pontos comerciais no street view do Google vejo que antes eram imóveis vagos ou havia uma recorrência de coisas que abrem e fecham. Isso sugere que esses novos estabelecimentos comerciais não necessariamente estão expulsando os antigos. Em relação ao deslocamento de pessoas de menor renda, a Vila Buarque é um um bairro que desde sua fundação sempre foi de camadas médias e altas. Talvez haja uma celebração recente da região que se reflita em aumento de custo de aluguel. Agora, se está acontecendo expulsão de população, me parece que seria em escala não majoritária, diferente de quando se pega um bairro operário que vira boutique. Por outro lado, as pessoas na Vila Buarque estão me dizendo "meu aluguel aumentou, meu salário não, estou sendo vítima da gentrificação”.

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Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Se o bairro não está gentrificando, por que as pessoas dizem que está?
Digo que não está gentrificando e ao mesmo tempo está. As pessoas não precisam fazer um balanço bibliográfico para dizer se aquilo se encaixa em gentrificação ou não. Qual o significado comum do termo? Encarecimento do lugar com chegada de uma galera pioneira, descolada, abertura de bares, lojinhas. Isso se percebe no cotidiano, na rua, nas conversas com as pessoas, na leitura que fazem de como o bairro está diferente. Se tem aumento de preço, para elas isso é gentrificação. Existe uma preocupação do bairro como se conhece estar se perdendo. Um medo das pessoas não poderem mais viver ali no futuro, uma certa nostalgia, um processo de defesa contra mudanças aceleradas ou uma idealização de como a cidade ou bairro deve ser. A chacota pejorativa com os hipsters é muito em função dessa associação com gentrificação. Então, ele é o indesejado, não o quero aqui. Da mesma forma que o repertório hipster, esses referenciais visuais, gostos estéticos, formas de consumo, modos de estar na cidade circulam – seja pela internet, cinema, televisão ou mesmo pelas viagens, que se tornaram mais baratas com o surgimento das companhias aéreas low cost e hospedagens tipo Airbnb – existe outro repertório que viaja junto que é a crítica a isso.

O termo se popularizou então…
É interessante ver como a palavra gentrificação, que por décadas ficou restrita aos estudos urbanos e à academia, entrou no debate público. Vem sendo abordada pela imprensa, movimentos ativistas e até por séries de TV, como a She's Gotta Have It, do Spike Lee, e a Unbreakable Kimmy Schmidt, ambas da Netflix. Essa última é uma comédia da Tina Fay que tem uma personagem que é moradora do Brooklin, em Nova York, há décadas e é apavorada com a gentrificação [no episódio seis da segunda temporada ela chega a desejar a morte de um hipster que aluga um apartamento via Airbnb no bairro]. Outro dia li no Twitter alguém falando sobre gourmetização de comida: “CHEGA dessa enganação culinária gentrificada!!!”, creio que a pessoa estava sendo irônica, mas isso mostra como a palavra extrapola até a discussão urbana. Se um conceito serve pra explicar tudo, ele não explica nada. Tenho dificuldade de enxergar como as remoções que aconteceram no Rio de Janeiro em função das obras das Olimpíadas, a nova moda em torno de alguns bairros no centro de São Paulo ou o que acontece no Williamsburg, em Nova York, como a mesma coisa. Tem lugares que é o Estado passando o trator, em outros é o mercado imobiliário atuando, ou os proprietários usando estratégias para valorizar seus imóveis em função do turismo, por exemplo.

Tem algum lugar de São Paulo que estaria de fato passando por esse processo?
Alguns autores afirmam que na América Latina o principal agente gentrificador é o Estado, quando ele cria mecanismos que dão carta branca para sair demolindo quarteirões a torto e a direito. O lugar em São Paulo que melhor ilustraria isso era o Projeto Nova Luz. Era reinvestimento de capital, com muito dinheiro sendo colocado pelas construtoras, porque seria grande concessão urbanística, com melhoria da infraestrutura e expulsão de moradores antigos de renda mais baixa. Mas houve muita resistência e o projeto não saiu do papel.

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Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Para além de questões da cidade e do consumo, sua pesquisa também aborda a crise do trabalho. Como é isso?
Para muitos proprietários dessas lojinhas de design e cafés investir nesses lugares faz parte de projetos de vida e de rupturas com carreiras anteriores. Isso reflete também uma precarização do mercado de trabalho. Não é algo da magnitude dos 27 mil funcionários da Ford sendo demitidos, mas também faz parte da crise econômica.


E qual a relação da hipsterização com ativismo urbano e progressismo político?
O centro sempre foi uma região muito bem servida de transportes, equipamentos, cultura, lazer e com uma oferta grande de habitação em vários formatos. Isso é atrativo, mas sempre existiu. Nos últimos cinco anos têm-se esses novos estabelecimentos comerciais que acabam atraindo também. Mas estar no centro tem um significado muito importante, principalmente quando se fala em camadas médias e altas da população. O centro é bastante visto como uma região perigosa, em que as pessoas vão rapidamente apenas para resolver uma coisa que não poderiam fazer em outro lugar da cidade. Tem esse discurso da decadência, de ser vazio, perigoso. Em determinado momento surge um público mais jovem, disposto a estar no centro, que pensa na diversidade. No geral isso tem a ver com visão mais progressista de olhar para a cidade e suas complexidades. Eu reconheço o meu lugar de privilégio, ao mesmo tempo faço questão de não estar em um condomínio fechado. É um posicionamento político.

Então, embora nem os hipsters queiram ser chamados de hipster, a coisa não é tão ruim assim…
É uma palavra jocosa, mas não é estigmatizadora. Ninguém deixa de conseguir emprego porque é percebido como hipster. Também não corre risco de apanhar na rua, ganhar um salário menor do outra pessoa na mesma função. É uma categoria acusatória, mas não reduz privilégios.

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